FRATERNIZAR – Em dias de pandemia(s) – CREMAR OU ENTERRAR? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

São de pandemia os dias que vivemos. E com a nave Terra a ser pilotada por loucos políticos, clérigos organizados em pirâmide, e os povos das nações reiteradamente roubados da sua força de trabalho, voz e vez, bem se pode dizer que, de ora em diante, todos os dias serão de pandemia. Não já da Covid-19, mas de outras pandemias cada vez mais dolorosas e mortíferas. Porque a Terra, organismo vivo, não aguenta todo o Mal que o Homo Sapiens, no seu erudito Saber sem Sabedoria, lhe tem feito e continuará compulsivamente a fazer.

Em dias assim, a questão, Cremar ou Enterrar, é mais do que pertinente. Estará sempre na ordem do dia. Aquelas inúmeras valas comuns do Brasil que todos os dias nos são dadas a ver nas tvs estão aí a gritar que a Cremação é mais digna do que o tradicional Enterro. Porque o pequeno invólucro onde são depositadas as cinzas a que o cadáver cremado se resume, é depois entregue aos familiares. E estes, responsavelmente, fazem com elas o que melhor entenderem. Sem velório e sem a intromissão de estranhos, como são todos os clérigos ou pastores.

Para o cadáver – a única coisa visível que resta, depois que alguém dá ao mundo o seu derradeiro Sopro, ou Respirar – Cremar ou Enterrar é indiferente, desde que se execute, após as 24 horas seguintes. Mas em dias de pandemia, como os de hoje, a preferência é sem dúvida Cremar, já que dignifica mais os familiares de quem morre devido a ela.

Quando em 2009, publico ‘Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação’, Areias Vivas (605 pgs), chamo-lhe ‘Livro póstumo’, porque, no final, incluo um inesperado ‘Prólogo ao Amanhã-que-vem (ou o Meu Testamento)’. Muitas, muitos põem-se logo a pensar que eu devo estar com uma doença incurável escondida. Ignoram que Morrer, como fruto maduro na árvore, é a condição ‘sine qua non’ para chegarmos à plenitude da Vida, qual rio que, desde a fonte, corre teimosamente em direcção ao mar. À minha última vontade aí expressa em 14 pontos todos pertinentes, permito-me acrescentar agora mais alguns. Eis.

Deixo às pessoas que me são mais próximas, quer na Igreja-fermento actuante na Humanidade, constituída por todos os seguidores de Jesus histórico e das suas práticas políticas maiêuticas, devidamente actualizadas para este séc. XXI, quer no Projecto Barracão de Cultura, a escolha entre Cremar e Enterrar, de acordo com o que ditarem as circunstâncias em que esse momento de Entregar ao mundo o meu derradeiro Sopro ou Respirar acontecer. Que, por ser o derradeiro, é Corpo-Sopro vivente, definitivamente, invisível aos olhos, por isso mesmo, muito mais actuante e fecundo do que agora.

Se as circunstâncias ditarem que é melhor Cremar, quero que as Cinzas a que o cadáver que deixo se reduz, sejam discretamente lançadas nas águas das várias Levadas que dia e noite correm a fecundar muitos dos campos de Macieira da Lixa, a aldeia onde vivo por opção e que, desde o início da década de setenta, Séc. XX, é um dos Lugares Teológicos de Deus que nunca ninguém viu, o de Jesus histórico que, como sabemos, sempre coloca o bem que possamos fazer aos seres humanos que vemos, antes do bem que possamos fazer a Deus que nunca vimos. E depois de tudo já consumado, podereis partilhar no BC uma refeição em nome e memória de Jesus e em meu nome e memória, porque, tal como o Corpo-Sopro dele, também o meu estará sempre convosco e com todos os povos da Terra.

Se, pelo contrário, as circunstâncias ditarem que o melhor é Enterrar, saibam então que, em nenhum dos casos, quero toque de sinos, velórios, presença de clérigos, Agência Funerária, anúncios nos cafés e nos jornais. Adquirireis, na altura, uma das urnas mais simples que houver, depositais nela o cadáver que deixo e fechais, para nunca mais a abrir. O transporte da urna até ao cemitério da Autarquia local pode ser feito num tractor emprestado e enterrado aí em vala comum, sem flores, apenas sementes que, a seu tempo, vão florir. E sobre a campa rasa, plantais uma tabuinha de madeira, com estes dizeres, escritos a fogo, Mário, Presbítero-Jornalista. Tudo na maior das simplicidades. Mas com muitos beijos e abraços, cantos, poemas, leitura de Textos de Livros meus e alguma dança que celebre a minha Vida, então já na sua plenitude.

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