Crise Financeira no Horizonte. Parte I – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise: 4. Os mercados financeiros – aprofundamentos – 4.3. Porque é que a multidão da WallStreetBets pode lucrar com as operações depredadoras em bolsa. Por The Economist

Logo tipo de WallStreetBets, um sítio subreddit, área de interesse criada pelos utilizadores onde são organizadas discussões na Reddit, um site deTamb´rrm  agregação de notícias sociais, classificação de conteúdos web e de discussão.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise

 

4. Os mercados financeiros – aprofundamentos

4.3. Porque é que a multidão da WallStreetBets pode lucrar com as operações depredadoras em bolsa

Os manuais escolares dizem que isso não pode acontecer. Mas há alturas em que operações de antecipação de operadores em dificuldade são compensadoras

Por  em 02/02/2021 (original aqui)

Republicado por  em 20/02/2021 (ver aqui)

 

“Não há lealdades em Wall Street. Quando se cheira a sangue na água, é-se um tubarão”.

O sentimento – ou falta dele – não pareceria fora do lugar em r/wallstreetbets, o lugar para uma nova raça de cabeças de martelo de ações, o que ajudou a aumentar os preços das ações das queridas empresas de tecnologia e de empresas bombardeadas a níveis de fazer sangrar o nariz, paralisando a ação dos profissionais de venda a descoberto na bolsa.

Mas a citação vem de alguém do grupo dos filhos do pós-guerra [mundial], não de um da geração dos anos 1980/1990 [geração Y ou do milénio]: “Confissões de um viciado em Wall Street”, de Jim Cramer, um negociador e uma estrela de televisão. Ele está a descrever a lógica sem remorsos do que é a negociação predatória.

É algo que é descoberto, de novo, por cada geração de operadores em bolsa – a arte sombria de escolher os investidores que estão em dificuldades, para ganhar com isso.  

Cada grande colapso do mercado é agravado por isso. Cada melhoria repentina de mercada – nomeadamente a atual – torna-a alvo daqueles que são suficientemente corajosos para a venderem a descoberto.

Os que têm a ideia de mercados de capitais eficientes ficarão perplexos com as últimas evoluções. Os livros de texto dizem que este tipo de coisas não pode acontecer. Assumem que há capital abundante que pode ser posto a trabalhar para corrigir os preços que assumam valores anormais.

Mas no mundo real, e nas condições certas, as operações em bolsa predatórias são uma estratégia lucrativa. Os preços podem ser levados a valores extremos antes de serem recolocados a níveis razoáveis. Para isso, basta que os mercados se tornem ilíquidos, que haja operadores em bolsa a sangrar e que outros operadores em bolsa consigam cheirar o sangue.

Para compreender como isto funciona, imagine um mundo em que existem dois tipos de investidores – rápidos e lentos. Os investidores de dinheiro lento são fundos de pensões. Eles evitam as operações em bolsa ditas de curto prazo, a descoberto. Quando entram no mercado é de uma forma ponderada, comprar e vender quando os preços das ações parecem excessivamente baratos ou caros.

As multidões de dinheiro rápido são fundos de cobertura, que estão felizes por negociar todos os dias. Neste mundo existem apenas dois fundos de investimento especulativo.

Cada um tem dez ações de uma empresa. Cada ação tem um valor esperado de $150 a longo prazo, mas a curto prazo pode ser transacionada a qualquer preço.

Digamos que as ações caem para 100 dólares por ação – suficientemente baixo para forçar um dos fundos de cobertura a apressar-se a vender toda a sua participação, talvez porque os seus investidores entram em pânico. O problema é que o mercado de ações não é muito líquido.

A multidão de dinheiro lento vai comprar duas ações por dia, mas o preço tem de ficar mais barato em $2 por dia para os induzir a negociar.

Num mundo sem operadores em bolsa predadores, o angustiado fundo de cobertura consegue vender as suas ações durante cinco dias, com a última ação a cair para $90.

Mas o outro fundo de cobertura sabe que a presa está ferida. Por isso, torna-se um predador. Junta-se à venda.

Com apenas alguns compradores, o vendedor em dificuldades leva agora dez dias, em vez de cinco, para se livrar das suas ações.

A última é vendida por 80 dólares. O predador está então livre para comprar de volta as ações a um preço mais baixo do que aquele pelo qual as vendeu. Ele compra as ações o mais rápido que pode, durante cinco dias, conduzindo o preço para $90.

Este exemplo é adaptado do modelo em “Predatory Trading”, um artigo de Markus Brunnermeier e Lasse Pedersen publicado em 2005 no Journal of Finance.

O modelo destaca elegantemente as principais características do ataque financeiro dos tubarões. Os mercados devem ser ilíquidos (ou seja, grandes transações podem modificar os preços a curto prazo).

Os operadores em bolsa devem ter capacidade limitada, o que significa que não podem sofrer perdas para além de um certo ponto – por razões regulamentares, devido a resgates por parte dos investidores ou por causa da dor psicológica.

Os autores retiram algumas implicações.

Quanto mais ilíquido for o mercado, mais possibilidades de lucro para os predadores: a presa leva mais tempo a escapar às suas posições, pelo que o preço cai mais.

Quanto mais depressa o negociante em dificuldades vender, menos perdas tem. Qualquer atraso permite que o predador negoceie antes (front-run) da presa.

Quanto mais predadores houver, menos lucrativa é a predação.

Como é que o episódio WallStreetBets se encaixa neste modelo? Os predadores estão a agir em conjunto, pelo que a sua estratégia pode ser mais eficaz. Melhor ainda, as presas são vendedores a descoberto, que apostam na queda das ações.

São especialmente vulneráveis: quanto mais os preços sobem, mais perdem.

As suas perdas potenciais são ilimitadas. E as suas posições são muitas vezes do conhecimento geral.

É por isso que muitos fundos de cobertura colocam as suas transações através de vários corretores, numa tentativa de os mascarar.

Mesmo assim, o incentivo para os corretores correrem à frente de um cliente em dificuldades é difícil de resistir – e nem sempre resistido, como Cramer relata no seu livro.

“Há uma história sobre um cliente em risco de falência que enviou os corretores para irem à cabina telefónica inexplorada que está na cave – todas as chamadas de corretagem são gravadas – e dizerem o que se está a passar aos seus amigos.”.

Não há realmente lealdades em Wall Street.

 

 

 

 

 

 

 

 

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