

Lembro-me de que era um senhor já antigo, bem direito debaixo de um chapéu de fita acastanhada, nariz encavalitado por cima do queixo puxado para a frente pela falta de dentes, copo na mão, braço apoiado no balcão da taberna onde eu tinha ido parar, na companhia de outro senhor quase igual, no jeito e na idade, depois de termos uma conversa bem longa sobre as dificuldades daquela altura.
Estavam por lá, naquela taberna de portas pequenas para empurrar, comuns numa aldeia daquele tempo, algumas pessoas sentadas e a petiscar, para quem o tal senhor já antigo devia ter estado a falar, por bem se ouvir o vozeirão no lado de fora e que, pela farpela delas e deles, não seria gente daquela região.
– ‘Ainda bem que chegaste! Precisava de ti para contar esta história a alguma desta gente, que nem nos conhece bem!
– Atão diz lá!
– Lembras-te quando o morgado trouxe aqui, aquele político que devia ser igual a ele? Aquele que vinha cheio de dinheiro?
– Lembro-me muito bem! Mas conta tu! Foste o herói da tarde!’
Ele bebeu mais um gole do ‘meio quartilho’ que tinha na mão e contou, misturando o calão com a linguagem de todos os dias, como o tal político e o morgado ali tinham chegado, quando havia comícios quase todos os dias, para defender um ‘truta’ dos grandes, lá de Lisboa.
E quando pararam, já era final do dia, e com os trabalhadores que estavam a chegar dos campos mais os desempregados que já eram bastantes naquele tempo, não tardaram a juntar uma data de homens para ouvirem o que diziam.
E, a dada altura, a aviso do morgado, o político, para aproveitar a presença dos mais necessitados que eram todos, mete as mãos nos bolsos da samarra e atira uma mancheia de moedas para o meio da gente.
– ‘Foi como se dera um sopapo! Saltei para o meio daquela gente, arrebanhei as moedas do chão e atirei-lhas outra vez! Olhou para mim admirado e atão gritei «na minha fome mando eu, não preciso de ninguém de Lisboa!
– Haviam de ver as caras do morgado e do outro!
– É verdade! E atão virei-me para o pessoal e «vamos embora, gente»!
– E os dois ao verem-se abandonados, também se meteram no Mercedes e foram para outra freguesia, por esta não ter rendido nada!’
Não sei porquê, mas lembrei-me desta cena, já lá vão muitos anos, passada numa das muitas aldeias por onde passei em trabalho, mas onde também ouvi e guardei muitas das estórias que aqui vou deixando, tentando respeitar os diálogos o melhor possível, amparado no respeito que as pessoas me mereceram e merecem.
E lembro-me, se calhar a propósito, de ter lido algures, mas já nem sei, onde ‘O que faz de nós o melhor país do mundo é o nosso povo, mas nem as instituições nem as leis estão à sua altura’.
Mas sei também que, como diria Sartre, ‘O ser humano está condenado a ser livre e a liberdade reside em escolher e aceitar as consequências dos seus actos e, mesmo sem valores que ajudem a escolher, não tem como evitar a escolha’.
E Ayn Rand, a escritora e filósofa norte-americana salientou também, mais de uma vez, a importância do «ego», pois ‘Nenhuma lei nem nenhum partido poderá matar jamais isso, num homem que sabe dizer «eu»’.
Bom Ano com muitas estórias de gente simples, sem se importar com imagens!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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Texto claro,com autenticidade e sgnificativo
Obrigado, Amigo!
Nem sempre sai assim, mas vou tentando
AO
QUE MARAVILHA!Com sabor à época nas descrições dos lugares, dos hábitos e dos linguajares tão nossos!Somos de têmpera, quer dizer, ainda há quem seja…Será que vão desaparecendo como os “quartilhos”?
Obrigada, meu amigo, por me levares no tempo , com esta linguagem tão pura, tão genuína, na sua coloquialidade…Beijo para vós!
Obrigado, muito obrigado por este comentário!
A memória da gente que é a minha gente, não se apaga facilmente e vou-a deixando aqui, espero que
para consolo de muita outra igual a nós!
Abreijos
A.O.