São já este domingo as eleições presidenciais 2021 e sete os candidatos. Qual deles o mais estranho para os povos que dão corpo a este país plantado à beira-mar, cada vez mais muro do que ponte para o resto do mundo, e cada vez mais reservatório de lixo, de plástico e até de máscaras cirúrgicas, do que berço de vida na sua variadíssima quantidade e qualidade de peixes. A prova provada de todo o oportunismo político dos membros dos sucessivos órgãos de soberania, com destaque para a Presidência da República, Assembleia da República, Governo, Tribunais e Chefias militares terra, mar e ar.
Nem depois da Revolução Francesa e do Concílio Vaticano II, os povos das nações e das igrejas-religiões dão sinais de quererem crescer de dentro para fora em autonomia e liberdade. Pelo contrário, é manifesta a crescente fobia pela política praticada, por parte deles e até das novas gerações. Violentamente cercados e atacados, eles e elas, sobretudo elas, por enxurradas de futilidades disparadas por sofisticadas máquinas portáteis, criadas e vendidas pelas grandes multinacionais, cada vez mais ricas, poderosas e assassinas da nossa autonomia e da nossa liberdade. Às quais se veio juntar, para gáudio delas, a pandemia covid-19, com a macabra informação ao minuto ou ao segundo do número de mortos por dia, de infectados, de internados nos hospitais a rebentar pelas costuras e nas unidades de cuidados intensivos.
O mais trágico é que já começa a ser tarde para revertermos a situação, hoje global. Porque, na voragem dos dias e na vertigem da velocidade a que tudo isto está a acontecer no planeta, os povos são cada vez mais sem vez e sem voz. Reduzidos a compulsivos consumidores de todo o tipo de produtos não-essenciais. Quando, como filhas, filhos de mulher que simplesmente querem crescer de dentro para fora e gerir os seus destinos e os do planeta, cumpre-nos viver apenas com o Essencial que – sabemo-lo bem – nem sequer se encontra no Mercado, sim na Terra, nossa Casa-e-Mesa comum.
Dos estranhos, nem bons ventos nem bons pensamentos. Menos ainda boas práticas políticas. Se, mesmo assim, insistimos em confiar-lhes os nossos destinos, depois não nos queixemos. Todos os estranhos sem excepção são mercenários. É da sua natureza. Mesmo que se mascarem de ‘próximos’ e de ´gente de bem’, são todos compulsivos ladrões e assassinos dos povos. De modo cada vez menos cruento, por isso, ainda mais perigosos do que os velhos tiranos e os ditadores do passado recente, de má memória.
Só sairemos deste mundo-cão, se, como meninas, meninos, resistirmos a todas as seduções do Poder. E nos decidimos a viver só com o Essencial. Quantas, quantos de nós já o fazemos, crescemos de dia para dia de dentro para fora em idade, estatura, sabedoria, alegria e entrega recíproca uns aos outros. Quantas, quantos, pelo contrário, optam por atolar-se de coisas supérfluas, criam tantas e tais dependências que se sentem cada vez mais impotentes para se assumirem e aos seus destinos. E, quais baratas tontas, correm a entregar a sua gestão a estranhos. E é o que se vê, neste Ocidente de raízes cristãs, por isso, estranhas à nossa matriz, cada vez mais doente e irrelevante.
Neste domingo 24, em Portugal, há sete estranhos candidatos reconhecidos não por nós, mas por um outro estranho ainda maior do que eles, chamado Tribunal Constitucional. Do muito tempo de antena de que todos usufruíram, nenhum deles nos lançou o desafio – nem podia – a crescermos de dentro para fora, até gerirmos os nossos destinos. Pelo contrário, todos se nos apresentaram como ladrões da nossa autonomia, da nossa liberdade e da nossa capacidade de gerir os nossos destinos. Uma capacidade que só quem vive com o Essencial e sem estranhos em casa, é capaz de ter e de fazer crescer de dentro para fora. Por isso, não se surpreendam se as urnas de voto deste domingo 24 forem, no dia seguinte, urnas funerárias que levam a cremar-sepultar a nossa capacidade política de gerirmos os nossos destinos e os da Terra.
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