CARTA DE BRAGA – “de fortunas e misérias” por António Oliveira

As grandes fortunas aproveitaram a ‘corrida’ às bolsas para aumentar a sua riqueza em cerca de 27,5%, entre os meses de Maio e Julho, até alcançarem um novo máximo de 10,2 bilhões de dólares, qualquer coisa como 8,7 bilhões de euros.

São números escandalosos quando por cá se fala em aumentar as reformas mais fracas em 10 euros, mas só a partir do próximo ano e se o orçamento for aprovado!

Mais acrescenta a notícia que entre 2018 e os primeiros sete meses de 2020, a riqueza dos milionários tecnológicos cresceu 42,5%, até 1,8 bilhões de dólares (1,5 bilhões em euros), ao mesmo tempo que os ricos do sector da saúde viram a riqueza aumentar 50,3%, até aos 658 milhões de dólares (560 milhões de euros)!

Não quero nem devo fazer qualquer sermão sobre estes números e respectivos sectores de actividade, mas a situação que estamos a viver e muitos milhões de pessoas a penar, leva-nos a reflectir sobre os modelos de economia e sociedades que estamos a ‘parir’, onde as desigualdades são crescentes e gritantes em todo o mundo.

Aliás, as últimas previsões económicas divulgadas pelo Banco Mundial, alertam para o dilacerante número de 150 milhões de pessoas que passarão a viver em situação de pobreza extrema.

É uma situação de miséria e fome que só poderá ser comparada à que foi originada pela segunda guerra mundial.

É conveniente salientar que mesmo antes do aparecimento desta pandemia, muitos dos países que não vão conseguir evitar o colapso que aí vem, ‘já tinham sérias dificuldades e consequências catastróficas pelos empréstimos usurários de entidades como o FMI e o mesmo Banco Mundial’.

A afirmação é do crítico e jornalista argentino Walter Medina, que acrescenta ‘O poder das entidades financeiras não passa de um palavreado soberano sobre planos de liquidação e «receitas» milagrosas dos organismos mundiais de crédito’.

Aparentemente, trumpboçalnaroboris, putin e quejandos, vão-nos afastando de uma qualquer solução válida para uma situação destas, mas acima de tudo, está o enorme poder financeiro referido por Medina e, como afirmou há poucas semanas Boaventura Sousa Santos, ‘nos últimos 40 anos, sobretudo depois da queda do muro de Berlim, deixámos de discutir os processos civilizatórios’.

E para o sociólogo, a esperança para os tempos vindouros não parece ser grande, ‘Os políticos destas gerações são todos mais do mesmo, não são capazes de pensar além do ciclo eleitoral, por melhores que sejam, e alguns são bons. Mas não pensam no que está para além dos quatro anos’.

De qualquer maneira, acreditando ainda em Daniel Innerarity, ‘Esta crise não é o fim do mundo, mas provavelmente será a de um mundo de certezas, onde nos sentíamos invulneráveis’.

Mas, atendendo a tudo o que ficou escrito atrás, até dá para terminar esta Carta com Charles Bukowski, poeta escritor e tudo, um homem ‘A sul de nenhum norte’, aliás título de uma das suas obras, ‘Há tanto para chorar na morte, como pelo desabrochar de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas a vida que se leva até morrermos’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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