CRUZEIRO SEIXAS FAZ ESTE ANO CEM ANOS. A REVER TODA A SUA OBRA por Clara Castilho

Em 2020, ano em que se comemora o centenário do nascimento de  Artur do Cruzeiro Seixas, já está à venda o primeiro volume da sua “Obra Poética”, que a Porto Editora decidiu agora republicar.

Artur do Cruzeiro Seixas é um dos nomes incontornáveis do movimento surrealista, do qual foi um dos principais precursores em Portugal. Com um vasto trabalho nas artes plásticas, Cruzeiro Seixas é também poeta.

Valter Hugo Mãe é o curador da coleção, Artur do Cruzeiro Seixas que afirma: “ergue a poesia como “a boca que olha”. Tão feita do improvável quanto de presciência”.

Artur do Cruzeiro Seixas nasceu em 1920, na Amadora. No seu longo percurso artístico, conta com uma fase expressionista, outra neo-realista e outra, com início no final dos anos 40, mais prolongada, em que integra o movimento Surrealista Português, ao lado de Mário Cesariny, Carlos Calvet, António Maria Lisboa, Pedro Oom ou Mário Henrique Leiria. Foi um dos seus precursores e atualmente é considerado um dos seus máximos expoentes, considerando-se que o surrealismo fantástico visível na sua obra tenha tido como principal inspiração o trabalho do artista De Chirico.

É autor de um vasto trabalho no campo do desenho e pintura, mas também na poesia, escultura e objectos/escultura. No ano de 1952, foi viver para Angola, onde realizou várias exposições individuais e projetos na área da museologia. Em 1964, fugindo da guerra colonial que se vivia, decidiu empreender uma viagem pela Europa. No seu percurso conta inúmeras exposições individuais e coletivas em importantes museus e galerias, em Portugal e no estrangeiro, e com diversos prémios e distinções.

Cruzeiro Seixas doou, em 1999 a totalidade da sua coleção à Fundação Cupertino de Miranda, de Vila Nova  de Famalicão, tendo em vista a constituição do Centro de Estudos do Surrealismo e do Museu do Surrealismo.

Em outubro de 2012, a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe a Medalha de Honra em forma de reconhecimento pela sua longa e sólida carreira artística, como pintor e poeta.

Era um pássaro alto como um mapa

e que devorava o azul

como nós devoramos o nosso amor.

 

Era a sombra de uma mão sozinha

num espaço impossivelmente vasto

perdido na sua própria extensão.

 

Era a chegada de uma muito longa viagem

diante de uma porta de sal

dentro de um pequeno diamante.

 

Era um arranha-céus

regressado do fundo do mar.

 

Era um mar em forma de serpente

dentro da sombra de um lírio.

 

Era a areia e o vento

como escravos

atados por dentro ao azul do luar.

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