QUEBRAR O SILÊNCIO por Luísa Lobão Moniz

As mulheres, as crianças, os idosos e os deficientes continuam a merecer o estatuto de vítimas de violência, que nestes casos ficam abrangidos pelo estatuto de violência doméstica, ou melhor dito, de violência no seio da família ou de instituições que supostamente deveriam cuidar da protecção das pessoas mais vulneráveis a estes crimes.

As crianças que assistem a esta violência não são ainda consideradas vítimas!!

Será que vamos reagir com força contra esta medida de não considerar a criança como vítima quando esta assiste a cenas de violência?

Quem são os mais vulneráveis a estes crimes?

Todos os dias são relatados casos de violência contra mulheres, muitas vezes chega ao homicídio, alguns com “requintes” de malvadez e de pormenores sórdidos.

Infelizmente é incalculável o número de crianças, idosos e deficientes que assistem a estes comportamentos para os quais a sociedade não tem conseguido dar a resposta mais adequada nem para as vítimas nem para os agressores/assassinos.

Já se percebeu que não é a cadeia, nem a castração química que resolvem esta situação, ou que inibem este comportamento, pois as motivações são de grande complexidade e de pouca exploração a nível da busca das suas origens, talvez porque “só acontece aos outros…”. Porquê?

Sabe-se que é transversal a todas as classes sociais, sabe-se que as vítimas levam muito tempo até conseguirem dizer a alguém o que tem acontecido, até conseguirem dizer como se sentem diminuídas emocionalmente, como integram essa “fatalidade” na sua vida, como justificam o não fazer queixa à Polícia.

 Por medo e por vergonha e, quantas vezes, por sentimentos de culpabilização.

“Se calhar fui eu que provoquei esta situação”, “ Se calhar não devia ter ido tomar café com o meu colega de trabalho”, “Se calhar não faço tudo o que ele quer”, “ Se calhar porque ele quando bebe não sabe o que faz”, e mais, e mais, e mais justificações que colocam o sentimento de culpa no correr da rede sanguínea do seu corpo e tudo só passará quando ela desaparecer…mas, e os meus filhos? Só se eu os levar comigo para a ponte…

Na família ninguém faz nada, porquê?

Os filhos choram e levam pancada, os idosos choram e sentem-se culpados por estes comportamentos.

A culpa ou faz com que a acção fique paralisada, sendo interiorizada como algo que não pode ser ultrapassado, ou faz com que a revolta de se sentir culpado tenha a energia, o conhecimento e o propósito de a reparar.

Nas situações acima descritas essa revolta está como que barrada pela condição familiar, do poder de quem trabalha e sustenta os membros da família.

“Enquanto eu trabalho tu vais para o café falar com…”, “ tu só fazes porcaria na escola…”, agora nasceu mais esta e a assistência social não ajuda…”, “ o que é que eu fiz para que o meu filho me bata e castigue só porque não posso trabalhar porque estou doente”.

A vida privada está embrulhada em violência sobre os seus elementos. A vida privada é um campo fértil para os homens e as mulheres darem azo aos seus comportamentos, com afecto ou com maus tratos.

Com a divulgação de inúmeros casos de violência sobre as mulheres foi nascendo a necessidade de o homem também começar a querer partilhar a dor de, apesar de homem, ter sofrido e continuar a sofrer abusos sexuais por parte de outros homens ou de mulheres, quando foram crianças e adolescentes.

Começou a surgir a necessidade de se iniciar um diálogo sem medos sobre esta realidade: os homens também são vítimas de abusos sexuais enquanto crianças e adolescentes.

Aos homens que sofreram abusos sexuais e que continuaram a sua rotina diária, apesar da dor, da vergonha e da culpa, estes são os sobreviventes.

Quando tinha 11 anos, um amigo de família abusou sexualmente de mim durante meses. E durante mais de 20 anos carreguei em silêncio este peso, vergonha, culpa e nojo. Tudo sentimentos que não eram meus, mas que os carreguei comigo sem compreender porquê.”

Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio, é um homem sobrevivente que aos 11 anos foi vítima de violência sexual e que hoje se dedica a apoiar outros sobreviventes que tenham passado por situações de violência sexual, para ultrapassar as consequências do abuso.

Um dos objectivos do Quebrar o Silêncio é promover os direitos humanos e igualdade de género.

Um dos valores pelos quais se norteia é a política de não discriminação e não aceitação da agressão e da violência.

O respeito pela diferença faz parte dos seus objectivos.

Apoia todos os homens vítimas/sobreviventes de violência sexual, independentemente da crença religiosa, etnia, cultura, escolaridade, situação económica, idade, classe social, origem, profissão ou orientação sexual, quer do homem sobrevivente, quer do abusador ou abusadora.

É de salientar que nos seus órgãos sociais estão cinco mulheres e quatro homens.

A Quebrar o Silêncio poderá ser um bom contributo para a questão da violência contra mulheres, crianças, idosos, deficientes.

A sociedade tem que mudar em relação ao tratamento que tem dado à questão da violência, pois ela anda por aí…

(Continua amanhã)

 

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