A Universidade em declínio a Alta Frequência – “Contra a universidade tóxica, libertemos o conhecimento e a investigação”. Por Roberto Ciccarelli

Espuma dos dias 2 UNIVERSIDADE 2

 

Assunto da maior importância para a Europa, e também para o nosso país, publicaremos hoje três textos sobre o estado das nossas Universidades, transformadas em Universidades empresas pelo processo de Bolonha, que como bem resumiu o Professor Vitorino Magalhães Godinho é um processo “obcecado pela uniformização, baralhando os títulos e graus, e eivado por uma pedagogia simplista (…) feito à revelia de professores e investigadores”, processo que parece se irá agravar à sombra da crise provocada pelo Covid-19.

Como diz o Professor aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Júlio Marques Mota, “Bolonha representa mais uma componente deste grande mercado do ensino e formação, vem trazer o primado das competências negociáveis no mercado, dos marketable skills, sobre os saberes. Ou seja, o que se pretende desde logo é que seja o mercado a ditar às instituições universitárias os conteúdos e as práticas de aprendizagem, com a consequente desvalorização dos saberes.

Sobre as recentes declarações do governo, pela voz do secretário de Estado João Sobrinho Teixeira, de que “deve passar a haver “menor carga letiva” e as escolas devem começar a “trabalhar com os estudantes recorrendo a outras ferramentas”, diz Júlio Mota: “pretende-se que se ensine mais e melhor em menos tempo e com menos aulas: trata-se de um novo paradigma. De resto, este foi o argumento a justificar Bolonha”. Sobre isto alerta para a continuação da degradação da carreira docente (redução do número de aulas, precarização laboral, carreiras bloqueadas) e adicionalmente com o tele-trabalho docente (aulas à distância, aulas invertidas) toda uma “panóplia de instrumentos que permitam reduzir os custos com docentes e obviamente com a qualidade do ensino realizado”.

Recorrendo ao exemplo de Itália, onde foi lançado em fevereiro passado, um Apelo intitulado “Desintoxicação: saber para o futuro” com a intenção de gerar um grande debate nacional, o Professor Júlio Mota deixa o desafio para que seja lançado aqui em Portugal um Movimento de Dignificação do Ensino e da Investigação, assim como das carreiras de todos aqueles que nestas áreas trabalham.

Textos a publicar:

  • “Carta aberta aos docentes e investigadores de hoje e aos Reitores de amanhã”, por Júlio Marques Mota
  • “Desintoxiquemos o saber para o futuro”, apelo lançado em Itália por docentes e investigadores
  • “Contra a universidade tóxica, libertemos o conhecimento e a investigação”, por Roberto Ciccarelli

FT

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

“Contra a universidade tóxica, libertemos o conhecimento e a investigação”

Roberto Ciccarelli Por Roberto Ciccarelli

Publicado por Il Manifesto em 28/02/2020 (“Contro l’università tossica, liberiamo i saperi e la ricerca”, ver aqui)

 

Vamos desintoxicar – Saber para o futuro. Um apelo assinado por mais de 400 professores critica a gestão empresarial das universidades, o sistema Kafkiano de avaliação que as transforma em empresários de si próprias e apela a uma mudança radical da universidade. E em Junho, em Roma, promove uma reunião por ocasião da cimeira sobre o processo de Bolonha

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Uma aula de Direito sobrelotada, Universidade Estatal de Milão © LaPresse

 

Esmagada pela falta de fundos, consumida pelos impiedosos mecanismos competitivos ativados pelo sistema de avaliação, a universidade italiana está a agonizar enquanto a investigação já não é livre. É um produto no mercado académico, refém da lógica do “publica ou morre”. É o resultado de um “neolinguismo” orwelliano em que “melhoria da qualidade”, “excelência”, “concorrência”, “transparência” significam o contrário: verticalização do poder; redução do ensino e da investigação a quantidades mensuráveis e a desempenhos produtivos; concorrência sobre recursos em declínio e distribuídos de modo a penalizar e discriminar as universidades do Sul em favor de um punhado de centros do Norte. A tão alardeada liberalização, camuflada em objetividade desde há dez anos na altura da chamada “reforma” Gelmini, foi transformada em burocratização kafkiana.

Dar voz às fortes críticas contra um processo que conduziu a uma situação intolerável é o apelo “Desintoxicação: saber para o futuro” publicado ontem na Roars.it. Promovido pelos professores Davide Borrelli, Federico Bertoni, Maria Chiara Pievatolo e Valeria Pinto, viu entre os primeiros signatários entre os primeiros duzentos, entre outros, Tomaso Montanari, Marco Belpoliti, Alessandro Dal Lago e Marco Revelli. Em poucas horas, ontem à noite, as adesões aproximavam-se de quinhentas entre os professores universitários. A forte presença de disciplinas científicas e técnicas é surpreendente, demonstrando que a crítica da avaliação não é prerrogativa de um emaranhado nostálgico dos humanistas. E chegaram também as primeiras adesões de investigadores italianos que trabalham no estrangeiro.

O apelo atesta a existência de uma consciência muito ampla entre os professores, e não apenas entre os universitários, da contradição entre a educação e a investigação transformada na empresa de “capital humano”. É um sinal culturalmente importante que demonstra, também em Itália, a existência de uma corrente de pensamento, até agora subterrânea, que não se resigna à palavra de ordem do capitalismo neoliberal: “Temos de nos adaptar”, esta é a única realidade possível. Em vez disso, continuam a existir espíritos críticos que não se resignam ao governo do qual são vítimas e protagonistas. “A burocratização da investigação e a gestão do ensino superior – afirma o texto – correm o risco de se tornar a Chernobyl do nosso modelo de organização social”. A fim de sair do regime “tóxico” de uma avaliação que destrói a liberdade de pensamento e a cooperação necessária à criação do que pode ser entendido como novo, os promotores pretendem organizar em Roma, em Junho, uma conferência que se quer que venha a ser o contraponto da conferência oficial dos ministros que tutelam as Universidades  que fará o balanço do “processo de Bolonha”, que se iniciou em 1999. Há dez anos, o movimento estudantil Pantera ocupou as universidades durante três meses e denunciou o início do processo. Foi uma antecipação em massa do conflito em que toda a sociedade, não só a escola e a universidade, se afundou hoje. O mesmo objetivo norteou o movimento Onda entre 2008 e 2010 contra a aprovação da “reforma” Gelmini. Esta é a genealogia das lutas que encontra hoje uma nova atualidade num texto que é a expressão de um vasto debate crítico que encontra eco também em França, onde nas últimas semanas está em curso uma mobilização contra uma nova reforma que precariza a investigação.

A “AVALIAÇÃO” é um procedimento denominado “avaliação da qualidade da investigação” (VQR), gerido pela agência Anvur, agora na sua terceira edição. O seu objetivo é atribuir pontos a universidades e departamentos universitários. Nesta base, determina a distribuição da chamada “parte de prémio” do fundo de financiamento universitário. Em 2019, foram distribuídos 1,35 mil milhões, com base num ranking que selecionou 180 departamentos de “excelência”, 87% dos fundos foram para o Centro-Norte. Estas notas são elaboradas por algoritmos controversos e não verificáveis, no interior de um sistema que se está a transformar num mercado. Isto foi denunciado por um inquérito que apareceu na Roars.it, segundo o qual o Politécnico de Milão está disposto a atribuir aos professores que irão desempenhar o papel de “avaliador especializado” no atual “VQR” metade do custo de uma bolsa de doutoramento por um período de três anos igual a 30 mil euros.

Os SIGNATÁRIOS do apelo pretendem não só um refinanciamento do sistema, mas também a uma mudança radical de rumo do seu governo: “Muitos acreditam agora que este modelo de gestão do conhecimento é tóxico e insustentável a longo prazo para a democracia e o conhecimento”.

 

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O autor: Roberto Ciccarelli é filósofo, blogger e jornalista, escreve para o Il Mannifesto. Ele publicou, entre outros, Il Quinto Stato (com Giuseppe Allegri), La furia dei cervelli (com Giuseppe Allegri, 2011), 2035. Fuga do precariato (2011), e Immanenza. Filosofia, direito e política da vida do século XIX ao século XX (2009). Ele está entre os editores do blog La furia dei bravelli. O seu último livro é Forza lavoro. Il lato oscuro della rivoluzione digitale (Derive Approdi, 2018).

 

 

 

 

 

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