CARTA DE BRAGA – “de analfabetos, místicos e deuses” por António Oliveira

Conheci-o na ‘Barata’ durante um encontro com António José Saraiva, meados dos anos sessenta, estava o professor exilado em Paris, mas foi autorizado a vir a Portugal para assistir ao funeral de alguém que lhe era próximo, já não recordo quem.

Juntámo-nos lá, naquela livraria, algumas dezenas de pessoas ansiosas por conhecer e (ou) ouvir um homem que tinha vencido as ‘barreiras’ do lugar o que, naquele tempo, estava bem longe de ser coisa pouca e de se ignorar.

Da conversa (não ultrapassou a dimensão de uma conversa, muitos a ouvir ele a repostar às questões) lembro-me de, a certa altura, ter ele afirmado qualquer coisa como isto ‘Se o português não agarrar muitos dos termos usados no Brasil e nas colónias, corre o risco de se transformar numa língua morta’.

Não é minha intenção entrar aqui nessa questão, mas tão só falar do Orlando, descobri depois ser este o nome dele, encostado a uma das altas prateleiras carregadas de livros, com o historiador em frente, do outro lado da bancada também com livros, a meio do salão.

Vestia todo de preto, o que nem era raro naquele tempo, também um dos poucos a tirar notas, sem se importar com dois fulanos que não pertenciam àquilo, a ver pela atenção dada às pessoas e não ao professor nem aos livros. Não seria essa a função deles!

Encontrei-o dias depois sentado na ‘Brasileira’ ao lado de um amigo meu que me acenou e fez sinal para me sentar com eles e ‘Este é o Orlando, um amigo que passa o tempo sozinho. Fica aqui agora que tenho de ir embora!’ e saiu com uma palmadita no ombro dos dois.

Tem alguma pergunta para fazer? Se não tem e se quer ficar aí a olhar para mim, pode levantar-se e arranjar outra companhia, pois sou um solitário!

Alinhavei um sorriso e perguntei, mesmo sem vir a propósito ‘Aprendeu alguma coisa com o António José Saraiva, lá na Barata?

Olhou para mim surpreendido, engasgou-se antes de responder e, endireitando-se ‘Você também lá estava? Mas gostei, por ele ser alguém em tudo o que faz! Mostrou lá porque tiveram de o correr daqui! Aprendi um pouco a ser mais gente!

Veio o empregado, pedi uma bica para mim e outra para ele, depois começou a falar, não sem antes me ter perguntado se eu estava com tempo.

Falou de tudo, como se não tivesse mais ninguém, falou do que gostaria de fazer, do que gostaria de ter andado, dos livros que leu e dos que gostaria de ter lido e do falhanço enorme que era não saber em quem acreditar.

Pedi mais duas bicas e, aproveitando o intervalo para ele beber, ‘Como é que você quer ter certezas, se ainda está na primeira curva do caminho?

Ele pegou em Pessoa, no Pessoa da ‘Brasileira’, para dizer com uma calma absoluta e em voz baixa ‘Tem de haver alguém, aqui ou noutro lugar qualquer, que há-de saber bem o que diz e o que escreve! Mas nunca aqui porque, que se pode esperar de um povo de analfabetos e místicos? Foi com isso que fiquei lá na Barata!

Voltei a vê-lo umas dezenas de anos depois! Continuava a vestir de preto, o cabelo já pendia esparso e grisalho, até sem ver pente há muito tempo. Carregava uma bolsa entufada, se calhar dos livros que teria dentro!

Olá, Orlando!’ e olhou para mim, mediu-me de alto a baixo e ‘O gajo que me pagou duas bicas na Brasileira e esteve uma tarde a ouvir-me! Já lá vão uns anos!

E sem me dar tempo de dizer alguma coisa, ‘O Pessoa tinha razão! É mesmo um povo de analfabetos e místicos, mas a acreditar que agora, até conseguem agarrar deuses com o telemóvel!’ e abalou tranquilo, sem acrescentar mais coisa alguma, acenando-me um ‘adeus’ com a mão esquerda!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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