A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – V – A REVOLTA DOS TRABALHADORES CONTRA O PARTIDO TRABALHISTA – por PHILIP CUNLIFFE

 

The Workers’ Revolt Against Labour, por Philip Cunliffe

The Full Brexit, 18 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

A esmagadora maioria ganha por Boris Johnson nas eleições gerais de dezembro na Grã-Bretanha provocou grande consternação e desordem em toda a esquerda na Grã-Bretanha e ainda mesmo mais longe. Embora o Partido Trabalhista não esperasse mais do que um governo minoritário, na melhor das hipóteses, a escala da vitória eleitoral dos Conservadores fez com que os assentos parlamentares do Partido Trabalhista voltassem a ser em números não vistos desde os anos 30, quando o Partido Trabalhista ainda tinha apenas algumas décadas. Em vez de aceitar isto como a queda da esquerda, deveríamos, porém, procurar a vantagem política decorrente da derrota do Partido Trabalhista. A esperança aqui reside no facto de que se trata de uma revolta da classe trabalhadora que finalmente soltou a mão morta do Partido Trabalhista dos eleitores da classe trabalhadora britânica. Esta emocionante revolta da classe trabalhadora é, por si só, um tremendo momento da história política britânica e abre uma nova oportunidade para o futuro da política radical. Será que a esquerda vai aproveitá-la?

É difícil subestimar a escala da derrota do Partido Trabalhista. Embora os trabalhistas já tenham sofrido enormes derrotas eleitorais, nomeadamente nos anos 80, esta derrota mais recente é qualitativamente diferente, porque o partido não só foi rejeitado como perdeu os seus bastiões históricos. Os círculos eleitorais em que a própria greve dos mineiros foi combatida votaram agora nos Conservadores, expulsando até a classe trabalhadora e os deputados trabalhistas que apoiam o Brexit, como Dennis Skinner e Caroline Flint. Foi a partir de fortalezas como estas que o Partido Trabalhista conseguiu, outrora, avançar para assegurar os eleitores da classe média nos círculos eleitorais marginais do Sul e, assim, recuperar o poder após as derrotas dos anos 80. Esta foi a estratégia de triangulação que levou Tony Blair ao poder em três eleições depois de 1997. Os eleitores da classe trabalhadora fecharam agora essa opção.

Como a derrota ocorreu sob Corbyn, não surpreende que as pessoas tenham olhado para a sua política e dos  seus apoiantes  para procurarem entender o fracasso do Partido Trabalhista. Sem dúvida que há muito a criticar no Corbynismo, efetivamente um projeto dos  milenários  nascido no sudeste do país, cuja estratégia eleitoral se baseava em prodigalizar o resto do país com promessas de aumento na despesa pública, ignorando ao mesmo tempo a sua exigência para se passar a ter uma influência política real. Deste ponto de vista, o problema com o Partido Trabalhista era que ele se tinha tornado demasiadamente um Partido da classe média, os seus membros eram mais militantes saídos das Universidades   do que  membros de sindicatos, as suas novas bases eleitorais estão mais assentes em cidades universitárias e nos centros das grandes cidades  em vez de nas cidades mais pequenas da classe trabalhadora, comunidades costeiras e da Grã-Bretanha ex-urbana, com os  seus valores demasiado pretensiosos, demasiado liberais e demasiado metropolitanos para a maioria dos eleitores. O próprio Corbyn foi visto como símbolo desta altivez política: um londrino de zona nobre, fundamentalmente como um ativista do norte de Londres e um militante em série cujo patriotismo era sempre suspeito.

Embora esta seja uma imagem precisa do atual quadro de ativistas trabalhistas, o verdadeiro erro seria imaginar que esta  situação era, de alguma forma, uma nova partida para o Partido Trabalhista. Em alguns aspetos, a perda dos trabalhistas nas classes trabalhadoras nas terras do centro e norte da Inglaterra põe o Partido Trabalhista em face às suas origens. O Partido Trabalhista emergiu no liberalismo social radical do final do século XIX e início do século XX. A evolução do Partido Trabalhista começou com o apoio do Partido Liberal aos candidatos sindicais e à formação de pactos eleitorais com políticos proto-trabalhadores como forma de diluir o voto Tory, que o primeiro-ministro Benjamin Disraeli tinha procurado expandir ao emancipar-se da crescente classe trabalhadora através da Lei da Representação do Povo de 1884. O patrocínio liberal permitiu que os líderes sindicais se consolidassem no Partido Trabalhista Independente e no Comité de Representação do Trabalho, no qual os líderes sindicais procuraram promover a sua própria influência e poder como mediadores entre empregadores e trabalhadores. Por muito patriótico que seja ou não seja,  Corbyn, ele é a encarnação viva desta longa tradição do liberalismo radical inglês, desde as suas simpatias pelo nacionalismo irlandês até ao seu vegetarianismo e moralização clerical, passando pela sua parceria na fabricação artesanal de compota!!!!!

O corbinismo não representou uma rutura radical com as tradições trabalhistas porque o Partido Trabalhista sempre foi um veículo para que as ideias liberais da época dominassem a esquerda, uma espécie de ponte da classe média com a classe trabalhadora. A ideia liberal reinante dos nossos dias – o liberalismo interseccional, em que a população está fragmentada em identidades vulneráveis, todas competindo entre si pela proteção do Estado – também sofreu um golpe ao lado da derrota de Corbyn. A derrota dos interseccionalistas[1] será agravada à medida que as suas ridículas tomadas de posição políticas de que o Brexit significaria inaugurar uma nova era de autarcia fascista serão expostas a nu como sendo posições erradas. Embora se revoltem contra a perspetiva da austeridade neoliberal e do nacionalismo racial, os conservadores comprometeram-se a aumentar o salário mínimo e a aumentar os gastos do Estado com infraestruturas, educação e hospitais, num esforço concertado para assegurar os seus novos ganhos eleitorais – tudo sob os auspícios do gabinete mais etnicamente diversificado da história britânica e com uma maioria parlamentar composta por deputados jovens, do norte, homossexuais e  membros da classe trabalhadora.

Ao longo da primeira metade do século XX, intelectuais da classe média aliaram-se aos líderes sindicais para usar o Partido Trabalhista para atrair a classe trabalhadora para o compromisso com os empregadores que reordenaram a Grã-Bretanha depois de 1945. Contudo, quando a classe empresarial se revoltou contra o acordo do pós-guerra nos anos 70 e 80, tanto o Partido Trabalhista como os líderes sindicais não conseguiram defender os interesses da classe trabalhadora. A vida cívica e política da classe trabalhadora foi destruída, deixando os trabalhadores politicamente desorganizados, desmoralizados e desmobilizados. A União Europeia (UE) tornou-se um refúgio transnacional para os líderes sindicais derrotados e para os social-democratas se refugiarem. Os seus fundos de desenvolvimento regional e as lamentáveis proteções laborais foram encaradas  com gratidão como compensação por derrotas políticas a nível nacional. Este recuo para o nível da  UE lançou as bases para o centrismo tecnocrático da Terceira Via da era de Blair, no qual a autoridade supranacional foi utilizada para enraizar os avanços do Thatcherismo sob a forma do Mercado Único. A era Blair nada fez para reverter estas derrotas anteriores; nem uma única parte das leis antissindicais de Thatcher foi revogada, por exemplo.  A hipertrofia das adesões ao partido durante a liderança de Jeremy Corbyn desde 2015 projeta a ausência de qualquer base social organizada. Um núcleo primordial de jovens da geração do milénio, (n.t. – geração Y com elevados níveis académicos, mas em perda de estatuto social) excluídos do mercado de apropriação de riqueza e apaixonadamente apegados à UE enquanto território cosmopolita do interior longínquo, propiciador de refúgio relativamente aos seus concidadãos, nunca ia contrabalançar a densidade sindical e as estruturas articuladas da organização laboral.

Se a eleição é uma derrota para o Corbynismo, não é menos uma derrota para o Blairismo. A premissa do Blairismo – de que o partido tinha de passar a ser um partido do centro no que  diz respeito à  política económica para ganhar as eleições – foi agora desvalorizada pelo próprio Partido Conservador. No contexto atual, os Blairistas são mais conservadores do que os Conservadores atualmente no poder, cujo programa económico se deslocou para a esquerda, evidenciado nas subsequentes declarações  de Boris Johnson sobre o aumento das despesas do Estado e a defesa do  Serviço Nacional de Saúde, após a sua vitória eleitoral. O centro da decisão em termos de política económica está a mudar  para a ajuda estatal, maior despesa pública  e supervisão governamental do mercado, deixando os Blairistas à deriva. Assim como o Thatcherismo tornou o Blairismo viável, a viragem dos Tories para  Uma Nação Conservadora significa que o Blairismo está acabado. Os Conservadores vão agora liderar uma revolta da classe trabalhadora para derrubar a ordem neoliberal. Em última análise, os Blairistas e os interseccionalistas são apenas alas diferentes do neoliberalismo, e o seu ponto comum é bem posto em evidência  na sua reverência conjunta pela autoridade supranacional da UE, vista como um contrapeso para a democracia de massas a nível nacional e é esta última  que tanto os Blairistas como os interseccionalistas temem e desprezam.

 De todas as fações que agora competem pelo futuro do Partido Trabalhista, os Lexiteers ( partidários da saída do Reino Unido da EU mas através de um programa à esquerda) são claramente a que mais ganha, pois a sua posição parece ter sido justificada pelo extermínio eleitoral dos Trabalhistas. Foram os Lexiteers of Blue Labour e a campanha Leave-Fight-Transform (LeFT[2]) que mais consistentemente advertiram contra  o perigo da hostilidade do Partido Trabalhista contra Brexit e contra  a sua deriva para a defesa de um segundo referendo. Foram também os Lexiteers que defenderam consistentemente o majoritarismo democrático e resistiram ao persistente desprestigiar  dos adeptos da classe trabalhadora do Partido Trabalhista que no Partido Trabalhista  defendiam o Leave, acusando-os de serem  ignorantes, senescentes e racistas. Embora os Lexiteers estejam em número inferior aos milenais defensores da interseccionalidade  no Partido Trabalhista, o seu estatuto moral está agora consideravelmente reforçado.

Os Lexiteers comunitarianos do Blue Labour viram corretamente que as estruturas políticas vestigiais da nação continuavam a ser um dos poucos meios pelos quais os trabalhadores podiam responsabilizar os seus governantes cosmopolitas, enquanto as suas famílias forneciam refúgio tanto face ao Estado Providência como ao mercado. No entanto, por todo o seu apoio a Brexit e a sua compreensão da democracia de massas, os Lexiteers partilham semelhanças com os Blairistas e os defensores da interseccionalidade.

Por um lado, o máximo que a fação Blue do Partido Trabalhista pode oferecer é mais política de identidade, é, desta vez, mais política de identidade da “classe trabalhadora tradicional” – “família, fé e bandeira” – do que do multiculturalismo de classe média e do  seu anticolonialismo fantasista,   uma teoria cultural chique  cara aos partidários da interseccionalidade. O Blue Labour reproduz assim a lógica da política de identidade ao procurar reforçar o estatuto de outro grupo desfavorecido, sub-representado, marginalizado, excluído das instituições de elite e a sofrer um apagamento cultural num discurso público dominado pelo interseccionalismo. No entanto, os eleitores da classe trabalhadora a quem apelam já se emanciparam de um dos aspetos mais importantes das suas identidades tradicionais; já não são eleitores trabalhistas. Porque deveriam eles agora limitar-se também a estas outras identidades “tradicionais”?

Por outro lado, os marxistas-lexiteers (marxistas  defensores de um Brexit à esquerda)   da campanha LeFT estão agora na posição em que estiveram os Blairistas no início da década de 1990, procurando, após a derrota, remodelar a estratégia eleitoral do Partido Trabalhista em torno de uma nova economia política Conservadora  – só que esta será uma economia política nacionalista e não globalista, estruturada em torno da saída da UE e não da integração no Mercado Único. Aqui, eles estão apenas a seguir  os Conservadores tal como os Blairistas em tempos fizeram. Pior, ao procurarem restaurar o Partido Trabalhista, neste momento, estão a abdicar até da pretensão de liderança política, em vez de irem muito atrás dos eleitores da classe trabalhadora que se afastaram do Partido Trabalhista. A falta de liderança da campanha de LeFT já foi evidenciada na sua rendição às exigências dos Remaineers  para ligar o  Partido Trabalhista a um segundo referendo. Eles serão agora fortemente encurralados  e eventualmente esmagados por completo entre os trabalhistas azuis, por um lado, e os defensores da interseccionalidade, por outro.

Em qualquer caso, os eleitores da classe trabalhadora da Inglaterra e do País de Gales já deixaram os Lexiteers para trás, tendo quebrado a miragem Lexiteer de reavivar a social-democracia sob a hegemonia trabalhista. O que começou como uma insurreição democrática popular contra a tecnocracia neoliberal, com o voto Brexit em 2016, foi agora transportado para uma insurreição democrática da classe trabalhadora contra o próprio Partido Trabalhista, que continuou a vincular-se à UE. Embora tenha havido sempre um núcleo duro e trabalhador de insurreições nas urnas, nos últimos anos, foi mais acentuado nas eleições britânicas de 2019, uma vez que os círculos eleitorais trabalhistas, outrora seguros, ficaram azuis. A classe trabalhadora britânica não só viu o populismo yuppie incarnado na campanha do “Voto do Povo”, como conseguiu algo praticamente sem precedentes na história política da UE – disciplinou a sua própria classe dirigente para se conformar com o resultado de um referendo da UE. Não satisfeitos com isto, continuaram a avançar ainda mais, derrubando os partidos satélites do Norte, dominados durante gerações pelos complacentes e altos cargos dos tribunos  trabalhistas.

Os eleitores da classe trabalhadora do País de Gales, do norte da Inglaterra e das Terras Médias fizeram uma aposta ousada na independência política. Tendo-se libertado da dominação trabalhista, os eleitores da classe trabalhadora destas regiões vêem que os políticos são licitáveis e que têm de competir para os representar com ofertas tangíveis de melhoria material para as suas vidas: eles vivem agora na situação de  “estados eleitoralmente decisivos”. As sondagens sugerem que os eleitores dos círculos eleitorais insurretos estão – com justiça – profundamente desconfiados dos Conservadores, cujas políticas nacionais devastaram os vales galeses e as cidades do norte do País de Gales. Os Conservadores não vão afrouxar a sua legislação anti-laboral repressiva, pois – com amarga ironia – prometeram agora esmagar um dos sindicatos mais militantes contra a UE, o Sindicato dos Trabalhadores dos  Transportes, Marítimos e dos Caminhos-de-Ferro. No entanto, Boris Johnson já foi mais longe do que o indolente Partido Trabalhista, quando observou, no seu discurso de vitória, que os eleitores do Norte apenas lhe “emprestaram” os seus votos, reconhecendo assim os eleitores da classe trabalhadora como atores políticos.

Tendo-se libertado da hegemonia trabalhista, quem poderia em boa consciência procurar pastorear os eleitores do norte rebelde de volta ao mesmo Partido Trabalhista que tanto tempo lhes mentiu? Limitar agora Brexit à restauração da social-democracia seria desperdiçar o seu potencial democrático – o seu potencial para reunificar a Irlanda, para abolir a Câmara dos Lordes, para reformar completamente o sistema político-partidário, para reestruturar a economia política britânica. Afinal, o objetivo do socialismo não é preservar ou respeitar a classe trabalhadora como um grupo de identidade cultural, mas sim de abolir a classe por completo.

Até que ponto esta nova independência política da classe trabalhadora pode ser sustentada depende, portanto, em parte de como os outros trabalhadores aprendem a lição política da exigência do Norte de que seus direitos democráticos sejam respeitados. A esquerda interseccional do Partido Trabalhista, liderada por Paul Mason[3] e Ash Sarkar,[4] exortou os trabalhadores trabalhistas a abandonarem os alegadamente incorrigíveis eleitores racistas da classe trabalhadora do Norte, que eles comparavam aos porcos – “gammon” – e a virarem-se, em vez disso, para a  classe trabalhadora jovem, mais diversificada, multiétnica, do sector dos serviços do interior das cidades e, especialmente, do sudeste: os limpadores, os porteiros e os guardas de segurança que trabalham nos cafés, nos bancos, nos arranha-céus da cidade e nos campus universitários. Infelizmente para Mason e Sarkar, essa “nova classe trabalhadora” precisa de autodeterminação, soberania, democracia e direitos políticos tanto quanto os eleitores da classe trabalhadora do País de Gales, das Terras Médias e do Norte. Mesmo que não os menosprezem abertamente como porcos, ao apelar ao apoio a um segundo referendo para “Permanecer e Reformar ” na UE, Mason e Sarkar mostraram que desprezam esta “nova” classe operária tanto quanto desprezam a classe operária do Norte. Se a eleição geral de 2019 nos ensina alguma lição, é que esta complacência, também, acabará por ser abalada.

Karl Marx disse que, acima de tudo, a burguesia produz os seus próprios coveiros: o proletariado. Ao dizimar a base eleitoral trabalhista, os eleitores da classe trabalhadora do norte da Inglaterra, das Terras Médias e do País de Gales, atiraram o cadáver do Partido Trabalhista burguês para a cova e começaram a atira-lhe a terra por cima. Seria um erro profundo para a esquerda procurar salvar o cadáver por baixo das pás dos trabalhadores.

​__________

[1] (N.T.)A teoria da interseccionalidade é algo complexa. Originalmente, esta teoria foi  concebida como uma estrutura analítica para melhor compreender a natureza da opressão humana. A  teoria interseccional é muitas vezes encarada, fora dos meios académicos, como uma ideologia vitimológica, o inferno determinado a desconstruir o alegado patriarcado hegemónico branco, caracterizado por uma linguagem enredada  e impulsionado pelo estigma da vergonha histórica. A tese central desta descendência da teoria racial crítica e do feminismo da terceira vaga é que devemos interpretar o mundo através de uma análise da intersecção das nossas várias identidades grupais (mulher branca, homem hispânico deficiente, etc.) para melhor compreender a anatomia da opressão sistémica.

Por exemplo, a ideia de que certos grupos sofreram mais opressão histórica do que outros e, portanto, que se lhe devem   certos direitos não é novidade, mas a prescrição interseccional de que a vitimização histórica pode ser entendida como uma espécie de equação matemática de opressão, na qual a intersecção das nossas várias identidades cria uma hierarquia moral imposta, com as vítimas no topo e os privilegiados na base, é um fenómeno bastante recente.

Tem sido desenvolvida com o sentido  de incluir cada vez mais grupos historicamente marginalizados e encapsula um processo de opressão sistémico cada vez mais amplo. Estas ideias tornaram-se a norma entre a geração do milénio, proporcionando a priori um quadro  de perceção , que nos leva a abordar muitos problemas modernos através da lente identitária de grupos  e da opressão histórica – separando as vítimas nobres dos privilegiados para estabelecer quem representa simbolicamente o bem e quem é emblemático o mal. Uma ideologia totalizante como esta está preparada para acender chamas reacionárias em ambos os lados do corredor político e alimentar a guerra cultural na América e noutros lugares.

de Samuel Kronen, in Areo https://areomagazine.com/2019/04/25/intersectionality-is-wrong-for-the-right-reasons/

[2] (N.T.) No Manifesto da criação deste movimento pode-se ler: “Desde os armazéns da Amazon.com  aos estaleiros de Belfast, os trabalhadores exigem uma rutura – uma rutura com o falido sistema de austeridade, neoliberalismo e capitalismo. Os últimos quarenta anos têm sido uma era de declínio dos salários reais, austeridade, ataques aos direitos sindicais e dos trabalhadores, abuso sobre os migrantes, o esvaziamento da democracia e a escalada da crise ambiental. A classe trabalhadora de todo o mundo está a exigir  uma alternativa a este status quo fracassado.

 A história mostra que se a esquerda não oferece uma alternativa genuína e transformadora ao capitalismo em crise, os falsos profetas da direita vão intervir com suas promessas vazias e utopias reacionárias. Para oferecer uma alternativa séria, a esquerda deve exigir e liderar uma rutura com um sistema de capitalismo global que é irremediável e podre até ao seu núcleo. Para os socialistas de hoje na Grã-Bretanha isso significa pedir uma rutura com a UE, romper com a lógica do neoliberalismo e construir uma alternativa radical.

Partir – Lutar – Transformar: A Campanha LeFT é uma rede de base de socialistas, sindicalistas e ativistas comunitários, empenhados com a democracia, o internacionalismo e o socialismo. Reconhecemos que o modelo económico neoliberal falhado ajudou a produzir tanto a votação para deixar a UE no referendo de 2016, como o aumento do apoio a um Partido Trabalhista de esquerda nas eleições gerais de 2017 com um manifesto radical, em que se promete uma mudança genuína.”

[3] (N.T.) Para se perceber a importância do que  escreve Philip Cunliffe frise-se que Mason é um Remainer e foi o conselheiro de  John McDonnell, a segunda figura do governo sombra trabalhista . Deixemos aqui na língua original algumas das afirmações de  Mason, reproduzidas de um texto de HuffPost:

“: Labour should ignore right-wingers who “hate blacks, hate women and hate gays” in order to win a second referendum campaign to stay in the EU, Paul Mason has said.

The former advisor to John McDonnell said the party should stop trying to convince the “ex-miner sitting in the pub calling migrants cockroaches” to change their mind – and instead focus on inspiring progressive or centrist voters.

It comes in the wake of a disastrous European election for Labour, which saw Jeremy Corbyn’s party haemorrhage support to the Greens and Liberal Democrats.

Mason, who was speaking at an event on the future of the pro-Remain left at the London School of Economics, said Labour should use the summer to embark on a ‘stop Brexit’ tour of Britain by organising “conventions of progressive people”.

He added: “And if people who hate blacks, hate women, hate gays, don’t want to come to them – don’t bother.

“Don’t worry about it. They can go off and do their own thing. We need Labour to bring in the Greens, the Lib Dems and the millions who didn’t vote over.”

He added: “I’m done with triangulation, not only with right wing voters. I’m done with triangulation from members of the shadow cabinet.”

He added: “I’m done with people saying ‘we can’t lose the working class’, a Lithuanian nurse is working class, an Afghan taxi driver is working class.

“An ex-miner sitting in the pub calling migrants cockroaches has not only no added human capital above the people I just mentioned but it’s also not the person we are interested in.”

[4] (N.T.) Quanto  a Sarkar diz-nos um analista: Sarkar “came up with a brilliant long-term solution to Labour losing working-class support: just redefine what it means to be working class! In a piece for the Guardian, she argued that it was a myth that Labour had lost touch with working-class people because it is supported by young people and low-paid white-collar graduates. The idea here is that woke young graduates in the inner cities are the new working-class bedrock of the Labour Party and that the voters Labour went on to lose in towns like Dudley and Wrexham are expendable.” Veja-se: (a) Ieuan Joy, Corbyn’s media outriders need to go away, disponível em: https://www.spiked-online.com/2019/12/23/corbyns-media-outriders-need-to-go-away/. Veja-se ainda o elucidative texto de Ash Sarkar: Opinion-General election 2019 .It’s a myth that Labour has lost the working class, publicado pelo The  Guardian e disponível aqui. Se o leitor leu o artigo de Sarkar  , sugiro então que leia o texto de Sir John Curdice aqui:

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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