CARTA DE BRAGA – “de teclas e passados” por António Oliveira

A propósito destes tempos de digitalizações no trabalho, ensino e demais domínios, tenho reparado que, em qualquer lado onde haja um portátil aberto, tem também à frente e sempre, alguém a bater nas teclas com enorme gentileza, um tocar, mais que um bater e que, para meu espanto, até quase nem se ouve!

Para mim isso é como se fosse uma impossibilidade técnica, por ainda tratar o teclado do portátil com a mesma ‘gentileza’ com que batia no de teclas redondas, bem alinhadas em cima de uns pedúnculos de metal, através dos quais até se via o tampo da secretária.

Uma Underwood preta, de patilha equipada com campainha de tilintar ao mudar de linha, instalada ao alcance da mão esquerda, as pequenas bobines para a fita de duas cores, preto e vermelho, quase sem se verem atrás da barra que as segurava, onde se apoiava também a parafernália para manter alinhada a fita para a escrita, em cima dos terminais das teclas, ali em semicírculo.

Esta Carta fará sorrir todas as pessoas que, como eu, foram criadas nos livros e tiveram de treinar os indicadores para acertar bem nas letras de um teclado AZERTY ou QWERTY, diferentes do HCESAR que as máquinas de escrever nacionais ou cá vendidas, eram ‘obrigadas’ a usar.

E, por tudo isto, tenho pena das teclas do meu portátil, por raramente me lembrar que não têm os pedúnculos das teclas da Underwood e nem preciso de lhes ‘bater’ com tanta força.

Às vezes olho as pessoas e as memórias com um pouco de nostalgia, sem me lembrar, como li há tempos no ‘Xilre’, um dos blogs que visito diariamente, ‘Nostalgia é a incapacidade de reconhecer que o presente e é o resultado das tentativas de superar imperfeições do passado’.

Mas há imperfeições muito difíceis de superar, como a lembrança da corrente da ribeira ou do rio para onde saltávamos despreocupados por não haver piscina e por não existir a bodeguice que hoje vemos num regato qualquer, ou como lembrar as maçãs surripiadas sem ainda as terem engraxado, ou reviver o cheiro do pão quente e fresco, ‘apanhado’ de madrugada à porta traseira da padaria.

As coisas nunca acontecem exactamente como as imaginávamos e a vida acaba sempre por termos de usar uns descontentes ‘menos mal!’, ou ainda aqueles também tristes ‘podia ser bem pior!’.

Há já umas semanas e numa viagem de combóio, reparei numa rapariga a tocar as teclas do portátil com uma delicadeza para mim completamente inalcançável, (não consigo esquecer as teclas com pedúnculos da Underwood!), pois os ideais não se concebem para serem alcançados, mas para nos guiarem nos trilhos da existência.

Não há muito tempo a holandesa Joke Hermsen, especialista em Hannah Arendt, dizia ao ‘El País’, ‘Uma das causas da nossa melancolia é a saudade da infância, por ainda não termos desenvolvido a linguagem’, ou seja, aprendido a maneira de poder interpretar e mesmo interpelar o mundo.

Na verdade, esta afirmação da filósofa holandesa até parece completar uma outra do russo Anton Tchekhov, ‘Onde não estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado e, então, ele parece-nos belíssimo’.

Talvez por a linguagem ser agora só a teclada, mas era belíssimo, mesmo por já nem haver quase ninguém a querer saber dele, do passado!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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