Globalização, Repartição e Turismo de massa- a reconfiguração social nas grandes cidades – 6. Paris vista dos seus subúrbios: um caos de desigualdades (1/2). Por François Bonnet

Seleção de Júlio Marques Mota, tradução de Francisco Tavares

 

N.E. Em virtude da extensão do texto, apresentamo-lo em duas partes.

6. Paris vista dos seus subúrbios: um caos de desigualdades (1ª parte)

 Por François Bonnet

Publicado por em 20/06/2020 (ver aqui)

 

O bairro Des Groues em Nanterre (Hauts-de-Seine), não longe das Torres da Défense. Jean Fabien Leclanche

 

Haverá um antes e um depois do Covid-19 para as cidades e as políticas urbanas? “Muitos acreditam que a pandemia marcará uma clara ruptura. No entanto, há muitas razões para acreditar que a descontinuidade não será assim tão radical”, observa o sociólogo italiano Giovanni Semi na revista Metropolitiques.

Na Île-de-France, a crise sanitária trouxe à luz do dia, e por vezes de forma extrema, duas características da região da capital: em primeiro lugar, desigualdades crescentes e, em segundo lugar, uma indústria turística que remodelou profundamente Paris.

Esta grande reportagem que está prestes a ler estava inicialmente prevista para publicação em 17 de março, um dia após a primeira volta das eleições autárquicas e na sequência de um inquérito realizado em janeiro e fevereiro. O dia 17 de março foi o dia do confinamento brutal do país. A epidemia não é, portanto, discutida diretamente neste artigo, que optámos por não alterar. Porque muitas das tendências em curso em Paris e nos seus subúrbios, muitas das dificuldades encontradas continuam a existir. A pandemia não as apaga. Só as tem agravado.

É o caso do Seine-Saint-Denis, um departamento autenticamente deserdado que tem sido historicamente subfinanciado pelas autoridades, que pagou o preço mais elevado pelo Covid-19, registando, segundo um estudo do INSEE, um aumento da mortalidade de 123,4% entre 1 de março e 30 de abril de 2020, em comparação com o mesmo período em 2019.

Seine-Saint-Denis pagou o preço mais elevado pelo Covid-19

Este triste registo não é surpresa, é apenas a consequência da segregação territorial e social em curso. Populações precárias e insalubres; habitações exíguas ou sobrelotadas; sobrerrepresentação dos assalariados da “linha da frente”, ou seja, os expostos a riscos acrescidos de contaminação; menor prestação de cuidados de saúde: todos os indicadores sociais do departamento só podiam apontar para um aumento da catástrofe sanitária.

As oito semanas de confinamento rigoroso também radicalizaram uma outra crise, a da habitação, que estava em curso em toda a metrópole parisiense. Um grande milhão de pessoas na Ile-de-France escolheu fugir da metrópole, muitas vezes de apartamentos demasiado pequenos, para viver mais confortavelmente este período de confinamento na província.

Enfim, a epidemia de Covid-19 veio atingir em cheio que estava em vias de ser o modelo económico de Paris: o turismo. Como principal destino turístico do mundo, em que pode Paris tornar-se sem turistas ou turismo de massas, o que tinha sido até agora desejado e encorajado? Esta é uma questão central, mas sistematicamente ausente da campanha eleitoral.

A crise sanitária obrigará, portanto, as próximas equipas municipais a enfrentarem finalmente os problemas reais e graves que Paris e os seus subúrbios enfrentam. Para avaliarmos isto, comecemos com uma pequena visita a Argenteuil (Val-d’Oise).

É um lugar que os parisienses desconhecem, e fazem mal, pois permite-nos visualizar quais são os verdadeiros desafios destas campanhas municipais, tanto nos subúrbios como em Paris. A colina d’Orgemont é uma antiga pedreira de gesso que foi reestruturada nos últimos anos, transformando-se numa zona ajardinada.

O lugar não é chamativo, apenas bucólico. Mas como culmina a uma altitude de 120 metros, a colina oferece um dos mais belos panoramas da aglomeração parisiense.

Do alto de Montmartre, descobrimos o folclore insípido da Paris de Amélie Poulain. Um olhar para trás. Em Orgemont, o futuro está aos nossos pés. É a Grande Paris, esta metrópole de 7, 8 ou 10 milhões de habitantes (dependendo do perímetro escolhido), que se oferece aos olhos.

Argenteuil e as suas encostas, onde dois mil hectares de vinha, agora desaparecidos, davam de beber a Paris no final do século XIX, tal como as suas cidades, como a do bloco de Argenteuil que Sarkozy prometeu fazer uma limpeza em 2005.

Mais além, na A86, os cruzamentos da auto-estrada com a A15, que vai em direção a Cergy-Pontoise, o Sena, o porto de Gennevilliers, a Torre Pleyel e as cidades de Seine-Saint-Denis, a Défense, as comunidades residenciais e o centro burguês do sul do Hauts-de-Seine.

E depois Paris, uma ilhota mineral de uma arquitectura que se adivinha sábia e bem ordenada, pouco perturbada pela Torre Eiffel e pela Torre Montparnasse. A uma altitude de 120 metros, é possível ver até as comunas a leste de Paris, um pouco de Romainville, Haut-Montreuil e as torres Mercuriales que dominam o horrível nó permutador rodoviário de Bagnolet.

Mapa das comunas visitadas no decurso desta reportage

É aí, é a esta escala que se compreende Paris. Não é uma cidade capital de 2,190 milhões de habitantes. É o centro de uma das grandes metrópoles do mundo. E, para compreender as suas disfunções e falhas, devemos também observá-la a partir dos seus subúrbios.

Por todo o lado, a exasperação aumenta contra uma cidade central que exporta a sua loucura imobiliária, expulsa a sua classe média e permite o desenvolvimento de desigualdades imensas. Tudo isto está a acontecer numa terrível confusão institucional e política à escala da Grande Paris.

Urbanistas, promotores, sociólogos e historiadores, e mesmo os políticos encontrados no decurso desta reportagem, concordam. É de facto nos próximos seis anos, a duração do próximo mandato municipal, que se jogará uma boa parte do destino da Grande Paris.

Pode resumir-se nesta alternativa: deixar o caos prosperar num contexto de desigualdades insuportáveis e de egoísmo paroquial; ou organizar a partilha e a solidariedade para, finalmente, melhorar significativamente as condições de vida dos seus habitantes.

Marie-Hélène Bacqué, socióloga, professora na Universidade de Paris Ouest-Nanterre e uma das principais especialistas em áreas suburbanas, explica facilmente que, quando observa Paris de fora da periferia, “o que me salta à vista é, antes de mais, as desigualdades que estão em constante crescimento, uma segregação social que se acelera”.

Como se pode fazer uma campanha eleitoral em Paris sem nunca falar da metrópole urbana e, portanto, da questão da redistribuição?” pergunta ela. “A fiscalidade, os transportes, os serviços públicos, a saúde, a educação, as diferenças não cessam de aumentar. Paris concentra as grandes instalações e equipamentos, sedes sociais, riqueza e a reputação da morada continua a aplicar-se plenamente“, acrescenta.

Fúria imobiliária

Então falemos de Bagnolet, uma pequena comunidade do departamento de Seine-Saint-Denis de 35 000 habitantes, na periferia do 20º bairro. É num café do Forum des Halles, muito próximo do seu trabalho, que Marc Thomazeau conta a história da sua nova comuna. Aos 32 anos de idade, este executivo comercial de uma empresa de TI oferece o perfil típico dos milhares de parisienses forçados a fugir todos os anos da fúria imobiliária da capital.

Vim da Bretanha em 2009 para estudar em Paris“, conta Marc. “Após dez anos de alojamento estudantil e de partilha de apartamentos, decidi no ano passado comprar. O meu objetivo é ter um apartamento de 50 m2 no 19º ou no 20º bairro. Nada por menos de 500.000 euros, exceto ratoeiras com muito trabalho: impossível para mim, mesmo que ganhe bem”.

O jovem executivo atravessa a periferia e encontra no centro de Bagnolet “um lindo apartamento de 60 m2 instalado em antigos escritórios“. Marc fez as contas: mudou-se 2,7 quilómetros em linha reta, os preços dos imóveis foram reduzidos para metade ou quase, de “10.000 para 12.000 euros por m2 para 6.000 euros“.

Isto é uma aberração“, diz ele. “Objetivamente, é muito preocupante para o futuro de Paris, que se está a tornar um grande museu para os turistas. Se eu, que sou bastante favorecido, não posso viver em Paris, quem pode? E este corte, esta fronteira marcada pela estrada da periferia e por todas estas portas feias de Paris, é completamente disfuncional.”

 

As Torres Mercuriales, torres de escritórios geminadas construídas entre 1975 e 1977 e inspiradas no World Trade Center de Nova Iorque, dominam o nó de auto-estradas A3 em Bagnolet © Jean-Fabien Leclanche

 

Marc tornou-se um habitante da “Grande Paris” ou quase. Ele aprecia e desfruta do centro de Bagnolet. Trabalha e vai a Paris, vai à piscina do 20º bairro, corre ao longo do canal Ourcq em Pantin ou na Courneuve, bebe nos grandes centros comerciais, um lugar da moda em Pantin, faz umas viagens a Montreuil. E tudo isto de bicicleta, mesmo que o metro esteja apenas a um passo de distância.

Na verdade, não me arrependo de nada, exceto de ter tomado o lugar de um homem de Bagnolet quando me mudei para lá. Mas toda esta dispersão comunal parece-me absurda. Não é a esta escala que eu vivo“, diz ele.

Ah, a estrada circular da periferia! Não é tanto da auto-estrada urbana e da sua poluição massiva (600 mil pessoas vivem ao longo dela) que os “suburbanos” falam. É sim da fronteira social, política e económica que ela materializa. “Paris é a corte do rei. E a questão que se nos põe, habitantes de Pantin, é: ainda temos o direito de entrar na corte do rei?“, irrita-se Andrea Romay, uma professora desta cidade da primeira coroa em Seine-Saint-Denis.

Em Pantin, o parque e a cité de la Villette estão a curta distância, Paris fica no fim da rua. “É horrível estar às portas de Paris e ver uma tal fractura“, acrescenta Andrea.

Yamina Djaatit, uma executiva numa estrutura associativa, teve de desistir do seu apartamento F2 HLM (habitação de renda moderada) no 20º bairro e mudar-se para Bagnolet para alugar um apartamento de três quartos no setor privado: “Deixar 21 anos da sua vida em Paris é difícil”.

Video acessível no texto original.

 

O passado de Paris e dos seus subúrbios é uma longa história de “je t’aime moi non plus” (relação de amor-ódio). Em suma, uma Paris rica e pretensiosa trataria o exterior da periferia como um criado ou um pátio das traseiras.

Paris exportou para lá os seus cemitérios (seis nos subúrbios, incluindo o de Pantin que é o maior de França), os seus depósitos de resíduos (o maior estava em Bondy), os seus depósitos técnicos, as suas águas residuais (os derrames de Gennevilliers e hoje da Plaine d’Achères), os seus loucos e os seus vagabundos (hospital Bagneux, casa de Nanterre), os seus pobres (a cidade é proprietária de 20.000 habitações de renda baixa nos subúrbios), os seus incineradores de lixo (Ivry-sur-Seine, Saint-Ouen).

E assim continua! Paris quer impor a construção de um vasto crematório num terreno que a cidade possui entre Aubervilliers e Pantin, contra o a opinião dos presidentes de câmara destas duas comunas. É acusada, em Asnières, de deixar uma cidade de 700 habitações apodrecer de pé. Sobretudo, tem sido posta em causa – não sem má fé – pela recusa em cooperar e redistribuir o maná financeiro.

Por detrás deste contencioso histórico, há sempre um compromisso“, relembra o historiador e especialista de questões urbanas Emmanuel Bellanger. “Muitas vezes contra Paris, foram os subúrbios que inventaram as políticas urbanas e as grandes intercomunidades“, acrescenta.

É bastante divertido que tenha sido Patrick Devedjian, uma figura de direita e um Sarkozista de choque, quem decidiu nos últimos anos tornar-se a voz dos subúrbios. Falecido de Covid-19 em 29 de março, tínhamo-nos encontrado com ele em fevereiro. Aos 75 anos, não escondia o seu prazer em presidir desde 2007 ao extremamente rico departamento de Hauts-de-Seine. Ele tinha transferido os escritórios do conselho departamental para a Arena, uma instalação gigantesca que é simultaneamente o novo estádio do clube de rugby Racing 92 e um local para concertos. Tudo isto a apenas algumas centenas de metros do Grande Arche de la Défense, o cofre forte fiscal do departamento.

As janelas do seu escritório davam para o cemitério Neuilly que, como Paris, exportava os seus mortos para Nanterre. Patrick Devedjian transformou o seu departamento num poderoso principado, que nunca se atrasou numa luta contra o Estado. “O Estado é o meu único adversário“, assegurou, “porque a Madame Hidalgo não desmerece, embora eu saiba que não a estou a ajudar dizendo isto“.

“Paris, os subúrbios… é a luta de classes!”

Paris sempre foi a menina querida do Estado, disse-o a Chirac quando ele era presidente da câmara: “Jacques, nós não somos a montra de exposição, somos a casa de banho de Paris! Toda a história mostra que nós somos os criados“, dizia indignado Patrick Devedjian que, em 1983, tinha a Câmara Municipal de Antony. E pensando por um momento: “Na verdade, Paris (2 milhões de habitantes), os subúrbios (7 ou 8 milhões)… é a luta de classes!

Este Devedjian, subitamente disfarçado de eleito vermelho suburbano para mascarar o egoísmo do seu próprio departamento (voltaremos a isto mais tarde), faria as pessoas rir se as suas observações e críticas não fossem partilhadas por outros campos políticos. Mas muitas vezes são.

Mais afastado da política, Simon Ronai é um reconhecido urbanista. Durante muito tempo diretor do gabinete de planeamento urbano da Orgeco, trabalhou com muitos municípios suburbanos. Acima de tudo, acompanhou Pierre Mansat, o representante eleito comunista parisiense nomeado por Bertrand Delanoë para reconstruir a ligação com os subúrbios interiores e trabalhar na organização da metrópole. A experiência vista hoje é amarga.

Claro que os subúrbios já não são os criados de Paris, autonomizaram-se“, diz Simon Ronai. “Mas, ao mesmo tempo, Paris isolou-se, tornou-se uma ilhota de ricos e burgueses. Há excesso de turismo, excesso de comercialização, uma explosão relâmpago nos preços dos imóveis que está a alastrar a toda a metrópole. Temos um sistema político e institucional estrambólico, em que triunfam os egoísmos municipais. Se Paris se vai tornar em hotéis a 600 euros por quarto e cenouras orgânicas nas cantinas, então não obrigado.”

O combustível para a crise que está a minar Paris e a desestabilizar os seus subúrbios é obviamente a habitação. Há alguns meses atrás, o preço médio de compra por metro quadrado ultrapassou os 10.000 euros. A primeira consequência é a aceleração da saída das classes intermédia e média. Segundo o INSEE, Paris perdeu 60.000 habitantes entre 2011 e 2016. Esta taxa de 12 000 partidas por ano tem continuado e provavelmente acelerou desde então.

No entanto, para além da falta de novas habitações e de um stock de habitação privada que se tornou inacessível, há um novo fenómeno: a explosão do número de habitações consideradas desocupadas e, na realidade, retiradas do mercado parisiense. São números pouco conhecidos que podem ser encontrados num longo texto de Jean-Louis Missika, assistente de planeamento urbano de Anne Hidalgo, durante este mandato que está a chegar ao fim.

Nesta apresentação, intitulada “O Novo Urbanismo Parisiense” e publicada no site da Terra Nova, Missika faz um relato lisonjeiro do seu mandato. Mas comentando a diminuição da população parisiense, que não o preocupa, o vice-prefeito revela esta espantosa percentagem: uma em cada seis casas está desocupada em Paris!

Em 2016 em Paris, uma habitação em cada seis estava desocupada

Fonte: Insee – Evolução do número de habitações por categoria, histórico desde 1968

 

A percentagem de habitações não ocupadas atingiu 17% em 2016, ou seja, uma em cada seis, ligada em especial ao desenvolvimento de plataformas do tipo Airbnb. Se acrescentarmos às 107.000 habitações vazias, as 115.000 habitações listadas como segundas casas, é como se todas as habitações dos 16º e 17º bairros estivessem desocupadas! “, escreve ele.

A cidade de Paris reconhece assim que mais de 220.000 unidades habitacionais simplesmente “desapareceram” do parque, neutralizadas como estão por estratégias de investimento financeiro ou de alojamento turístico… Alguém ouviu durante esta campanha eleitoral compromissos para remediar o que é o primeiro escândalo em Paris?

Antoine Hauet: «Paris, para mim, acabou!»

Eu nasci na Picardia. Decidi mudar-me para Paris aos 17 anos de idade para os meus estudos. Fui imediatamente atirado para o fundo (eufemismo para um quarto de empregada de 8 metros quadrados). Vivi abaixo do limiar da pobreza durante anos e, assim que pude trabalhar e ganhar a vida, as coisas mudaram.

Mas Paris sufoca-te, Paris consome-te, desumaniza-te, é demasiado de demasiado…

Gostaríamos de dar a mão ao nosso próximo, só que há sempre demasiados.

Gostaríamos de demonstrar e gritar a nossa raiva, mas há demasiadas pessoas que se interpõem no caminho.

Vivi em Paris durante quinze anos, dez deles no 18º bairro, um bairro que adorava, amava e depois odiei.

Tenho de fazer um parêntesis sobre o quarteirão de Château-Rouge depois de lá ter vivido cinco anos. As coisas nunca mudaram, as comunidades permaneceram enraizadas no seu respetivo racismo (social, religioso, cultural). Vi a miséria humana, intelectual e social, a impotência das pessoas e os poderes para mudar as coisas.

No início pensei que eu próprio tinha de mudar, mas, desilusão após desilusão, resignei-me. Contra uma renda dez vezes superior à de qualquer outro lugar em França, cara lição, o meu rosto mudou, tal como as minhas opiniões, para meu grande desgosto, porque sempre defendi a igualdade dos homens.

Tenho sido censurado pelas minhas palavras por pessoas demasiado demagógicas, que vivem nos belos bairros e propagam a boa palavra, sobre o racismo e a imigração, sobre o comunitarismo ou anticomunitarismo, sobre as desigualdades entre homens e mulheres, sobre o que é aceitável ou não. A maioria destas pessoas nunca viveram essas coisas e só fala na terceira pessoa.

A desigualdade social foi o que me fez sair de Paris.

Será que nos compete a nós, parisienses, assumirmos nos nossos ombros todas as falhas das políticas sociais, toda a miséria imaginável, conviver com elas e fechar os olhos porque somos totalmente impotentes contra elas? Isso compete ao Governo, à Câmara Municipal, às autoridades.

O problema é que, com a Câmara Municipal de Paris, sentimos que o problema não é “deles”, mas nosso: “O senhor escolheu viver aqui, assuma”. Hoje, devido a estes anos, já não posso defender o carteirista de 13 anos no metro, já não aceito vendedores de cigarros sem dentes no Boulevard Barbès, já não consigo ouvir a multidão de sedas a gritar debaixo das janelas.

Para recuperar um pouco de humanidade e talvez alguns dos valores perdidos, fiz como Hidalgo, eu desloquei o problema. Hoje vivo na magnífica cidade de Vincennes, perto da mais bela floresta da região da Ile-de-France. Esta cidade permaneceu presa no tempo, algures entre 1955 e 1970. Respiro, vivo de novo, consigo ouvir-me a pensar de novo. Paris é uma bela cidade, mas vista de longe, quando se passa por ela. Como um museu, em suma.”

 

Façamos uma paragem no metro Front Populaire, a estação que abriu há oito anos no final da linha 12. Na fronteira de Saint-Denis e Aubervilliers (Seine-Saint-Denis), um novo bairro de La Plaine está a ser concluído. Campus Universitário Condorcet, escritórios, estúdios audiovisuais e habitação.

Marie Isa, 33 anos, mãe de uma criança pequena, funcionária dos impostos, tinha respondido ao nosso apelo a testemunhos a publicar na Mediapart. “Nasci e vivi durante vinte e cinco anos no 3º bairro, cinco anos no 18º bairro e quatro anos em Saint-Denis! Eu tenho um grande, grande desgosto contra Paris! “ela escreveu-nos.

O “seum” , aquela mistura de raiva e frustração que muitos dizem sentir quando deixam Paris, dissipa-se lentamente em Marie. Aqui em la Plaine ela é proprietária de um belo apartamento de 65 m2 pago a 3.000 euros por m2. “Há cinco anos, eu vivia em La Goutte d’Or, não queria comprar e depois percebi que se ficasse como inquilina poderia um dia ser despejada para longe, muito longe, porque as rendas também estão a explodir“, diz ela.

Marie conta o dilema do potencial comprador. “Podia ter comprado um grande estúdio num bairro de merda em Paris e depois alugá-lo na Airbnb para ajudar no pagamento do reembolso. Montreuil, Saint-Ouen, a mais de 6.500 euros por m2, isso para mim já acabou. Escolhi este bairro, estou interessada em chegar a um lugar que está a ser construído e que ainda precisa de ser feito“, diz.

La Plaine Saint-Denis é um vasto território situado entre o 18º bairro, Saint-Ouen, Saint-Denis e Aubervilliers. Famosa pelas suas garagens ilegais a céu aberto e pela sua grande pobreza, é também onde se concentra uma grande parte dos estúdios de televisão e das grandes produções televisivas. Jean-Fabien Leclanche

 

Agora é uma residente do 9-3, mesmo assim com metro, o que muda tudo quando se vive nos subúrbios, Marie diz estar contente com o que é quase uma mudança de universo. É claro que, neste novo bairro, que emergiu dos baldios industriais, há poucas lojas, os espaços culturais são muito distantes e não quase que não há movimento.

Levei uma grande bofetada na cara, mas hoje não quero saber de Paris. A cidade mudou demasiado. O que lamento é a Paris dos anos 90, hoje é triste… Eu adorava os museus, agora há demasiadas pessoas, é demasiado caro. Paris não nos quer. Mas em La Plaine, alguém que ganha o salário mínimo pode viver lá. Só espero que o bairro não se gentrifique de forma nojenta“, diz ela.

 

(continua)

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Narrativa: François Bonnet

Fotografias: Jean-Fabien Leclanche

Realização web: Donatien Huet

Imagem de capa: O projecto “Vive les Groues” em Nanterre, um terreno de 9.000 m2 que a estrutura Yes We Camp decidiu investir para o animar em torno de temas específicos da agricultura urbana e da ação artística.

 

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Nota:

As fotografias que acompanham esta reportagem são da autoria de Jean-Fabien Leclanche. Vive em Montreuil desde 1999 e já publicou dois livros sobre a cidade – o último, Chroniques de Montreuil, acaba de ser publicado pela Éditions de Juillet. Trabalha também há vários anos nos subúrbios de Paris.

Este relatório deve muito aos leitores da Mediapart que concordaram em responder ao meu pedido de testemunhos. Recebi muitas respostas e tive oportunidade de me encontrar com cerca de vinte pessoas. Agradeço-lhes muito e peço desculpa àqueles que não vão achar os seus comentários neste artigo que eu não poderia alongar demasiado (já é muito longo). Mas os nossos intercâmbios permitiram-me compreender melhor os problemas que a metrópole parisiense está a atravessar.

O debate e os testemunhos podem obviamente continuar no Mediapart Club. Não hesite, se for assinante, em publicar posts em blogs e, se não o for, em contactar-me.

Este longo formato deveria inicialmente ser publicado no dia 17 de março, um dia após a primeira volta das eleições municipais. Reunimo-nos pessoalmente com todas as pessoas citadas neste artigo em janeiro e fevereiro, antes do confinamento.

 

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O autor: François Bonnet, [1959 – ], jornalista da VSD, Libération (1986-1994) e Le Monde (1995-2006), onde é chefe de redacção do serviço internacional. Vice-director da Marianne em 2007, foi um dos fundadores da Mediapart em 2008.

 

 

 

 

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