CARTA DE BRAGA – “de hoje e de agora” por António Oliveira

Estes tempos de agora viver, ignorando como aqui chegámos!

Amachucar o passado, ver e saber o futuro dependente de um algoritmo qualquer, viver o presente e nada mais que o presente, cria e normaliza as gerações das nossas sociedades, todas, seja qual for ‘o lugar onde’.

Felizmente, ainda há muito jovem que se preocupa com o porquê das coisas, como elas aparecem e como se vão desenvolver, por também não ignorarem que somos o somatório de todos os que nos antecederam!

É a eles que temos de confiar as nossas esperanças para um futuro diferente, bem longe dos paradigmas estatuídos por todas as organizações que dominam e fazem movimentar tais maiorias, bastando-lhes um sinal, uma corneta, um tweet, um spot, que funcionem como uma bandeira, que deslumbre, ofusque e pare o pensamento.

Já houve tempos em que eram aqueles jovens (e outros menos jovens) a empurrar e a mostrar que a realidade tinha mais coisas a roer-lhe as margens e obrigava todos a virar-se para, ao menos, olharem a ver porquê.

Hoje os paradigmas financeiros, religiosos e ou ideológicos, estatuíram uma realidade oficial e oficiosa, que cresceu de tal maneira, que a desigualdade reina e o pensar alternativo foi banido e, se calhar, excluído.

Este é o melhor caminho para o relativismo moral, onde ‘o outro’ passou a ser uma entidade sem qualquer valor, se não estiver incluído nas intermináveis listas dos amigos que cada um vai ajuntando, como antigamente se coleccionavam os cromos dos jogadores de futebol.

Há um velho provérbio inglês que pode ser um reflexo total desta situação e bem nos poderia alertar, ‘Se só pagas amendoins, só terás macacos’ pelo que, a manter-se, não irão faltar trumpsboris e bolzos para todos os gostos e prontos para todas as bolsas!

Aliás, garantiu Daniel Innerarity, nos últimos dias de Dezembro, ‘Estamos numa situação inédita – os jovens vivem num ambiente tão plural e submetidos a tantos estímulos e spam, que lhes resulta difícil construir um filtro apropriado’.

Mas, mais grave ainda e recorrendo a Isaiah Berlin, ‘o que repugna é o espectáculo indescritível de um conjunto de pessoas que corrompem e «intimidam» os demais, de tal maneira, que estes lhes fazem a vontade sem saber o que estão a fazer e, assim, perdem a sua condição de homens livres e, na realidade, simplesmente, a de seres humanos’.

Esta ideia consta de uma carta enviada ao seu amigo George Kennan, escrita em Fevereiro de 1951 e um pouco mais à frente, a propósito das tentativas para destruir a liberdade, Berlin garante ‘Tudo é tolerável desde que continue a existir a possibilidade da bondade de uma situação em que os homens elejam com liberdade e persigam desinteressadamente os seus propósitos por si mesmos, por muito que tenham de sofrer’.

E, mais uma vez recorro a George Steiner na obra ‘No castelo do barba azul’, ‘Se a aposta na transcendência deixar de valer a pena e nos movermos no sentido da utopia do imediato, a organização dos valores da nossa civilização, ao longo de pelo menos três milénios, alterar-se-á de modos quase imprevisíveis’.

Uma asserção perfeitamente documentada nesta frase que recolhi em 29 de Fevereiro último, na página que a Cadena Ser disponibiliza para além das transmissões, transcrita na língua original ‘Cuatro de cada 10 estadounidenses evitan comprar cerveza Corona por miedo al coronavirus y las búsquedas de “Coronavirus beer” también se han disparado’.

Ou eles merecem o trump, ou o trump os merece a eles, ou eles se merecem todos!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

 

2 Comments

  1. Mau grado os procedimentos políticos dos ianques – ao invés do mais desejado – façam sentir-se desfavoravelmente – criminosamente – em toda a Humanidade, não deixa de ser excelente já haver quem, bem artilhado, pode concluir e mostrar a todos os demais que “ou eles merecem o Trump, ou o Trump os merece a eles, ou eles se merecem todos!”Felicitações, CLV

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