ERNESTO CARDENAL, POETA DA NICARÁGUA (1925-2020) – por MANUEL SIMÕES

 

(1925 – 2020) – por Roman Bonnefoy – obrigado à Wikipedia

 

 

Ernesto Cardenal (de seu nome Ernesto Cardenal Martínez),  ministro da Cultura da revolução sandinista (1979-1987), a quem o Papa João Paulo II, na visita ao país, se negou a cumprimentar, ele que era membro do governo, e depois suspendeu das suas funções de padre, suspensão anulada pelo Papa Francisco, acaba de falecer a 1 de Março, aos 95 anos.

Foi um dos fundadores da poesia hispano-americana da segunda metade do século XX, ao lado do uruguaio Mario Benedetti ou do colombiano Álvaro Mutis, por exemplo, mas o único a merecer apreciação contraditória, isto é, grande admiração e hostilidade. E esta recepção contrastante não se deve apenas à sua militância política (participou no movimento armado que tentou assaltar o palácio presidencial na época de Somoza), mas a qualquer coisa de difícil compreensão como a sua visão do mundo, ao mesmo tempo imanente e transcendente. Cabe recordar que foi sacerdote e que, embora tenha sido suspenso, nunca deixou de se considerar e de viver como padre que quis respeitar os votos de pobreza e de obediência, o último dos quais sempre em conflito com a sua posição de desobediente, de contestatário da injustiça, da discriminação e da iníqua organização social.

Entre os interesses que prevalecem na sua poesia, destaca-se a atenção ao mundo dos indígenas (Homenagem aos índios americanos, 1970), sobretudo porque os povos sujeitos e humilhados são os representantes das culturas pré-hispânicas da América. Neste sentido, a reivindicação das próprias raízes indígenas aparece na obra de Cardenal em sintonia com o movimento neo-indigenista que se difunde em toda a América hispânica a partir das obras de Miguel Ángel Asturias (Guatemala) e José Maria Arguedas, este na zona dos Andes.

Mas o traço mais original de Cardenal poeta é talvez a anulação do próprio “eu”, projectando-o na história colectiva de uma dimensão por ele considerada cósmica. No seu Canto Cósmico (1989), obra que o poeta considera fundamental, a origem do Universo funde-se com a história do povo nicaraguense, numa tentativa de conciliar a Ciência («En el principio… / El Big Bang») e a transcendência, como resulta destes versos inscritos no seu livro Versos del pluriverso (construção a partir de “universo”):

 

                        Evolução e transcendência:

                                               Não há diferença.

                        O Cosmos um processo ainda não acabado

                        E a vida um entremês neste processo.

                        Uma Terra que aspira unir-se com o Céu

                        E um Deus que não é apenas funções ontológicas.

                        Do Big-Bang até ao Reino dos Céus.

 

Em 1957 tornou-se monge, fundando uma comunidade trapista. Em 1994 rompeu com a Frente Sandinista de Libertação Nacional, tornando-se crítico do governo de Daniel Ortega , considerando a revolução sandinista como “A Revolução Perdida”.  No seu funeral, Daniel Ortega e a mulher, Rosario Murillo, nem na morte o deixaram de perseguir, invadindo a catedral de Manágua com os seus apoiantes, gritando palavras ofensivas contra o poeta.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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