FRATERNIZAR – Entre 1961-1962 e 2020 – E TUDO O VENTO LEVOU, OU, EM MIM, TUDO O VENTO FEZ NOVO? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Quando no domingo 22, o penúltimo deste mês de novembro, abro o Fb, sou surpreendido com a transmissão em directo da chamada missa da Solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo, na diocese do Porto, que inclui a ordenação de 4 + 1 novos diáconos a caminho do Presbiterado. Ao contrário do habitual, a celebração não se realiza na sé catedral, sim na igreja do Seminário Maior, dita de ‘São Lourenço’. Mas sem dispensar a pompa e a circunstância da corte episcopal dos anos anteriores sem pandemia Covid-19. Toda ela constituída por um numeroso grupo de figurantes clérigos ou paraclérigos e um cerimonial de se lhe tirar o chapéu. O bispo apresenta-se de báculo na mão e mitra na cabeça, precedido dos respectivos bispos auxiliares, de mitra na cabeça, mas sem o báculo do Poder, dependentes que são do titular. Como se vê, uma pálida réplica da alucinada corte imperial no céu, onde o mítico cristo rei e senhor do universo – no litúrgico dizer do Missal romano – reina, vence e impera sobre todos os povos da terra, via papa de Roma e demais chefes de Estado ou de Governo!!!

Dou-me conta, logo ao abrir, que o ritual está ainda no começo. Por isso desligo e prossigo com a minha actividade de presbítero-jornalista daquele dia. Com o firme propósito de, mais tarde, regressar ao registo completo do evento que durou 1h25m. E qual não é então o meu espanto, quando, de repente, me vejo a viajar para trás no tempo até aos anos 1961 e 1962, quando eu próprio sou ordenado respectivamente, diácono e presbítero por D. Florentino de Andrade e Silva. O meu desconforto é total, ao confirmar que em 2020 tudo é exactamente como em 1961-1962. O que faz rebentar de imediato dentro de mim, a Pergunta, E tudo o Vento levou, ou, em mim, tudo o Vento fez Novo?

Reconheço com alegria que em mim, tudo o Vento fez novo e continua a fazer, já que vivo à sua escuta e atento aos sinais dos tempos. Já no Institucional religioso-cristão-eclesiástico – com lágrimas o escrevo e digo – e dentro do qual tive de viver confinadíssimo durante 12 sinistros anos do seminário de Trento, condição então indispensável para poder ser ordenado Presbítero, chamado que sou desde o ventre de minha mãe, Ti Maria do Grilo, jornaleira, mantém-se tudo tal e qual. Sinal inequívoco de que nele não há nada de Humano, nem de organismo vivo ou de Respirar. O que explica que quantos lhe dão o seu tempo e as suas vidas acabam como ele, grosso betão armado à prova de todos os abalos sísmicos. Robôs que apenas reproduzem aquilo para que foram programados pelas universidades que os formaram/formataram.

Comigo, felizmente, isso não acontece, porque já nesse então percebo bem que a minha vocação e ordenação são de serviço maiêutico aos seres humanos e aos povos (= diácono) e de Evangelizar-Libertar-Resgatar os pobres e os povos (= Presbítero, não Sacerdote), num contínuo viver entre eles e com eles, ao modo das parteiras junto das mulheres que estão para dar à luz. Sem quaisquer regalias ou privilégios. Longe dos templos e dos altares, inteiramente secular como Jesus histórico, o filho de Maria. Nada de Poder, nada de vencer, nada de mandar, nada de dominar, nada de Ter, nada de Acumular, nada de sacerdotal. Sempre no mundo, sem nunca ser do mundo. Conduzido interiormente pelo Vento, ou Sopro/Respirar, cuja matriz original é o feminino hebraico Ruah, o de Jesus histórico, nos antípodas do mítico Cristo da Solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo do Calendário litúrgico. Uma barbaridade sem nome e sem perdão.

Felizmente, para mim e para a Humanidade que integro, o Institucional eclesiástico – não confundir com Igreja-movimento de Jesus histórico – que volto a ver neste video-gravado ficou lá, em 1961 e 1962. Dele saio com a naturalidade com que a borboleta sai do casulo e com a naturalidade com que eu próprio saio do útero materno. E, como num relâmpago, vejo a múmia que hoje seria, se tenho ficado para sempre dentro dele, como todos aqueles clérigos que continuam a dar corpo à corte imperial do Vaticano, à corte episcopal de cada diocese e à corte paroquial de cada paróquia. Felizmente, cresço, desde então, de dentro para fora, num viver histórico à intempérie, feito de sucessivos big-bangs, ou explosões que sempre iniciam novos começos. Mas ai de quantos continuam amarrados a ele e a servi-lo com zelo suicida. E de quantos, elas e eles, insistem em procurar pão junto deles, quando deles só recebem pedras, travestidas de hóstias de farinha de trigo sem fermento mas com glúten, e toscos ritos litúrgicos teatrais, sempre os mesmos.

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