Se a mais repetida palavra de ordem da Pandemia Covid-19 e dos governos das nações é, Fiquem em Casa, faz todo o sentido a pergunta, A fazer o quê? Se o confinamento fosse opcional e responsável, a Casa onde ficamos confinados seria, indubitavelmente, um espaço de fecundidade e de criatividade. Porque um espaço saudavelmente envolvido pela musicalidade do Silêncio e a correspondente escuta do Essencial. Como não é opcional nem responsável, antes imposto pelo Estado de Emergência e sob ameaça de pesadas multas, a Casa onde ficamos confinados acaba convertida num espaço a abarrotar de ruídos de tvs ligadas dia e noite, tlms, computadores, nervos, palavrões, insultos, encontrões, estresse e depressões sem conta. À mistura com exagerado consumo de bebidas alcoólicas. Numa palavra, todo aquele caldo de ingredientes que a pandemia mais aprecia para se propagar sobre a Terra.
Neste contexto de pandemia e de confinamento compulsivo, a Ciência é cada vez mais olhada como a grande tábua de salvação. Há, inclusive, quem ache que estes dias são de celebração da Ciência, porque, em menos de um ano conseguiu, pela primeira vez na História, uma vacina anti-covid 19 e respectivas variantes. Por mim, sou mais prudente e comedido, porque não posso esquecer que a Ciência tem como seus principais protagonistas os cientistas, todos filhos de mulher por nascimento, mas que, de um momento para o outro, podem tornar-se filhos do Poder. E quando assim é, colocam-se, a troco de benesses, ao incondicional serviço dos Grandes Interesses Financeiros, também os da área da ‘saúde’, digam-se nacionais ou privados. Dói ter de o reconhecer, mas a gratuitidade é uma postura de vida que a Ciência e os cientistas, filhos do Poder, desconhecem, de todo. Até como mero conceito!
Sou um acérrimo defensor da Ciência, mas sem nunca deixar de ser eticamente exigente com os cientistas. A História grita-nos que os grandes crimes contra a Humanidade e contra a própria Terra, nossa mãe-e-casa comum, tiveram-têm o decisivo contributo de cientistas. Alguns deles, prémios Nobel. A própria Economia, etimologicamente, ciência do cuidado da casa, a familiar e a comum que é a Terra, tem sido até agora quase só uma Economia-que-mata os povos e a Terra. E antes de matar, envenena e adoece os seres humanos e os povos das nações. Para cúmulo, ainda tem a dar-lhe cobertura moral uma Teologia, cujo deus é todo-poderoso e, por isso, Aquilo que depois de nos matar o corpo, também nos mata a alma e, deste modo, reduz-nos a robôs.
É indiscutível que este é o milénio da Ciência. Por isso, também dos cientistas. O facto, só por si, não dá garantias de que venha a ser o mais Humano de todos os milénios que nos precederam. Não me confesso, como muitos de nós, crente na Ciência, como, de resto, Presbítero-Jornalista que sou, me não confesso crente em deus. E devo dizer que fico sempre de pé atrás, quando alguém nos fala muito em deus. Dá-me vómitos ouvir certos pastores e fiéis de igrejas encher suas bocas com deus p’ra cima, deus p’ra baixo. Quando assim é, adianto-me e pergunto, Mas de que deus é que estás-estais a falar? A pergunta vale tanto para crentes religiosos, como para ateus de raízes cristãs e católicas como são os ateus de hoje.
Por mim, aprendiz de discípulo de Jesus histórico, digo-me assim, Creio Deus que nunca ninguém viu e me/nos habita em permanência e potencia de dentro para fora até sermos livres e autónomos, capazes de gerir os nossos destinos, os destinos uns dos outros e do planeta-cosmos, como se Ele não existisse. E à Ciência e aos cientistas, sempre pergunto, Ao serviço de quê e de quem colocais todas as vossas capacidades? Uma coisa eu sei e é da História: A Ciência e os cientistas, quando contratados como assessores dos agentes de turno que comandam o mundo levam-no, inevitavelmente à sua progressiva destruição. E uma outra coisa eu sei também. Apenas uns escassos 100 segundos nos separam do inferno nuclear à escala global.
Concluo, pois, esta minha reflexão como confinado opcional e responsável em casa, com esta declaração solene e com tudo de imperativo ético: Cabe à Sabedoria, filha da Fragilidade humana, própria dos filhos de mulher, não dos filhos do Poder, a condução da História. E à Ciência e aos cientistas, ordeno-lhes, em nome das incontáveis vítimas dos sistemas de Poder, que disponibilizem graciosamente aos cuidadores maiêuticos os seus conhecimentos. Só então faz todo o sentido a palavra de ordem, Fiquem em Casa. Porque juntos, Sabedoria e Ciência, cientistas e cuidadores maiêuticos, secamos e extirpamos a raiz do Mal e damos corpo a um mundo alternativo a este que não é um mundo que se apresente.
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