ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS EM 2020 – O QUE NOS ESPERA – nova série – a introdução de JÚLIO MARQUES MOTA

 

 

 

Iremos editar uma série de textos sobre a América, intitulada  “Eleições nos Estados Unidos em 2020- o que nos espera”.

Os resultados quer do impeachment de Trump, pelo lado dos Republicanos,  e os resultados das eleições de Iowa, pela parte  dos Democratas, resultados  tão estranhos que levaram o insuspeito New York Times a afirmar:

‘A Systemwide Disaster’: How the Iowa Caucuses Melted Down

Unexplained “inconsistencies” in results, heated conference calls and firm denials of hacking left the contest in a strange state of almost suspended animation,

levam-nos a prever que nada de bom será de esperar  vindo da América nos tempos mais próximos, o mesmo é dizer, levam-nos a considerar  que Trump pode ganhar a próxima corrida à Casa Branca. .

E se esta hipótese se verificar, uma vez mais temos de atribuir  muitas responsabilidades ao  Partido Democrata que pelas suas escolhas é  o principal responsável pela eleição de Trump em 2016, e será então  igualmente o principal responsável pela eleição de Trump em 2020. Uma hipótese tanto mais realista quanto se pensa que irá acontecer nos Estados Unidos sob a mão dos democratas o que aconteceu agora na Inglaterra:  um ataque em forma sobre aqueles que representam a esperança, que são a expressão atual dos ventos de mudança; Corbyn no Reino Unido, Bernie Sanders nos Estados Unidos. Possivelmente iremos ter uma disputa eleitoral entre Trump, o outsider dos Republicanos, e Michael Bloomberg, o outsider dos democratas, e os muitos milhares de milhões de dólares que já começaram a correr nessa disputa em que Bernie Sanders será o principal alvo a abater por todo o mainstream político americano, o  que pode ser sintetizado numa  afirmação de Obama de tudo menos Bernie Sanders, afirmação que é em tudo semelhante à dos Blairistas na Inglaterrra face a Corbyn: tudo menos Corbyn.

Quis o acaso que na elaboração desta série me deparei com um texto de um democrata da Costa Oeste nos Estados Unidos sobre o ensino, assinado por THOMAS GEOGHEGAN e intitulado: Imbecis Instruídos -Porque é que os líderes democratas ainda não compreendem a política das classes sociais. Trata-se de mm texto que sugiro a toda a gente que leia, Não é um texto fácil,  sendo até um texto escrito em contra  corrente  quando se declara não estar a defender  a ideia de Universidade para todos, como o fez  Obama, como o fazem agora Elisabeth Warren e Bernie Sanders, e  que  de alguma maneira está “inscrito” desde há muito tempo na retórica democrata.

Trata-se de um texto que levanta muitas questões  sobre os excedentes universitários, sobre o efeito de funil em que muitos licenciados correm o risco de fazer descer a escala das remunerações ou de provocarem a evicção de gente menos formada devido à  ocupação dos lugares destes últimos pelos  diplomados, mas com as remunerações dos que por eles são eliminados nesses postos de trabalho. Não é a primeira vez nem a última que encontro pessoas que são meus antigos alunos nas caixas de grandes superfícies e não só aí nestes lugares. Um ou outro aluno até corou de vergonha perante mim e procurou justificar-se do lugar onde estava  e tive de ser  eu a desmontar-lhe o discurso de culpabilização…de nada. Um deles, um aluno de média de 15 valores a quem terei dado 16 valores em Economia Internacional, encontrei-o numa Loja do Cidadão  e quando olhei  para ele  com ar de espanto   respondeu-me lapidarmente sem que eu lhe tenha perguntado alguma coisa: 10 anos de precariedade trouxeram-me até aqui, o melhor sitio onde estive até agora.  Bastou-me olhá-lo, não foram necessárias perguntas, para ter a explicação dura e crua da realidade em Portugal sobre a precariedade nos licenciados. A desanuviar a situação ainda lhe perguntei: quando é que lhe dei em Internacional? 15 ou 16 valores? Dezasseis, foi a resposta.  Bom, mas esse dezasseis na época vale bem mais que um  vinte de agora, acrescentei, sorrindo e despedindo-me dele. Tudo isto para dizer que o mesmo texto poderia ser pensado para Portugal ou para qualquer outro país

Mas o texto  em questão sobre os Instruídos, levanta um conjunto de questões que julgo importante pensarmos nelas e, sobretudo,  a mais importante delas é a de questionar qual será o interesse em  investir maciçamente no  aumento de alunos a frequentar o ensino superior, o que vemos diariamente ser defendido,  sem que primeiro que tudo se faça uma verdadeira revolução  nas condições de trabalho da população americana e um aprofundamento e dignificação do ensino intermédio. E vale a pena pensar nisso mas  isso está fora da preocupação de quase todos os candidatos às presidenciais de 2020 nos USA, para que essa reforma do ensino tenha uma outra utilidade que não seja apenas a de afirmarmos que temos uma geração que é, em número, a mais qualificada de sempre, sobre o que se ri, e com razão, José Pacheco Pereira.

Na linha do raciocínio do autor procuramos textos sobre as condições de trabalho nos Estados Unidos e, para simplificar,  estes incidem sobre as condições de milhões de pessoas que trabalham na economia da precariedade (a economia GIG, caracterizada pela predominância de trabalhadores ditos independentes e subcontratados  remunerados à tarefa ou por contratos de curta duração).”, sendo certo que muitos outros milhões a trabalharem na economia tradicional  não usufruem de melhores condições do que na economia gig. No fundo procurámos saber como trabalham e vivem   muitos milhões dos que irão votar nas Presidenciais  e os dados são alarmantes:

– 57,3 milhões de pessoas em regime freelance nos Estados Unidos. Estima-se que em 2027 haverá 86,5 milhões de freelancers. (Upwork)

– 36% dos trabalhadores dos EUA participam da economia gigante através dos seus empregos primários ou secundários. (Gallup)

– Para 44% dos trabalhadores da gig, o seu trabalho na gig economy é a sua principal fonte de rendimento. (Edison Research)

– Para 53% dos trabalhadores de 18-34 anos, o seu trabalho na economia gigante é a sua principal fonte de rendimento. (Edison Research)

– Os empregados na economia Gig são mais jovens, com 38% dos jovens de 18-34 anos a fazerem parte da economia gig. (Edison Research).

Nesta série sobre o que nos espera da América e a partir do texto citado, fomos, pois, levados a dedicar  alguns textos às relações laborais da economia americana no seu todo, no setor dito tradicional e no setor agora dito de economia gig.  E o que vimos e lemos não é nada agradável, mas também não será muito diferente do que se passa noutros países: para o mesmo tratamento de desrespeito para com os trabalhadores  apenas a escala é outra no que diz respeito à economia tradicional  e quanto à economia gig a análise que irá ser apresentada permite-nos  imaginar as terríveis relações de trabalho que nos esperam num futuro próximo, relações estas estabelecidas sobre o reino do algoritmo, quando este tipo de economia invadir o país.

É face a esta realidade que deve ser entendido o discurso dos políticos, dos candidatos a Presidente, e é face a ela que se percebe que Trump poderá ser o vencedor das próximas eleições, não por mérito próprio, que o não tem,  mas demérito dos outros candidatos. Tudo depende, pois, das linhas de força dentro do Partido Democrata e o que se passou agora em Iowa não augura nada de bom.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: