OS MEUS DOMINGOS – BREVES DESCONSIDERAÇÕES SOBRE O PERU – por ANDRÉ BRUN – III

(1881 – 1926)

 

(conclusão)

…Nisto o meu gato, que, durante o meu sono, se viera enroscar tranquilamente sobre o meu estômago, acordou e saltou para o chão. Acordei por minha vez e compreendi que tinha tido um sonho horrível, proveniente de uma má digestão. Sem atribuir ao meu carocho responsabilidades além das que se podem com consciência exigir a um animal doméstico, irracional e meu amigo, lancei todas as culpas sobre o peru, que tinha comido ao jantar contra todas as minhas convicções filosóficas e apenas para fazer a vontade à minha família, que afirmava em coro – em coro e cabelo – que o petisquinho estava uma delícia.

Desde então jurei que nunca mais, nem que tivesse uma fome de lord-major de Cork ou de Ugolino Ferreira, tornaria a mastigar peru na minha vida.

Cada vez que vou ao restaurant o pérfido espreita. Vem a fingir que é francês, a carregar nos rrr e afirma ser Mr. Dindonneau au cresson, recém chegado de Paris com um ramo de agriões na botoeira.

Nesta altura, bato-lhe simplesmente no ombro e digo-lhe só isto ao ouvido:

– Peru velho! Peru velho!

E ele, danado por não ter podido enganar-me, retira-se indignado para a cozinha, sendo substituído por umas carnes frias.

Há também uma coisa que gostava que me explicassem, que já perguntei e a que ninguém ainda me respondeu. Que relação haverá entre Nosso Senhor ter nascido numa estrebaria em Belém e eu ser forçado a comer peru numa gaiola do Conde Redondo? Já, quando Cristo é julgado pelos fariseus, tenho que comer amêndoas; quando ressurge, tenho que comer… perdão! que comprar um chapéu de palha, e, quando sobe ao céu, tenho que ir às hortas comer peixe frito e volto para casa com um raminho de espigas na mão. Para que se baralham coisas sérias da religião com costumes tão profanos?

Mas embora… Sujeitar-me-ei a tudo, menos a mastigar essa espécie de lenha mal cozida que é a carne de peru assada. Já viram coisa mais seca? Dizem que a secura do bicho é justificada pela maneira como o tratam. E daí, talvez… Eu também, se andassem atrás de mim quinze dias a bater-me com uma cana e me fizessem palmilhar uma cidade tão suja e acidentada como Lisboa, na altura de ir para a mesa, não ia lá muito macio.

24 de Dezembro de 1922

NOTA – MANTEVE-SE A ORTOGRAFIA DA ALTURA EM QUE O TEXTO FOI ESCRITO (1922) 

 

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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