CARTA DE BRAGA – “de músicos e músicas” por António Oliveira

Só para afastar as trumpadas, um pouco mais!

Não há muito tempo, o jovem e bem conhecido maestro Gustavo Dudamel, afirmou ‘O meu país tem uma riqueza imensa, mas há já algum tempo que se é de uma cor ou de outra! Isso faz que quase tudo caia na obscuridade!

Não é só por lá que se nota tal ‘cair na obscuridade’ pois, a diário, assistimos a um quase confronto entre posições diversas, raiando algumas as franjas do insulto, para se garantirem estatutos, seguindo os exemplos chegados lá de fora e, como bem definiu uma jornalista daqui ao lado, ‘Os idiotas estão a tomar o poder, são decisivos, sabem disso e presumem da sua forma de ser. Um fenómeno que não era muito frequente no mundo civilizado’.

Não podemos dizer que é necessário pôr de lado todas as nossas diferenças. Talvez seja melhor saber até de onde vêm, mas, para isso, é necessário voltar a dar importância às palavras, não aos gritos e às ofensas, mas assumir a humildade do entendimento.

O entendimento da ‘res publica’ e da política, onde se entrava para poder fazer alguma coisa com utilidade para todos, mas não entrar só para poder ser alguém, como agora se vai notando bem, deixando sempre a cultura à porta.

Talvez a banalização da educação e a desinformação pelo excesso das fontes, tenham contribuído, se calhar dramaticamente, para esta situação e, não raro, ouvimos dizer ‘é muito grande’ para se ler, ou ‘demora muito tempo’ quando é para ouvir.

Estamos transformados numa sociedade de fotos, tweets e títulos curtos, omissos nos assuntos, mas férteis nas chicanas políticas e outras mais de qualquer ordem, apenas para arregimentar clientelas fáceis. Só falta darem selos como nos supermercados, ou fotos de gente conhecida, para se encherem cadernetas de cromos!

O empobrecimento e a robotização da linguagem são consequência de uma sociedade utilitarista, com políticas desalinhadas nas matérias educativas e culturais. As nossas carência expressiva e necessidade de leitura, não são um acaso, mas reflectem a incúria, creio que propositada, nas programações escolares a todos os níveis.

Este problema vai criar muitos outros, até para o futuro, como li no blog ‘Xilre’, já no mês passado, ‘Como acederemos às nossas memórias, agora tão profusamente documentadas, dentro de trinta ou quarenta anos? Como as legaremos aos vindouros, uma conta e uma palavra-passe?

Tudo isto a partir de uma afirmação de Gustavo Dudamel, sobre a oposição das gentes que lança o seu país na obscuridade.

E tudo parece fácil de sanar pois, julgo ter sido Julio Cortazar que afirmou algures, ‘as pontes são a melhor metáfora do diálogo, porque nunca se apoiam num só lado’.

E o escritor americano Brett Easton Ellis explica isto bem ‘A vida digital encerra cada um de nós na sua borbulha de opinião. Não se consegue distinguir progressistas de autoritários; são igualmente rígidos e autoritários. Eu procuro pôr-me na pele do outro: hoje o meu radicalismo é buscar a moderação, a tolerância e a síntese’.

Boas palavras, mas temo encontrar alguém que me faça pensar o que teria levado o pessimista Emil Cioran a perguntar-se, ‘Por que retirar, abandonar a partida, quando ainda faltam tantos a quem decepcionar?

Mas tenho já um concerto de Beethoven para ouvir e, lá mais para diante, mais um outro de Mozart, por mim separados para esta tarde, até por o filósofo alemão Max Scheler ter garantido, no princípio do século passado, ‘Beethoven ajuda-nos a ser melhores pessoas e, escutando Mozart, também somos um pouco mais íntegros, mais dignos e mais bondosos

Não sei se estas personalidades, nomes da valia destes e com estas qualidades, terão algum valor para a utilitarista sociedade actual, mas como dizia Churchill, ‘Sou optimista pois não dá grande resultado ser outra coisa’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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