A emoção é a matéria prima e o sentimento um produto processado. Na realidade e, só como exemplo, a tristeza é uma emoção e a nostalgia um sentimento.
Uma mesma situação afecta cada pessoa de maneira diferente, não será apenas uma questão de carácter, pois o carácter não é essência da alma, talvez só a assumpção de um conjunto de normas de comportamento.
Os nossos sentimentos dependem da maneira como interpretamos cada acontecimento e do modo como conseguirmos ‘carregar’ as emoções que daí poderão aparecer.
Estas considerações, baseadas em reflexões diversas da psiquiatra e psicoterapeuta Anabel Gonzalez a um diário europeu, justificam-se pelo ambiente catastrofista que nos evolve a todos, creio que com raras excepções.
Aliás acontece, afirma Daniel Innerarity, não estamos perante uma contaminação, mas no meio de uma sociedade contagiosa, pois ‘o mundo define-se hoje por bens e males comuns, mais que por interesses exclusivos’.
‘Não sabemos o que fazer numa crise com estas características e, tenho a impressão, que os que menos vão aprender, são os que têm tudo claro e o pouco que sabemos das catástrofes, é serem consequência de acções concatenadas, interacções fatais e debilidade institucional no plano global’.
As coisas que antes nos protegiam (Estado, distância, prospectivas de futuro e defesa) enfraqueceram e ‘o único que nos poderá salvar é o conhecimento e a cooperação’, acrescenta Innerarity.
Uma ideia reforçada recentemente por Edgar Morin, ‘Esta crise mostra como a mundialização é interdependência sem solidariedade. A globalização gerou a unificação tecno-económica no planeta, mas não fez progredir a compreensão entre os povos’.
Fugir também pode ser um renascimento, tal como o procurou Flaubert, ao renunciar com 23 anos, à carreira, ao casamento e aos mundanismos. Um ano depois, escreve ao seu amigo Alfred Le Poittevin, ‘Faz como eu, rompe com o exterior, vive como um urso, um urso branco, manda tudo à merda, a tudo e a ti ao mesmo tempo, a tudo menos à tua inteligência’.
Na razão última da sua fuga, está também a impressão de o mundo carecer de sentido e ‘fujo do mundo para me abrir a ele. Se não tenho tempo de me conhecer, a relação com os outros nunca deixará de ser pobre’.
E hoje também se pode fugir para ‘ser’, garante o sociólogo francês Rémy Oudghiri, ‘a imperiosa precisão de nos libertarmos da prisão social que cresceu espantosamente nas últimas décadas, com a net, a inteligência artificial e aquela rede universal, cega e sem controlo, que nos controla’.
Mas esta crise também pode ser vista de outro modo, como explicava Charles Bukowsky, ‘O problema com o mundo é que a gente inteligente está cheia de dúvidas, enquanto a gente estúpida está cheia de certezas’ e, quanto a isso, a ver por muitos ‘muito alto ebem colocados’ exemplares, pouco podemos fazer.
E o ‘covid’ veio aumentar tudo isto, prodigiosamente!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor