FRATERNIZAR – Ainda a Covid-19 – COMO VAI SER A VIDA, QUANDO A PANDEMIA ACABAR? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Ao contrário do que aconteceu com as anteriores pandemias, com a do Covid-19, a vida humana sobre a Terra nunca mais voltará a ser o que era antes. Ainda a procissão da pandemia não saiu do adro e já podemos dar isto por garantido. O facto de termos todas, todos consciência da sua dimensão global é uma experiência colectiva que nunca antes houvéramos tido e que obrigatoriamente nos vai deixar para sempre diferentes do que éramos antes dela acontecer. Cabe a cada uma, cada um de nós a responsabilidade ética da Covid-19 nos deixar a todas, todos bem melhores, entenda-se, bem mais humanos, sororais, religados e a cuidarmos ainda mais de nós, de cada uma, cada um dos outros, da Vida em toda a sua diversidade e do planeta.

Antes desta pandemia Covid-19, vivíamos como ilhas e ocupados com tantas coisas, nenhuma delas essencial para um bom-viver. Tudo era sem qualquer valia, mas era essa sem-valia que nos enchia as 24 horas de cada dia. Nenhum dos institucionais estava focado no Essencial. Muito menos nos estimulava a vivermos focados no Essencial. Nem mesmo aqueles institucionais que, durante séculos, se haviam feito passar como valores estruturais e traves-mestras duma sociedade que se dizia civilizada, concretamente, deus-pátria-e-família, e, depois da Revolução francesa, Liberdade-Igualdade-e-Fraternidade, e, nestes tempos mais recentes, Dinheiro-Ciência-e-Poder armado nuclear. De repente, pudemos ver que todos esses valores eram exactamente a negação do que orgulhosamente diziam ser. Todas, todos pudemos ver que, afinal, o rei ia nu e nos deixava nus a todas, todos, ainda que cheios de tudo, como um grande mercado, em que até as comidas são de encher o olho, mas têm o perverso condão de deixar as almas mais pequenas a quem as come.

Inopinadamente, acontece a pandemia Covid-19 e somos forçados a tomar consciência de que estamos todas, todos nus num planeta que nunca foi nossa casa comum, antes uma nave de loucos progressivamente povoada de seres estranhos, cheios de coisas, mas confrangedoramente vazios do Essencial. Poderíamos gritar por socorro, que não havia ninguém que nos valesse. E, quando porventura aparecia alguém ou algum institucional que vinha para nos valer, o que efectivamente vinha fazer era comer-nos ainda mais. Estávamos no limite e já sobre a vigésima quinta hora. Até que acontece a pandemia Covid-19 e pudemos ver que estávamos todos nus e sós. Pior, estávamos a ser comidos por todos os lados, inclusive, por Aquilo que tínhamos como mais sagrado.

A quarentena implantou-se e, finalmente, sozinhos em casa, com o tempo todo para nós, eis que desperta e cresce progressivamente, de dentro para fora de nós a consciência de que, afinal, todos somos, desde o útero materno, seres habitados. E que só mesmo nesta condição de seres habitados somos progressivamente humanos e religados. O que começámos por ver como mal – a pandemia Covid-19 – é afinal o bem maior que nos vem arrancar a cegueira e a surdez em que, nestes milénios, fomos forçados a viver.

Vivemos agora nos começos duma nova era, a do ser humano pleno e integral que só o é, se religado aos demais, nunca sozinho, muito menos contra os demais. Tanto assim que, depois de tudo passar, iremos descobrir um novo normal, bem mais humano e sororal, bem mais saudável e politicamente maiêutico. Bendiremos a Covid-19 que, mesmo sobre a vigésima quinta hora nos impediu de cairmos no abismo, de onde já não haveria regresso.

Hoje vemos que o Sopro da Vida é mesmo assim. De tão fecundo que é, até do Mal é capaz de tirar o Bem. E que bem maior poderemos receber de graça do que ter-nos feito passar de um viver histórico cheio de banalidades e estúpidas competições a um viver histórico organizado ao modo dos vasos comunicantes, com a Cultura maiêutica e a Política praticada como o Pão de cada dia?!

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