A AMÉRICA LATINA SOB O FOGO DO NEOLIBERALISMO, SOB A PRESSÃO DA AUSTERIDADE – III – A DESIGUALDADE NO CHILE “ESTÁVEL” ACENDE O FOGO DA AGITAÇÃO, por BENEDICT MANDER

Obrigado à Wikipedia

Inequality in ‘stable’ Chile ignites the fires of unrest, por Benedict Mander

Finantial Times, 21 de Outubro de 2019

Blogue GonzalloRaffoInfonews, Outubro de 2019

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Tumultos sobre aumentos de preços mostram que os benefícios do crescimento económico não têm sido amplamente partilhados

Um autocarro arde na sexta-feira passada na baixa de Santiago a seguir a um protesto com tentativa de viajar sem pagar © AFP via Getty Images

 

Apenas uma semana antes do Chile sofrer a sua pior agitação civil desde que a ditadura de Augusto Pinochet se desfez na década de 1980, o presidente Sebastián Piñera – numa entrevista otimista sobre as perspetivas do país – fez uma advertência.

“Precisamos de fazer um grande esforço para incluir todos os chilenos”, admitiu o ex-empresário bilionário, mesmo quando destacou que o país está “à frente em termos de  crescimento dos países da América Latina”.

Mas Piñera não esperava uma demonstração tão rápida e violenta dos riscos da desigualdade. Santiago foi convulsionada por motins, saques e incêndios, provocados por um aumento de 3% nas tarifas de metro que o governo foi forçado a suspender. Os protestos expuseram uma raiva profunda entre os chilenos pelo facto de que um sistema desigual os excluiu do notável desempenho económico do país nas últimas décadas.

“Vocês, políticos, isso realmente tinha que acontecer para que  parem de roubar o dinheiro do povo?”, perguntou uma mulher gesticulando para uma câmara de televisão enquanto ajudava a limpar uma das estações de metro de Santiago vandalizada pelos manifestantes.

“Algo de profundo está a acontecer  no Chile”, disse Marta Lagos, pesquisadora e analista política em Santiago. Uma grande parte da população do Chile ficou para trás, disse ela. “Isso não é apenas um bando de crianças violentas, é muito mais do que isso. Essa é apenas a ponta do iceberg. Isso produz uma situação muito volátil que todos estavam a ignorar”.

 

Manifestante agita a bandeira nacional chilena durante um protesto em Santiago no domingo © AFP via Getty Images

 

O governo não conseguiu compreender o impacto que os elevados níveis de desigualdade e de emprego precário têm tido na sociedade, de acordo com Lagos.

“Piñera acha que [os protestos] são uma questão de segurança, um problema de violência e pilhagem. Ele não percebe que há um profundo mal-estar social que persistirá…”. Não pode ser resolvido com um toque de recolher”, disse ela, referindo-se às medidas de emergência tomadas para controlar os protestos durante o fim de semana.

Houve três mortes até agora devido aos distúrbios. Uma pessoa foi baleada pelas forças de segurança e mais duas morreram num incêndio quando estavam a saquear  um supermercado na  periferia  de Santiago.

Agora, o Governo de centro-direita do Sr. Piñera, cuja falta de maioria no Congresso o impediu de implementar muitas das suas reformas pró-mercado, corre o risco de encontrar obstáculos ainda maiores por parte de uma oposição encorajada.

“O governo de Piñera é agora um governo lamentável. Ele não será capaz de impulsionar as suas reformas no Congresso”, disse Patricio Navia, cientista político da Universidade de Nova York.

Embora uma  significativa mudança no sistema de pensões de reforma  possa vir a ser aprovada, ele acrescentou, isso  deve-se ao facto de que o projeto de lei do Sr. Piñera será tão diluído que provavelmente se assemelhará muito a uma proposta do centro-esquerda anterior.

 

Trabalhador limpa supermercado saqueado durante protestos em Santiago no domingo © AP

 

Eugenio Tironi, consultor político em Santiago, comparou os protestos da semana passada com o movimento Coletes Amarelos  que irrompeu na França no ano passado, provocado pelo aumento dos preços dos combustíveis.

“No Chile, não foi exatamente um aumento desproporcional nas tarifas. Foi o tipo de coisas que têm acontecido regularmente no passado … mas acrescenta um sentimento mais generalizado de que os salários não estão a acompanhar   o aumento do custo de vida, especialmente porque os encargos da dívida aumentam”, disse ele. “Isto está longe de terminar. É enorme”.

Embora os equatorianos também  se tenham revoltado por causa das medidas de austeridade nos últimos dias, os protestos no Chile são diferentes, disse Tironi. “Pelo menos no Equador há movimentos claros contra o governo. Aqui não há nada disso.

Ele argumentou que, tal como os Coletes Amarelos, os protestos chilenos foram mais espontâneos e descentralizados.

Isso tornou mais difícil para as forças de segurança impedirem a violência, embora o senhor Navia tenha dito que foi um erro não atribuir às forças armadas a capacidade de utilizar a força, se necessário, depois de ter declarado o estado de emergência no sábado.

Isso pode ter exacerbado o saque, que o governo de Michelle Bachelet foi capaz de controlar depois de um grande terremoto em 2010, disse ele. Imagens de televisão mostraram saqueadores durante o fim de semana a saírem das lojas com garrafas de álcool, televisores e até mesmo frigoríficos.

Navia estabeleceu paralelos entre o Chile de hoje e a Venezuela há 30 anos, na véspera dos motins do “Caracazo” causados pelo aumento do preço do combustível, que faziam parte de um plano de austeridade do FMI. Estes  prepararam o caminho para a ascensão de Hugo Chávez e a sua “revolução bolivariana” economicamente desastrosa.


Assim como a Venezuela na época, Navia  disse que o Chile hoje é “a economia mais estável da América Latina, mas tem três problemas: alta desigualdade, alta dependência de uma única mercadoria e uma classe política cada vez mais distante e corrupta”.

Embora os desafios do Chile hoje possam não ser tão sérios quanto os da Venezuela de há 30 anos, Navia advertiu contra a ideia de que a entrada  do Chile no clube de nações ricas da OCDE o pode colocar numa classe superior. “Na realidade, o Chile ainda tem problemas muito latino-americanos.

Leia este texto clicando em:

INEQUALITY IN “STABLE” CHILE IGNITES THE FIRES OF UNREST / THE FINANCIAL TIMES

Texto publicado pelo Financial Times e republicado por Gonzalo  Raffo e disponível em: 

http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2019/10/inequality-in-stable-chile-ignites.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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