AS UNIVERSIDADES DE HOJE E A CRISE PANDÉMICA, por JÚLIO MARQUES MOTA

 

Diz-nos o Jornal Público de 19 de outubro:

– depois de nos dizer  que o “contágio entre a comunidade no Norte [ sobretudo Universidade do Porto, Instituto Politécnico  do Porto e Universidade de Aveiro ]  é responsável pela maioria dos casos”, depois de nos dizer que há 197 estudantes Erasmus infetados:

-depois de nos dizer  “que pelo menos três festas  entre estudantes estrangeiros  [ estão ]  na base  deste surto”.

-depois de nos dizer que “o surto teve especial impacto entre a comunidade espanhola, que,  além de ser a mais representativa na generalidade das instituições nacionais, acaba por se relacionar  particularmente entre si, mesmo entre aqueles que não estiveram nesses convívios”

– depois de nos dizer   que “há ainda cinco instituições ( as universidades de Coimbra e dos Açores, os institutos politécnicos   de Viana do Castelo, Santarém e Setúbal) que não reportam nenhum caso de infeção  entre os seus alunos”.

Depois destas notícias em Coimbra circulam rumores de que há infetados em diversas faculdades, e,  como são rumores,  não as vamos citar, mas uma coisa é certa:  fecharam  serviços de prestação de cuidados de saúde,  como os serviços de saúde oral,   na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, por “suspeita” de alunos Erasmus infetados. Isto significa que a notícia do Publico ou deixou de ser verdadeira  um dia depois de publicada,  ou então dizer “não reportam”  não significa  dizer  não  registam mas, sim, significa não informam, o que é completamente diferente.

Tudo isto levanta uma questão mais profunda : o que é que leva as autoridades a manterem o programa Erasmus, sendo este é um programa europeu  de mobilidade estudantil, quando se vive uma  situação de pandemia? Porque não suspendê-lo temporariamente  este ano por efeitos da pandemia? Ora,  este programa é destinado a alunos, quaisquer que eles sejam e qualquer que seja o país onde estejam, que são muito mais propensos a formas de vida incompatíveis com as exigências sanitárias impostas pela pandemia do que os respetivos residentes nacionais. Destas formas de vida são um bom exemplo as festas e destas fala-nos   o  jornal O Público. Por razões obvias, estes estudantes estão sozinhos, sem família e muitas vezes com parcos recursos, quando todos nós somos animais sociais. Imagine-se o que é doloroso para um jovem  estar confinado ao seu quarto, por sua vez reduzido ao mínimo de conforto. Qual é então a utilidade de manter ativo este programa Erasmus?  Não me serve a resposta banal de que ninguém  adivinhava que por esta altura se verificaria uma segunda vaga. Os dramas do mês de agosto e setembro mostram o ridículo deste tipo de resposta. Do meu ponto de vista, o que isto representa, é a incompetência total das nossas autoridades ligadas ao ensino desde os diretores de faculdades aos Reitores das Universidades , desde o ministro do Ensino Superior e, porque não, até ao nosso Presidente da República que admite pôr em risco a mobilidades das famílias, o que é   próprio do Natal, quando ao mesmo tempo permite as mobilidades estudantis

Diz-nos o Diário de Coimbra, hoje mesmo:

“Covid-19: Hospitais de Coimbra suspendem atividades presenciais de alunos

O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) suspendeu temporariamente os estágios e atividades presenciais dos alunos universitários dos cursos das áreas da saúde por causa da pandemia da covid-19, foi hoje anunciado.

“Atendendo à evolução da pandemia, o CHUC decidiu adotar um conjunto de medidas para mitigar os riscos de contaminação”, refere o centro hospitalar, em comunicado enviado à agência Lusa.

Segundo a unidade hospitalar, estão suspensas a partir de hoje e por um período de 14 dias as atividades presenciais dos alunos do Mestrado Integrado em Medicina e Medicina Dentária, das Escolas Superiores de Enfermagem e das Escolas Superiores de Tecnologias da Saúde.

De acordo com o CHUC, “a circulação destes alunos, nos diversos polos do Centro Hospitalar implica, nesta fase, um risco de contágio para os doentes e para os profissionais com quem interagem no âmbito dos estágios clínicos, podendo comprometer a capacidade operacional das equipas”. Fim de citação.

Não custa a imaginar que o grosso destes estudantes de Mestrado sejam na sua maioria  estudantes originários de outras terras  que não Coimbra e a quem se aplica o que acabamos de dizer acima.

Vem tudo isto a propósito do texto abaixo publicado pelo Financial Times onde se fala dos diversos conceitos de  capital próprio como  arma de redução dos estragos da pandemia.

Entre estes diversos conceitos de capital, para além do capital dinheiro, estão os conceitos de capital cultural,  gostos, competências e qualificações, capital social, as redes de contacto social, amigos, família,  capital político, e capital de carreira.  Do “capital político”, queremos referir  o facto de algumas pessoas acumularem ligações com canais de poder, e o “capital social”, refere-se aqueles que dispõem de  redes de contactos úteis e/ou uma forte base de amigos e familiares. Há também o que se chama  “capital de carreira” que lhes oferece estabilidade de emprego.

No caso dos estudantes  no Programa Erasmus, esteja-se em Portugal, esteja-se na República Checa a tirar Medicina, o que talvez seja estranho em termos de utilidade quando comparado com o que se ensina em Medicina no nosso país[1],  esteja-se  em qualquer outro país, estes estudantes não têm nenhum dos tipos de capital acima citado, excluindo alguns com algum dinheiro mas em regime de pandemia e a cumprir as regras, compram mais o quê, para além do conforto de residência[2]?

Mas esta  ausência de “capital” outro que financeiro também atinge os estudantes nacionais a estudarem nas Universidades nacionais, embora globalmente se possam considerar menos desprotegidos que os estudantes do programa Erasmus. Uma informação atualizada sobre os alunos que vão “caindo” com o Covid, turma por turma,  faculdade por faculdade, parece-me importante, quer para os docentes quer para os alunos, porque pode levantar mais seriamente a questão dos assintomáticos. Não podemos esquecer que muitos deles, mesmo sabendo que são assintomáticos, o tenderão a “esquecer” e quando digo esquecer estou a ser muito  simpático para com eles. Poder-se-ia levantar mesmo a questão de testes por turma onde um dos seus alunos tenha caído por efeito de pandemia.  Tornaria tudo mais transparente e podia “rentabilizar” melhor os fragmentos de capital não financeiro de que dispõem os nossos estudantes  no sentido de se protegerem  melhor e deixarem mais descansadas as suas famílias.

Tudo isto  representa também algo mais: representa também o desrespeito pelo corpo docente que é colocado à margem da situação epidemiológica das suas respetivas Faculdades, pois tudo aponta para a lei do silêncio sobre o que individualmente se vai desenrolando em cada instituição. Atinge-se assim a ideia de segurança no trabalho que cada docente deve ter como garantida, como se atinge também a segurança das famílias ao terem os seus filhos na Universidade. A justificação que nos darão para este silêncio, se há em tudo isto um fundo de verdade,  conhecemo-la: é para não provocar alarme!

A esconder a realidade é que não[3] e se os rumores que circulam têm um fundo de verdade, e há fortes indícios que o indica,  deveria ser a equipa reitoral e os diretores de faculdade alinhados com esta a serem levados  ao tribunal da opinião pública ou será que esta também já caiu sob a violência do Covid 19?  .

Boa leitura.

Júlio Marques Mota

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[1] Por aqui poderíamos até discutir a razão de ser do programa Erasmus quando nem a língua do país para onde os estudantes se  deslocam eles aprendem. Ensina-se em inglês, muito vezes um inglês macarrónico como me dizia um amigo cuja filha teria andado em Lisboa na Universidade Nova. Mas essa discussão não é para aqui chamada.

[2] Um amigo meu com um filho a estudar em Itália, ao abrigo do Erasmus, reage a este texto dizendo:

“Bom dia Julio, neste caso discordo de ti. O programa Erasmus e muito importante e não deve ser interrompido.

A questão dos estudantes não é serem Erasmus, mas haver regras e assegurar o seu cumprimento. Outro aspeto e as residências de estudantes terem condições mínimas, para ficarem em casa, o que não acontece.

As regras da DGS, foram ou não cumpridas ? Estamos a dar condições aos estudantes deslocados, sejam eles portugueses ou de outros regiões europeias?

Sugerir que os culpados da pandemia são os que veem de fora e muito perigoso, e pode lar lugar a xenofobia.

Corremos riscos de regressão na ecologia política  cultural e civilizacional que superam os riscos sanitários”. Fim de citação.

Quanto à frase, o programa não deve ser temporariamente suspenso, nada me diz este meu amigo a justificar o seu NÃO.. Quanto  ao risco de  xenofobia, esconder a realidade em nome dos grandes princípios, com os quais todos nós concordamos, é tão criminoso como o silêncio das autoridades académicas sobre a pandemia. E a realidade é que, pelas suas circunstâncias  existenciais e culturais, os estudantes Erasmus  são um grupo de grande risco, de muito risco, esteja-se em que pais se estiver.

[3] Este texto circulou pelos meus amigos. Um deles respondeu-me dizendo o seguinte:

“Desta vez, não  concordo nada consigo, quando diz: “A justificação deste silêncio, se há em tudo isto um fundo de verdade,  conhecemo-la: é para não provocar alarme.”

Desde o início, fingem que vivemos uma época normal, apregoaram as “aulas presenciais”, sabendo que quando os estudantes universitários circulassem, circularia com eles o vírus (festas académicas, afluxo a Coimbra de estudantes de todo o país, da Europa, da China, do Brasil…), mas não desistiram da ideia. Como não desistem agora de fingir que está tudo normal, quando temos múltiplos indícios da disseminação do vírus pelas faculdades/ universidade. Já se previa que iria ser assim. Porque é que não evitaram esta situação? Porque é que, agora, não fecham  as Faculdades, para a protecção de todos?

Para não criar alarme? Era um dever cívico informarem-nos do que se está a passar, criar alarme, se preciso for, em prol da saúde pública, para que, cada um de nós, quando puser um pé na Faculdade, possa medir o risco.

A minha interpretação é outra. O Reitor teme perder a receita das propinas, quer dos estudantes nacionais que não viriam este ano estudar para Coimbra (conheço quem, com medo do Covid, tenha decidido suspender a inscrição no segundo ano do mestrado), quer, sobretudo, dos estudantes internacionais que pagam, em muitos casos, valores exorbitantes. O homem já perdeu a receita do turismo, não quer perder a receita das propinas. Então, vamos  lá fingir que não se passa nada!”

Concordo com a resposta desta minha  amiga de longa data mas sublinho que só me interessou na minha curta nota a questão epidemiológica e não o seu contraponto: o efeito da pandemia sobre o setor de bens e serviços não essenciais e a resposta patética ou criminosa das Instituições.  É tema que trato noutro lado.

 

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Those with capital are doing well through the pandemic, while those without are suffering

Covid: estamos na mesma tempestade mas não no mesmo barco

Os que têm capital estão a sair-se bem com a pandemia, enquanto os que o  não têm estão a sofrer

Gillian Tett

     

 © Shonagh Rae

 

Na semana passada estive a conversar com um amigo de infância a viver em Londres, Tony (agora autor e empresário), que disse estar preocupado com a forma como o Covid-19 estava a criar “os três Barcos” entre os seus conhecidos. Alguns tinham ficado desesperadamente “aborrecidos” depois de terem ficado na sua maioria prisioneiros  durante seis longos meses no seu ambiente doméstico. Outros estavam a enfrentar uma situação de  “esgotamento” porque tinham estado a trabalhar insanamente em plataformas digitais a céu aberto – por vezes combinadas com cuidados infantis.

Depois havia pessoas a lutar com um B: “breakdown-esgotamento severo” mais grave, desencadeado pelo tipo de depressão e ansiedade que pode ser desencadeada pela perda de emprego, dores financeiras, isolamento, stress na relação – ou um medo de que a pandemia não tenha um fim óbvio.

“Também há um quarto B”, assinalei eu com mais otimismo: para alguns, o bloqueio Covid-19 também produziu “bênçãos”. Utilizaram este período peculiar para construir relações mais estreitas com as suas famílias, desfrutar do tempo em locais bonitos ou saborear a liberdade de fazer o seu trabalho sem uma longa deslocação ou a maldição do jet lag permanente. Tony concordou que, por acaso, se encontrava nesse quarto campo. Por isso, até certo ponto, estou nesse último caso.

A crueldade amarga – terrível – do Covid-19 é que não só expôs as desigualdades existentes, mas também as está a exacerbar, aumentando a fortuna para uns e o infortúnio para outros. Há muitas maneiras de enquadrar a razão pela qual as pessoas estão a ter experiências tão diferentes. Mas suspeito que um conceito que merece muito mais debate gira em torno da questão do capital e de quem o possui.

Este é um tema que rebentou em público com uma vingança em 2013, quando o economista francês Thomas Piketty publicou Capital, o livro  mais vendido no século XXI. O livro transformou-o numa estrela académica e foi agora transformado num filme. (Spoiler: Sou entrevistado neste último, juntamente com a minha colega do Financial Times, Rana Foroohar).

Piketty define capital como “a soma total dos ativos não humanos que podem ser detidos e trocados em algum mercado” e argumenta que “quando a taxa de retorno do capital excede a taxa de crescimento da produção e do rendimento . . . o capitalismo gera automaticamente desigualdades arbitrárias e insustentáveis”.

Em muitos aspetos, foi precisamente isto que aconteceu nos últimos meses: qualquer pessoa que detenha ativos como ações viu o valor destes aumentar, devido às políticas monetárias super-ligadas dos bancos centrais. As pessoas sem ativos, pelo contrário, provavelmente viram a sua riqueza líquida murchar porque a recessão esmagou salários e empregos.

No entanto, como um antigo pensador francês, Pierre Bourdieu, argumentou nos anos 70, “capital” não precisa de ser visto apenas através da lente da economia. Bourdieu, por exemplo, ficou fascinado com a peculiaridade do capital cultural – tais como gostos, competências e qualificações (de uma educação dispendiosa, digamos), todos símbolos de poder social que enriquecem o seu detentor ao longo do tempo.

Depois há o “capital político”, ou o facto de algumas pessoas acumularem ligações com canais de poder, e o “capital social”, para aqueles que dispõem de  redes de contactos úteis e/ou uma forte base de amigos e familiares. Há também o que se chama  “capital de carreira”.

A crueldade do Covid-19 é que não só expôs as desigualdades existentes, mas também as está a exacerbar

Em termos práticos, estas diferentes formas de capital tendem a aumentar,  umas ligadas às outras ao longo do tempo. E tal como a Covid-19 está provavelmente a aumentar o poder do capital económico, está também a recompensar aqueles que têm outros tipos de capital.

As pessoas com forte capital social, digamos, tendem a ser mais resistentes ao confinamento, uma vez que gostam das pessoas com quem estão confinadas ou têm amizades e relações familiares tão próximas que estes laços podem ser mantidos (e mesmo reforçados) virtualmente.

As pessoas sem este capital social podem ter lutado com  mais dificuldades.

Da mesma forma, alguns dos que têm capital de carreira podem ter encontrado isto aumentado no confinamento, uma vez que as suas empresas precisavam deles mais do que antes. As pessoas que estão apenas a entrar na força de trabalho, sem capital de carreira ou intelectual, encontram-se numa posição radicalmente diferente. Assim,  também se passa o mesmo o que se pode chamar de capital emocional: dados da Fundação de Saúde Mental do Reino Unido mostram que qualquer pessoa que tenha iniciado a Covid-19 com problemas pré-existentes se saiu dramaticamente pior, em termos de saúde mental, do que qualquer outra pessoa.

Num relatório profundo  que detalha a profunda variação de humor entre as diferentes partes da população britânica nos últimos meses, a Fundação de Saúde Mental cita o ditado: “Estamos todos na mesma tempestade, mas não estamos todos no mesmo barco”.

O relatório diz: “[Existe] uma divergência na experiência das pessoas, dependendo do seu contexto social e/ou económico na sociedade … As diferenças no impacto na saúde mental irão persistir e provavelmente aumentar”. Ou, dito de outra forma, o ponto-chave sobre o capital é que este pode proporcionar resiliência num sentido económico, emocional, social e de carreira. Se o possuir, iniciou o Covid-19 numa situação dramaticamente melhor do que aqueles que não o possuem.

Não há maneira fácil de corrigir esta trágica desigualdade; o livro de Piketty (e o novo filme) deixa isso bem claro. Mas isso deve preocupar-nos a todos. De uma apertada perspetiva económica, o aumento da desigualdade em torno das nossas situações físicas e da saúde mental durante o Covid-19 é suscetível de arrastar a produtividade, como economistas como Nicholas Bloom de Stanford têm salientado.

De uma perspetiva política, é uma receita para um  corrosivo sentimento de amargura. E, de uma perspetiva moral, é simplesmente errado. Portanto, qualquer pessoa que tenha a sorte de ter capital hoje – de qualquer tipo – deve contar as suas bênçãos, lembrar-se daqueles que não o têm e depois perguntar a si próprio o seguinte: como posso partilhar o meu, pelo menos um pouco?

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https://www.ft.com/content/8691370f-f0b0-44cf-aa24-6cfd5d28676e

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