CARTA DE BRAGA – “Oderint dum metuant” por António Oliveira

Esta expressão latina de que tive de procurar a tradução exacta, quer dizer ‘que me detestem, contanto que me temam’.

Acho que deveria ser seguida de um ponto de exclamação e é uma expressão do poeta romano Lúcio Ácio, citada por Cícero, para referir todas as autoridades tirânicas e prepotentes, como Calígula.

Impossível não pensar na irrupção de pequenos Calígulas, à dimensão de cada país ou de cada região, em tempos em que cerca de três mil milhões de pessoas passam fome e há mais de sete mil milhões que levam um a vida sem sentido, lutando uns contra os outros, com um ódio e uma rivalidade enormes, a envenenar totalmente o planeta.

Estes números podem ser conferidos e, com toda a certeza agravados, numa consulta ao dr. Google, para podermos confirmar como estamos a desligar-nos da nossa essência humana, visando apenas a sobrevivência, fazendo de cada um de nós uma marioneta facilmente manipulável.

O medo passou a ser a parte mais importante de muitas vidas e, esta pandemia, veio mostrar como estamos prontos a abdicar de uma série de ‘pormenores’, todos essenciais até há pouco tempo e que, de um momento para o outro, passaram para as arcas da despensa, a juntar às vitualhas para tempos de apertos.

E até haverá ‘quem peça ajuda económica e financeira para os pobres do mundo, e algum gesto dos milionários. De uns e de outros será como cantar à lua!’, nas palavras do incontornável ex-presidente uruguaio Pepe Mujica.

Isto tudo a propósito da ‘vitória’ do trumpa nas eleições americanas. Ele já teve o que queria, ruas em chamas, lojas saqueadas, confrontos com a polícia, desordem para poder valorizar e impor a ordem e prisões, para se apresentar como o defensor da segurança e da liberdade.

A violência directa é, regra geral, uma reacção à ameaça de mudança. Quando um sistema está em crise, começa por romper as suas próprias regras’, nas palavras do filósofo Slavojv Zizek, que logo acrescenta ‘A dignidade é a resposta popular ao cinismo aberto dos que estão no poder’.

O que se passou nos states pelas palhaçadas do trumpa, antes, durante e depois do acto eleitoral, mostra bem a verdade desta afirmação e a que ponto desceu aquela que se dizia e a que chamavam a maior potência e democracia deste mundo.

Mas o sociólogo e filósofo americano Noam Chomsky é muito mais duro ‘Outras grandes democracias também estão ruindo, caindo nas mãos de líderes com traços fascistas, quando não assumidos ideologicamente fascistas mesmo (muitos, incluindo grandes estudiosos do fascismo, consideram esta caracterização de trump como muito caridosa)’.

À hora que escreve isto (15 hrs quinta feira) só se sabe que há fulanos armados na rua e não são do lado do Biden, que as impugnações começam a encharcar os tribunais e creio que vamos ter para mais uns meses!

E vejo a tal democracia (a maior deste mundo!) dependente dos humores de um loiro sem norte, irresponsável e inculto, que não sabe mais do que teclar no telemóvel, frases com meia dúzia de palavras, sem sentido e sem futuro.

Mas é esta a sua ‘vitória!’, porque ‘Oderint dum metuant’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

3 Comments

  1. Ao que parece o tal “do gostinho intragável” não ganhou as eleições. Fez tantas, umas pior que as outras, que os ianques – coisa rasca – não o reelegeram. Não sei se, na realidade, mostram detestá-lo mas, tudo leva a acreditar, que não dão mostras de teme-lo. Abraço do CLV.

  2. A verdade é que o tal loiro foi derrotado, mas tudo aquilo que ele representa continua, em plenos poderes até 20 de Janeiro. Uma situação extremamente perigosa para o vencedor das eleições.
    Ele teve uma votação também elevada, apenas a 4 milhões de Biden e têm armas mala entregues na rua e a extrema direita a seu lado! Os próximos meses vão ser decisivos, até para nós europeus!
    Abraço amigo
    A.O.

  3. Decisivos, sim. Em que sentido ? Quanto a mim, infelizmente, no da decadência política, social, cultural e económica que, tudo leva a acreditar, é aquela profetizada pela situação em curso nesta mundo Ocidental. A civilização – todas elas tiveram o seu tempo – está a deixar o Atlântico e a virar-se para o Pacifico. Gerir, com acerto, a retirada é um trabalho prioritário. É necessário – é imperioso – salvar aquilo de bom – e é muitíssimo – existe na Europa dos europeus e das suas Nacionalidades. Consegui-lo nunca será obra do IVº reich que, má sorte, o eixo germano/franco – com o seu malfadado imperialismo – conseguiu gerar e prossegue impositivo face aos europeus. CLV

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