A Covid-19 é a mais recente manifestação do Mal estrutural que as raízes cristãs da civilização ocidental foram e continuam a ser, agora numa expressão mais laica e ateia, mas sempre cristã e até mais mortífera. Pelos frutos se conhecem as raízes das árvores. Também as raízes cristãs da civilização ocidental. E os frutos delas são semelhantes àquele tipo de sal de que fala Jesus histórico, que perdeu a força de salgar e de impedir a corrupção da sociedade. E como ele têm de ser lançadas fora e pisadas pelos seres humanos e povos.
À luz da Covid-19, bem podemos dizer que melhor fora que as igrejas cristãs nunca tivessem nascido e vingado. Estão hoje em vias de extinção – o que se saúda – mas apenas na sua versão religiosa, litúrgica, sagrada, confinada às igrejas paroquiais e às catedrais, coisa de clérigos que renunciaram à sua condição de seres humanos entre e com os demais, e vivem num mundo à parte e acima de todos eles, sem nunca perceberem que esse tipo de mundo só existe nas suas delirantes cabeças. O que faz deles os mais frustrados e estranhos entre os seres-que-respiramos.
A pandemia Covid-19 é a mais recente manifestação do Mal estrutural que os cristianismos e respectivas igrejas são em toda a Terra. São pais de todo o tipo de vírus que, ao longo dos séculos, mantêm cativa e alienada, sequestrada e roubada a Humanidade, na sua variedade de povos e nações. A própria Terra, de tão esventrada pelo estranho ou inimigo que é o Poder, nascido e alimentado por elas, está vertiginosamente a passar de nosso colo-casa-e-alimento, a veneno e tumba onde somos engolidos vivos, num mar de dores.
Chamados, desde que acontecemos no decurso da Evolução como fragilidade humana-consciência, a Cuidarmos de nós, uns dos outros e da Terra, corremos, desde o início e progressivamente, a dominar-nos uns aos outros e à Terra. De seres humanos que mutuamente se devem reconhecer, acabamos estranhos e inimigos uns dos outros. De irmãs, irmãos que mutuamente se devem complementar e amar, acabamos irmãs, irmãos que mutuamente se odeiam, exploram, dominam e matam. E tudo porque o sopro do religioso e da idolatria do Dinheiro, materializado desde há dois mil anos, nos cristianismos e respectivas igrejas, é fratricida, homicida, geocida e ecocida. Quase não se deu conta disso no início, mas com o passar do tempo cresceu em dominação e repressão, ao ponto de sermos hoje autênticos buracos negros e holofotes que respectivamente nos sugamos e encandeamos-cegamos uns aos outros.
Vai daí, sempre que num mundo assim a Luz acontece entre nós, corremos logo a denegri-la, a persegui-la e a matá-la. Não suportamos que ela mostre aos que residimos nas aldeias, nas cidade e no mundo quão más são as nossas obras, especialmente, quando as apresentamos vestidas de benfeitor e de religioso, laicismo ou ateísmo, como sucede com todas as igrejas cristãs, seus clérigos e todos os ateus cristãos. Resta, todavia, uma ténue esperança de que esta pandemia Covid-19, nos faça mudar radicalmente de ser-viver-e-praticar. Embora os sinais que os maiores Estados das nações do mundo diariamente emitem não sejam nada animadores.
Cabe-nos, por isso, desmantelar todos os Estados e, a partir do caos subsequente, darmos corpo a uma Terra definitivamente mãe, colo e alimento dos seres humanos e povos ligados uns aos outros, permanentemente disponíveis para cuidarmos dela, de nós e uns dos outros. Porque para isso acontecemos no decurso da Evolução, como os mais frágeis dos seres vivos Consciência.
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