O SONHO AMERICANO: FAZER COM QUE AS FÁBRICAS VOLTEM PARA OS ESTADOS UNIDOS. – por MATTHEW C. KLEIN

The American Dream: Bringing Factories Back to the U.S., por Matthew C. Klein

Barron’s.com, 12 de Outubro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Dave Murray

 

Durante anos, os investidores aplaudiram enquanto as empresas americanas deslocalizavam a produção para o estrangeiro para reduzir os custos e aumentar as margens de lucro. Isso poderá em breve começar a mudar, com décadas de externalização  substituídas pelo regresso das fábricas à origem.

A escassez de equipamento de proteção pessoal e de outros itens essenciais durante as fases iniciais da pandemia constituiu um poderoso  sinal de que a obsessão dos gestores empresariais com a eficiência e a redução de custos à custa da diversificação e da resiliência tinha tornado a economia americana vulnerável. Um relatório do McKinsey Global Institute encontrou “180 produtos através das cadeias de valor para os quais um país representa 70% ou mais das exportações, criando o potencial para engarrafamentos”. Pior, muitos desses produtos provêm de uma China cada vez mais hostil, uma circunstância com profundas implicações de segurança nacional para os EUA e outras democracias. É por isso que tanto os democratas como os republicanos estão à procura de formas de reanimar a produção dos EUA.

Eles terão de trabalhar arduamente. Apesar do conflito comercial, do coronavírus, e do medo de uma nova guerra fria, um inquérito recente da Câmara de Comércio Americana em Xangai revelou que 71% dos fabricantes americanos não tinham planos para transferir a produção para fora da China, enquanto apenas 4% disseram que iriam transferir alguma para os EUA. Mais ainda, mesmo os que pensavam transferir alguma produção para fora da China planearam apenas mudanças em pequena escala, não alterações por grosso nas relações com fornecedores.

Empresas americanas investiram directamente cerca de 260 mil milhões de dólares em operações na China desde o início da década de 1990, segundo uma análise do grupo Rhodium. Recolocar noutro lado aqueles activos seria muito caro – especialmente se as novas propriedades, fábricas e equipamentos forem na América – e os custos de funcionamento muito mais altos, também. O pior cenário para os investidores será o de terem de suportar milhões de milhões de dólares de perdas à medida que as empresas forem vendo os ativos a depreciarem-se, sendo forçadas a realizar mais inventários, e a alterarem as operações de forma a reduzir as suas  margens.

A boa notícia é que o regresso das fábricas não tem de ser doloroso. As últimas décadas da globalização aproximaram os ciclos económicos e tornaram as empresas cada vez mais dependentes das vendas globais. Os investigadores do grupo de reflexão do Boston Consulting Group observam que isto é assim devido à existência  de correlações mais estreitas  dos ativos financeiros entre países, o que significa que o retorno das unidades fabris  poderia ajudar a diversificar as carteiras de ações internacionais e melhorar o compromisso risco/retorno para os investidores. Além disso, os investidores beneficiarão se o regresso dessas unidades  significar um renascimento a longo prazo na inovação e flexibilidade na produção. E os custos operacionais mais elevados poderiam ser compensados por receitas mais elevadas, quer isso seja através de salários mais elevados que conduzam a uma maior procura por parte dos consumidores, quer pelo apoio governamental, ou alguma combinação destas razões.

Mas  este retorno   não será bem sucedido sem compromissos a longo prazo de dinheiro, atenção  e capacidade técnica pela parte do governo federal. As empresas passaram décadas a desenvolver cadeias de abastecimento e práticas de aprovisionamento para reduzir os custos de modo a maximizar os retornos para os seus acionistas e a reduzir os preços para os consumidores, pelo que a única forma de alterar o seu comportamento é oferecer incentivos novos e radicalmente diferentes. “Made in America” não acontecerá em grande  escala, a menos que Washington o torne significativamente mais rentável do que as alternativas.

Alguns políticos parecem apreciar isto, o que explica porque é que o último lote de ideias dos Democratas e Republicanos – que por vezes estão a trabalhar em conjunto nestas questões – se refere a mudanças estruturais na economia dos Estados Unidos. Em 2019, Sens. Tammy Baldwin (D., Wis.) e Josh Hawley (R., Mo.) co-escreveram legislação para tornar a produção americana mais competitiva, baixando o valor do dólar, enquanto o Sen. Marco Rubio (R., Fla.) apelou a uma nova “política industrial” para encorajar o investimento empresarial nos EUA a contrariar o protecionismo chinês. Desde que a pandemia começou, a Sen. Elizabeth Warren (D., Mass.) e Rubio têm cooperado em projetos leis  para reduzir a “dependência excessiva” dos EUA em produtos farmacêuticos chineses.

Ambos os candidatos presidenciais querem fazer com que as fábricas regressem aos USA, mas as suas estratégias diferem. O democrata Joe Biden revelou um plano para aumentar a despesa federal em produtos fabricados nos EUA, apoiar a investigação e desenvolvimento, alterar o código fiscal para desencorajar a externalização  e colmatar as lacunas nas regras que já exigem que o Tio Sam “compre produtos americanos”.

“A economia americana é muito menos resistente a choques do que precisa de ser”, diz Jared Bernstein, um dos principais conselheiros económicos de Biden, ao Barron’s. “O abuso em série da política industrial estúpida” infligido por Washington esvaziou o sector industrial dos EUA, diz ele, e a América precisa de “internalizar  certas cadeias de abastecimento, tanto médicas como de defesa”. Uma área de particular preocupação é a “crescente quota-parte de aprovisionamento da defesa que provém da produção estrangeira”.

Esta última preocupação é partilhada pela administração Trump, que tem defendido a legalidade das suas tarifas, com base no facto de serem necessárias para proteger a “base industrial de defesa”. Mas onde Biden procura impulsionar os fabricantes da nação através de aquisições adicionais e subsídios à I&D, a abordagem preferida de Trump tem sido a redução dos impostos sobre as empresas e a desregulamentação para encorajar o investimento interno, com taxas sobre as importações para desencorajar a compra de bens produzidos no estrangeiro. O Pentágono também recomendou “investimento direto no nível inferior da base industrial…para resolver estrangulamentos críticos, apoiar fornecedores frágeis, e mitigar específicos pontos de falha”.

Ao mesmo tempo, Robert Lighthizer, o principal negociador comercial da administração, está a encorajar outros países a comprar mais produtos norte-americanos. O acordo mais substancial tem sido com o Canadá e o México, e é notável pela sua ênfase em normas laborais, requisitos de conteúdo local, e regulamentos ambientais. Também continha uma disposição invulgar que qualquer signatário que aceite “um acordo de comércio livre com um país não mercantil” – tal como a China – pode ser expulso do pacto norte-americano. George Magnus, o antigo economista-chefe de UBS e um perito sobre a China, disse ao Barron’s que isto  poderia tornar-se um modelo para futuros acordos que promovam o comércio, excluindo a China. (Lighthizer não respondeu aos pedidos de comentários).

Uma coisa que se perde de vista frequentemente no debate sobre a internalização  é que os E.U.A. continuam a ser uma superpotência industrial, produzindo mais de 6 milhões de milhões  de dólares de bens em 2019. O problema é que, embora as economias dos EUA e globais sejam muito maiores do que eram em 2000, o sector da indústria manufactureira  dos EUA não cresceu nada. A produção real e a capacidade produtiva têm estado estagnadas desde há duas décadas. Embora não seja surpreendente que a produção  de têxteis e vestuário com grande intensidade de mão-de-obra tenha sido relocalizada quase completamente em locais com salários baixos, como o Bangladesh, muitas indústrias tecnologicamente avançadas, incluindo metais, maquinaria e eletrónica, também diminuíram significativamente. A mudança maior foi no fabrico de produtos farmacêuticos e de medicamentos, na qual a produção caiu mais de 20% desde o pico em 2006.

 

O resultado final é que o crescimento da procura de produtos manufaturados tanto nos EUA como a nível global desde 2000 foi inteiramente satisfeito pelos produtores estrangeiros. As importações tomaram o lugar da produção americana enquanto as exportações americanas perderam quota  nos mercados estrangeiros – mesmo em sectores de alta tecnologia em que os americanos tinham sido pioneiros, tais como os semicondutores e a indústria aeroespacial.

Segundo uma análise da Coligação para uma América próspera – um grupo não partidário apoiado por sindicatos de trabalhadores, agricultores  e industriais – as importações do resto do mundo passaram de satisfazer 23% das necessidades fabris internas da América em 2002 para passarem a satisfazer 31% em 2019, com aumentos substancialmente maiores em sectores de alto valor acrescentado, tais como computadores, eletrónica, aparelhos, maquinaria e produtos farmacêuticos. Como resultado, os EUA importam agora cerca de mais $1 milhão de milhões o mais em bens manufaturados do que exportam anualmente, um défice equivalente a cerca de 4,5% do produto interno bruto.

 

Importações muito ampliadas à custa dos trabalhadores americanos porque as empresas externalizaram tanto a produção como  as despesas de capital associadas, – porque de outra forma teriam diminuído as margens de lucro –  para países com padrões laborais e ambientais mais baixos, subsídios maiores para as empresas, e moedas mais baratas do que o dólar americano sobrevalorizado. Se por vezes as empresas americanas abriam as suas próprias fábricas na China e noutros países de custos baixos, muitas vezes preferiam contratar o trabalho a terceiros. (Pense na Apple e na Foxconn, o fabricante de eletrónica que fabrica a maior parte dos iPhones, além de consolas de videojogos, computadores portáteis, e televisores para outras multinacionais).

Os lucros estrangeiros das multinacionais americanas aumentaram para  satisfação  dos acionistas – mas a estratégia teve  custos significativos. A moda da externalização  esvaziou o ecossistema americano de fornecedores, investigadores e trabalhadores qualificados. As fábricas que restam são altamente especializadas e dependentes de fornecedores externos e de equipamento de capital. Isto teve consequências para o emprego, dinamismo económico, e segurança nacional.

 

“O que falta é a capacidade de rodar” para responder a mudanças súbitas na procura, disse Erica Fuchs, professora de engenharia e política pública na Carnegie Mellon, em recente testemunho ao Congresso. Os americanos enfrentaram escassez de máscaras e ventiladores nos primeiros meses da pandemia, em parte porque as empresas de fornecimento de material médico não tinham “técnicos e operadores com o know-how” nos EUA para se adaptarem às circunstâncias em mudança.

Em contraste, as fábricas chinesas habituadas a fazer uma vasta gama de produtos para clientes multinacionais poderiam adaptar-se rapidamente a redirecionar a produção, diz ela à Barron’s.

O progresso tecnológico provém muitas vezes de retoques e pequenas transformações sobre técnicas já em utilização e da experimentação, o que é mais difícil de fazer se a investigação, a produção e o design não estiverem todos no mesmo sítio. Fuchs, juntamente com os colegas Chia-Hsuan Yang e Rebecca Nugent, descobriram que as empresas que podem cortar custos através da deslocalização para países com salários mais baixos enfrentam menos incentivos para inovar.

Isto pode ter contribuído para o acentuado abrandamento da produtividade nos EUA desde meados dos anos 2000. Da mesma forma, os economistas David Autor, David Dorn, Gordon H. Hanson, Gary Pisano e Pian Shu descobriram que os fabricantes americanos que não produziam em regime de externalização da sua produção  responderam à concorrência das importações chinesas baratas cortando as suas despesas de investigação e desenvolvimento.

Este é um problema mesmo no coração da economia americana de alta tecnologia – e é uma ameaça a longo prazo para os investidores. Embora o Silicon Valley seja agora conhecido pelo software, originalmente prosperou como um centro de fabrico que apoiava a investigação científica fundamental em física, eletrónica, e ciência dos materiais.

Muitas das principais empresas mundiais de hardware eletrónico ainda estão sediadas em Silicon Valley, mas a maioria já não fabrica lá nada.

Considere o que isto significou para a Intel (ticker: INTC). Enquanto a Intel ainda fabrica os chips que desenha, ficou atrás de rivais como a Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC) e a Samsung Electronics (05930.Korea) no fabrico. Desde o início de 2004, as ações da TSMC deram de ganho  quase 1.000%; as da Samsung deram ganhos mais de 400%; e as da Intel subiram menos de 100%.

Hassan Khan, que se concentrou na indústria de semicondutores e de eletrónica avançada quando era consultor na McKinsey, diz que a TSMC e a Samsung têm uma vantagem, em parte porque têm prática na fabricação de chips para uma grande variedade de clientes com diferentes designs e preferências.

Em contraste, a Intel está verticalmente integrada e fabrica chips apenas para si própria. Isto torna as duas grandes empresas estrangeiras mais flexíveis e inovadoras do que a Intel quando se trata de técnicas de produção, o que recentemente levantou a possibilidade de transferir pelo menos alguma produção para fabricantes contratados.

Existe um precedente histórico dos fabricantes verticalmente integrados serem deixados para trás pelo mercado: Um destino semelhante aconteceu à IBM, outrora líder mundial no processamento de silício, observa Khan. Uma solução é concentrar-se na conceção à custa da produção. Em 2009, a Advanced Micro Devices (AMD) transformou o seu braço de fabrico na GlobalFoundries. Isso tem sido ótimo para o título da AMD, mas menos bom para a capacidade dos americanos de fazer os chips mais sofisticados.

A reconstrução do ecossistema de alta tecnologia da América é exequível, mas pode levar décadas. O economista da Brookings Institution, Geoffrey Gertz, observa que a ascensão da China como potência de produção foi o resultado de “um impulso intencional de décadas por parte do governo chinês”, e que um compromisso comparável seria necessário para restaurar o que foi perdido nos EUA.

O ecossistema de produção da China desenvolveu-se com a ajuda de investimentos em infraestruturas específicas, subsídios generosos para as empresas, regras de aquisição que favoreceram as empresas “indígenas”, e a gestão da  concorrência.

Tudo isto poderia fazer parte de uma estratégia americana a longo prazo, caso os eleitores decidam que vale a pena. (O roubo de tecnologia patrocinado pelo Estado, a supressão dos direitos dos trabalhadores, e regulamentos ambientais laxistas provavelmente não fariam parte desta estratégia).

Na indústria farmacêutica crucial, a externalização da produção  foi impulsionada menos pela intervenção sustentada do governo do que por falhas no código fiscal dos EUA. A taxa de imposto sobre as sociedades nos EUA deixou efetivamente de se aplicar aos lucros obtidos pelas filiais estrangeiras de empresas americanas no final dos anos 90.

Isto levou a esforços cada vez mais agressivos para transferir os lucros para  paraísos fiscais, especialmente após o feriado fiscal para as empresas de 2005. A boa notícia é que a correção dessas falhas poderia conduzir rapidamente a um ressurgimento da produção farmacêutica nos EUA, embora os investidores tivessem efetivamente de aceitar taxas de imposto sobre as sociedades mais elevadas  para as empresas farmacêuticas.

Inventar novos medicamentos e descobrir como produzi-los é caro, mas uma vez feito isso, não é assim tão difícil fabricá-los à escala. Isso torna relativamente fácil para as empresas farmacêuticas transferir os seus lucros para jurisdições com impostos baixos.

“Muitas empresas farmacêuticas realizam a maior parte da sua investigação e desenvolvimento nos Estados Unidos, mas depois procuram minimizar a sua carga fiscal transferindo a sua propriedade intelectual para locais como as Bermudas e produzindo os seus medicamentos em mais uma jurisdição de baixos impostos como a Irlanda”, testemunhou recentemente Brad Setser do Council on Foreign Relations.

“Os produtos resultantes são depois importados de volta para os Estados Unidos, onde normalmente são vendidos a um preço mais elevado do que no resto do mundo”.

Este comportamento foi exacerbado  pela Tax Cuts and Jobs Act de 2017, que penalizava   as empresas americanas por terem deslocalizado   ativos intangíveis no estrangeiro, a menos que também aí aumentassem os seus ativos físicos.

O resultado perverso, explica Setser, foi que uma empresa “baixaria automaticamente o seu imposto calculado nos EUA se construísse uma fábrica na Irlanda”, enquanto que “uma empresa que reduzisse os seus ativos tangíveis nos EUA, licenciando a sua propriedade intelectual a uma subsidiária externalizada  que abastece mercados globais a partir de uma fábrica no estrangeiro, teria uma taxa de imposto mais baixa do que uma empresa que mantém a sua fábrica nos Estados Unidos”.

Os resultados podem ser vistos nos dados. Após um aumento constante durante décadas, a produção americana de produtos farmacêuticos e medicamentos atingiu um pico no final de 2006, tendo desde então diminuído mais de 20%.

Durante esse mesmo período, as importações reais mais do que duplicaram. Muito do crescimento das importações de produtos farmacêuticos e medicamentos desde então pode ser atribuído às empresas em  paraísos fiscais  como a Bélgica, Irlanda, Holanda, Singapura, e Suíça. Desde o final de 2016, 70% do crescimento das importações americanas de produtos farmacêuticos e de medicamentos por valor em dólares provém destes paraísos fiscais.

Trazer a produção de volta à América não é impossível por nenhum meio – especialmente nos sectores de capital intensivo, tais como a eletrónica e os produtos farmacêuticos. Pode mesmo beneficiar os investidores, pelo menos em certas indústrias.

O sucesso dependerá da vontade dos americanos de se comprometerem com uma estratégia a longo prazo e da vontade dos investidores de pagarem os custos.

A experiência dos últimos anos sugere que a retórica sem grandes mudanças políticas não fará muito, de uma forma ou de outra.

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The American Dream: Bringing Factories Back to the U.S. | Barron’s

 

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