A Universidade em declínio a Alta Frequência: depois de Bolonha, o Covid e o ensino com as suas avaliações à distância acentuam fortemente a degradação da Universidade – Em jeito de encerramento da série de textos, que não do debate… Por Júlio Marques Mota

 

Nota do editor:

Publicamos hoje um texto de Júlio Marques Mota que encerra a pequena série de textos sobre a acelerada decadência da Universidade em geral em Portugal e não só em Portugal. Naturalmente, é um debate que não se encerra, antes esperamos que seja um incentivo ao seu prosseguimento e que dele se tirem as devidas e necessárias conclusões com vista à reformulação do sistema de ensino superior no nosso país. Reformulação que deverá seguir uma opção oposta à massificação que tem sido seguida nas últimas décadas, oposta (como há poucos dias referiu José Tolentino de Mendonça) à “erudição apressada em vez da maturação paciente e transdisciplinar”, oposta aos “ditames da produtividade, do controlo utilitarista, do imediatismo imposto às Universidades em vez dos tempos necessariamente abertos e longos que o conhecimento e a investigação científicos requerem”, ou seja, uma reformulação para a generalização e democratização efetiva do ensino e que dê conta “da urgência de restabelecer equilíbrios mais estáveis e duradoiros”.

FT

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Em jeito de encerramento da série de textos, que não do debate…

 Por Júlio Marques Mota

                             Coimbra, 19 de Março de 2021

 

Meu caro editor, Francisco Tavares, caro ex-Provedor Rogério Leal, caro Provedor Paulo Peixoto

Sugiro a publicação deste texto a concluir Bolonha e de que dou conhecimento prévio a Rogério Leal e a Paulo Peixoto:

Quero agradecer a Rogério Leal e a Paulo Peixoto a participação na discussão por mim gerada em torno do grave problema que é a acelerada decadência da Universidade em geral no nosso país e não só no nosso país. Creio mesmo que se trata de uma tragédia à escala europeia de que ninguém fala publicamente. Vejam-se os partidos supostamente de esquerda: zero sobre o assunto, seja pela parte do PS, do BE ou do PCP.

Sem intenção de qualquer debate e em forma de ilustração e de conclusão do que nele se disse, aqui deixo três pequenas histórias, que me foram relatadas, as duas primeiras ontem e a terceira há uns dois anos, e um facto de hoje que pode ser importante na luta dos professores.

Três histórias:

  1. Um médico meu amigo, antigo diretor de serviço nos HUC e hoje reformado, telefona-me dizendo que gostou dos meus textos sobre o ensino, sublinhando um defeito, serem longos. E, depois, contou-me uma história: precisa de um funcionário com um curso paramédico para fazer exames médicos no seu consultório. Descobriu ao fim de meses que muito pouco de teoria sabiam e muito menos de prática sabiam. Acabou por optar por alguém que de prática de exames médicos nada sabia, mas que parecia ter um grande potencial de aprendizagem. Isto levou mais x meses e diz-me ele, isto não pode ser assim, não se pode colocar gente cá fora com esta falta de preparação.
  1. Um colega meu contou-me ontem uma história curiosa. Um seu aluno do ano passado, um aluno de 12, está este ano a frequentar um mestrado numa das prestigiadas faculdades de Lisboa. Trata-se de um aluno esperto, um aluno metido em n coisas associativas que estudava nos intervalos de tudo isso. Este aluno escreve-lhe, agradecendo-lhe a pressão que o professor terá feito sobre ele para que fosse mais aplicado e dando-lhe conta da sua progressão na sua carreira de estudante. E que lhe diz ele: está a frequentar um mestrado numa das mais reputada Faculdades de Lisboa e pasme-se: é considerado o melhor aluno da turma.

É com alguma alegria que a pequena história me é contada. Não se está tão mau por aqui como eu poderei ter insinuado., é a moral deste facto. Um engano, eu nunca disse mal, em especial, da Universidade de Coimbra, eu disse mal, muito mal mesmo, mas foi do ensino universitário em Portugal. Quando um aluno de média de 12 é considerado o melhor aluno da turma numa das mais prestigiadas faculdades publicas do país, está tudo dito. Não é preciso dizer mais nada.

  1. Um ilustre advogado de Coimbra quis contratar alguém para o cargo de secretária no seu consultório. Coloca um anúncio nos jornais. Concorrem cerca de 900 pessoas e cerca de 800 destas pessoas eram licenciadas ou a terminar a licenciatura. Fez uma pré-seleção cuidadosa retendo 10 candidatas. E dessas dez restantes, apenas uma era licenciada ou a terminar a licenciatura Fez entrevista às dez pré-selecionadas e escolheu alguém que apenas tinha o 12º ano. Tudo dito sobre a Universidade.

 

Um facto importante

Mas uma boa notícia hoje: um dos dois sindicatos de relevo do ensino superior manifesta-se e corretamente sobre a enorme sobrecarga de trabalho e de tensão que o sistema de ensino e avaliação à distância trouxe ao corpo docente.

 

Pretende-se e com muita razão que se alterem os critérios de desempenho dos docentes que até aqui praticamente ignoram o que é ser docente, o que não deixa de ser emblemático. Para sermos mais claros: para a subida de escalão, não de grau, exige-se avaliação de excelente, em dois triénios sucessivos, e na determinação dessa avaliação vale 80 % o trabalho, não de professor, mas sim de investigador e com publicações editadas nas melhores revistas mundiais. Dadas as condições impostas para a obtenção de classificação de nível excelente, teremos, pois, a subida de escalão como uma impossibilidade material para a maioria dos docentes da Universidade de Coimbra, impossibilidade material esta agravada agora com a sobrecarga de trabalho e de tensão emocional que o ensino e a avaliação à distância acarretam para o corpo docente.

A todos os sindicalistas que entram nesta luta pelos seus direitos desejo muito boa sorte.

 

 

 

 

 

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