CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – LXVI – PORQUE É QUE OS LÍDERES SINDICAIS VOTARAM CONTRA O MEDICARE FOR ALL NO MEIO DA ATUAL PANDEMIA? – por ERIC BLANC

 

Why did labor leaders vote against Medicare for All in the middle of a pandemic?  por Eric Blanc

Jacobin, 29 de Julho de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

No início desta semana, quatro líderes sindicais votaram contra a inclusão do Medicare for All na plataforma do Partido Democrático – uma bofetada na cara de milhões de americanos que lutam contra uma pandemia sem precedentes. Precisamos de um movimento sindical que lute por todos os trabalhadores, tanto organizados como não organizados.

A presidente da Federação Americana de Professores Randi Weingarten fala à audiência na convenção anual do sindicato a 13 de Julho de 2018 em Pittsburgh, Pennsylvania. (Jeff Swensen / Getty Images)

 

O  NOSSO NOVO NÚMERO EDITORIAL – OLHANDO PARA O QUE AS CAMPANHAS DE BERNIE  SANDERS REALIZARAM E PARA O TRABALHO QUE RESTA FAZER – SERÁ LANÇADO NO PRÓXIMO MÊS.

 

Na segunda-feira, o comité da plataforma do Comité Nacional Democrático (DNC) votou 125-36 para não incluir o Medicare para Todos na plataforma do partido.

Confrontado com uma pandemia que revelou as irracionalidades catastróficas do sistema de saúde dos Estados Unidos orientado para o lucro, é triste, mas não surpreendente, que a elite do Partido Democrático, comprada pelas bilionárias Organizações Privadas de Saúde e de Seguros de Saúde, se mantenha mais leal a estas organizações que aos  trabalhadores.

Mas entre aqueles que votaram “não” no Medicare for All estavam também quatro proeminentes presidentes de sindicatos nacionais: Randi Weingarten da Federação Americana de Professores (AFT), Lily Eskelsen Garcia da Associação Nacional de Educação (NEA), Mary Kay Henry do Service Employees International Union (SEIU), e Lonnie Stephenson da International Brotherhood of Electrical Workers (IBEW).

Isto é um escândalo. Porque é que os principais representantes de Organizações de Trabalhadores ajudaram a abater uma medida que iria melhorar dramaticamente a vida de milhões de trabalhadores? Especialmente perante uma crise social sem precedentes, precisamos de sindicatos para lutar pela saúde física e económica de todas as pessoas da classe trabalhadora, organizadas e não organizadas.

Nunca houve um momento tão urgente para apoiar o Medicare for All como agora. Com o desemprego a aumentar, estima-se que 27 milhões de pessoas – desproporcionadamente negras e latinas – poderão em breve perder o seu seguro por causa do sistema de saúde patrocinado pelos empregadores dos EUA. Na ausência de um sistema nacional de saúde pública, os EUA ficaram semanas atrasados em relação ao resto do mundo na resposta ao coronavírus, custando inúmeras vidas.

Apesar de os testes serem supostamente gratuitos, muitos estão no entanto a receber faturas de centenas ou milhares de dólares. E uma vez desenvolvida uma vacina, a sua acessibilidade para os americanos comuns irá provavelmente depender de nos livrarmos  dos imperativos do sistema de saúde com fins lucrativos. O Medicare for All garantiria custos mais baixos de cuidados de saúde para a grande maioria.

A maioria das pessoas compreende por experiência própria porque é que os EUA precisam desesperadamente de uma reforma séria: as sondagens mostram que a maioria dos eleitores, e mais de 85% dos democratas, apoiam o Medicare for All. E este apoio popular tem continuado a aumentar de forma constante devido à pandemia. Alguns dirigentes sindicais também compreendem isto, como se viu na votação pró-Medicare for All do presidente da UNITE-HERE Local 2, Anand Singh, na segunda-feira.

As ações de Weingarten, Eskelsen Garcia, e Kay Henry são particularmente dececionantes porque cada um dos seus sindicatos afirmou apoiar o Medicare for All. Em 2019, a AFT, a NEA, e o SEIU apoiaram a Lei Medicare for All de Pramila Jayapal, e Kay Henry atacou  a ideia de que Medicare for All iria prejudicar os trabalhadores sindicalizados: ” “Indigna-me profundamente que os 16 milhões de trabalhadores que se juntaram e lutaram por melhores planos de saúde sejam atirados contra os milhões de trabalhadores americanos que lutam para terem acesso à cobertura de cuidados de saúde[1].”.

Weingarten em múltiplas ocasiões[2], incluindo há apenas alguns meses atrás[3], professou o seu apoio a um modelo de pagador  único, ou seja de Medicare for All.  Como ela explicou em 2017, “Já é bem tempo de nos juntarmos aos mais de 30 países que garantem o acesso universal a cuidados de saúde de alta qualidade e a preços acessíveis. O projeto de lei Medicare for All do Senador Bernie Sanders oferece um caminho para alcançar este objetivo”.

Esta desconexão dramática entre palavras e atos provém de uma estratégia de trabalho dentro das estruturas de poder do Partido Democrático, em vez de as desafiar. Como a votação do DNC desta semana deixa claro, o declínio de décadas de trabalho organizado, e a deterioração das condições de vida da classe trabalhadora, continuará até que os nossos sindicatos finalmente rompam os seus laços com os lideres do  Partido Democrático comprados pelas grandes empresas.

No meio de uma pandemia devastadora, os líderes da AFT, NEA, SEIU, e IBEW tiveram uma oportunidade de lutar pela saúde dos seus membros e da classe trabalhadora em geral. Em vez disso, eles colocaram-se do lado do status quo. Os trabalhadores precisam, e merecem, melhor do que isto.

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[1] Nota de Tradutor: Diz uma coisa, vota outra, vota contra o Medicare for all em 2020.

[2] “Os cuidados de saúde nos Estados Unidos deveriam ser um direito e não um privilégio. Mas para demasiadas famílias, a capacidade de ir ao médico quando estão doentes, pagar as suas receitas, e aceder a cuidados críticos está cada vez mais fora do seu  alcance. Embora os anteriores presidentes e o Congresso tenham compreendido e tomado medidas para atingir este objetivo, isso mudou nos anos 90 como resultado de uma aliança profana entre empresas farmacêuticas e companhias de seguros. Este ataque aos cuidados de saúde foi então alimentado por extremistas de direita do mercado que fizeram tudo o que estava ao seu alcance para destruir Obamacare”.

[3] Ou ainda “Concordamos que devemos fazer dos cuidados de saúde um direito humano básico e universal – um direito que muitas pessoas continuam ainda sem esse direito.(…) Defendi o Medicare para todos como um ponto de partida, não como um limite.”

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Pode ler este artigo no original clicando em:

https://jacobinmag.com/2020/07/democratic-party-platform-medicare-for-all-unions

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