CARTA DE BRAGA – “das palavras e do dinheiro” por António Oliveira

Escrever é a uma arte simples e perfeita – por colocar e deixar a ponta da esferográfica abrir uma ferida no papel e, ao mesmo tempo que aquela ponta o vai ferindo, também a vai cauterizando, cobrindo-a com tinta.

Esta magnífica metáfora, do jornalista e escritor Juan José Millás, também tem o seu inverso na prática da leitura, basta pensar um texto, um qualquer, escrito apenas para juntar e organizar elementos dispersos, com a finalidade de os integrar e transformar numa unidade apetecível para o leitor.

É por isso que, escrever e ler são, ao mesmo tempo, dois espaços de invenção, um para o escrever e o outro para o ler, interpretar e (re)viver.

São os dois lados do universo criador, aquele espaço rico e perene de silêncio, o que isola e separa o mundo interior, próprio da escrita ou da leitura, daquele outro lá de fora, o da realidade, onde impera a pressa, a velocidade e o ruído.

E aquele espaço de silêncio é também o da inspiração, tanto para um como para o outro ou, como diria Paco de Lucía, artista maior do flamenco, ‘é o espaço do duende e, se chegar, que te apanhe a trabalhar!

A questão é que a organização, na escrita e na leitura, existe para as palavras se sucederem lentas e seguras, para o tempo, a imagem, o som e o sentido lhes poderem dar continuidade, a sequência de levar à confluência daqueles dois universos, o da criação e o da interpretação.

Na realidade, ‘a grandeza do homem está na modéstia e em reconhecer que tudo é importante, o sol, a aurora, o crepúsculo, as discussões, brincadeiras e a poesia, pensar só por pensar, mesmo que estes prazeres impliquem consumir menos’ mas estão lá todos, vivos e palpitantes nos espaços da escrita e da leitura!

A afirmação é salientada e bem, por Lamberto Maffei em ‘O elogio da lentidão’ pois, por nem serem apenas subprodutos do aumento do PIB, ‘precisam de uma base cultural e comportamental, para serem apreciados

A cultura e a conduta são as portas para um real e autêntico relacionamento entre os humanos pois, em ‘O silêncio que fica’ Borges também deixou escrito ‘Sem leitura não se pode escrever. Tão-pouco sem emoção, pois a literatura não é, certamente, um jogo de palavras. É muito mais. Eu diria que a literatura existe através da linguagem, ou melhor, apesar da linguagem

Tudo isto pode explicar ainda os meus espanto e incerteza frente ao futuro, perante o espectáculo deprimente dos ‘zombies’ viciados e dependentes dos smartphones, a mais notória das ‘dinâmicas desencadeadas pelo mercado e que determinam o seu êxito’ diz Maffei, mas agora em ‘O elogio da palavra

Espanto e incerteza, que senti reforçados quando há alguns dias, li uma entrevista à artista Alba Flores que, nestes tempos, se atreveu a levar Brecht à cena em Madrid e, perante as dificuldades da ousadia, não resistiu em afirmar ‘É terrível ver como conseguiram fazer que todas as palavras tenham a ver sempre, com negócio ou com dinheiro

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Leave a Reply