A caminho da loucura coletiva – ou “O guia de 20 pontos do The Economist para a nova normalidade 2021”

 

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Nota do editor

Há dias um familiar e grande amigo meu enviou-me este texto que reproduz a visão do The Economist para 2021-2030.

Sobre este louvável, porque interessante, e também assustador, exercício prospetivo do The Economist não pude deixar de expressar algumas interrogações, ao correr da pena, um pouco epidérmicas. Ainda que correndo o risco de poderem parecer interrogações de bota-de-elástico, apresento-as no final do texto.

É certo que o mundo não pára, embora algumas, ou até muitas, das perspetivas avançadas já se vislumbravam em 2019 antes da atual pandemia. Essencialmente, houve uma aceleração com o Covid-19.

Mas até onde nos vai levar o imediatismo que é uma das características do mundo dito desenvolvido? Não parece que vá no sentido de “implementar e reforçar a cultura da Responsabilidade e do Cuidado não deixando ninguém para trás e da “urgência de restabelecer equilíbrios mais estáveis e duradoiros (…)” ou “de colocar no âmago da vida … a noção de bem comum”, como assinalou José Tolentino de Mendonça há dias atrás. Não podemos deixar de o citar novamente (Março de 2021, Universidade de Coimbra):

“(…) os eruditos envergonham-se do ócio; de facto, o ócio, a contemplação não é, como tantas vezes se escuta, uma fuga do mundo ou uma recusa das necessidades objetivas da existência; o que nos dissocia do mundo e da vida, é antes uma erudição apressada em vez da maturação paciente e transdisciplinar, são os ditames da produtividade, do controlo utilitarista, do imediatismo imposto às Universidades em vez dos tempos necessariamente abertos e longos que o conhecimento e a investigação científicos requerem”.

Terei a ousadia de acrescentar, tomando as suas palavras: o que nos dissocia do mundo e da vida é uma erudição apressada e um estar sempre na crista da onda, em vez de uma mutação paciente e aberta a todo o diferente, são os ditames da produtividade, do controlo utilitarista, do imediatismo imposto às sociedades em vez dos tempos necessariamente abertos e longos que requerem a compreensão e atuação no mundo que nos rodeia.

Curiosamente, a ortodoxia dos poderes dominantes a respeito das políticas austeritárias não sofreu qualquer alteração… diversas vozes têm-se feito ouvir para que regressemos o mais rápido possível ao antigamente… défice (público) zero, limite da dívida em 60% do PIB…, ou seja, salários baixos, precariedade no trabalho, destruição dos serviços públicos, baixa das pensões, agravamento da repartição da riqueza, mais pobreza, mais pobreza, mais pobreza… Afinal, parece que a nova normalidade mais se parecerá com a antiga normalidade.

FT

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O guia de 20 pontos do The Economist para a nova normalidade 2021

 Por Felipe Alcaíno

Publicado por  em 01/02/2021 (original aqui)

 

Teletrabalho, economia, reciclagem e turismo são apenas alguns dos pontos que irão mudar para este ano, numa completa transformação desta década.

A revista The Economist publicou o artigo “Para uma nova normalidade 2021-2030” em que cobrem a forma como a sociedade, as suas relações e a economia mundial irão mudar após as mudanças provocadas pela crise de sanitária mundial.

Este é um resumo dos 20 pontos que foram analizados por mais de 50 especialistas sobre o que vem para este ano de 2021:

  1. Os seres humanos querem socializar novamente, mas o teletrabalho veio para ficar, por isso o trabalho continuará a ser feito online. Neste sentido, as casas serão adaptadas para tal e as reuniões serão realizadas em locais divertidos e diferentes cada mês, a fim de socializar e estabelecer contactos.

As reuniões digitais terão múltiplos espaços com todas as soluções resolvidas, uma vez que ninguém quer viver preso no trânsito ou na forma como o trabalho vinha a desenvolver-se.

  1. Os escritórios fecharão numa percentagem muito elevada, uma vez que as tecnologias disruptivas tomarão o seu lugar. Haverá mais assistentes digitais para que o trabalho seja feito de forma eficiente. As pessoas já não trabalharão no esquema atual existente.
  1. Desaparecerão as reuniões de hotel relacionadas com o trabalho, já que acabarão as viagens, congressos e reuniões tal como as conhecíamos. O turismo de negócios também desaparecerá, as chamadas tornar-se-ão videochamadas, as reuniões internacionais tornar-se-ão reuniões em linha e as conferências tornar-se-ão sistemas tecnológicos.

Os lançamentos de produtos e tecnologias digitais serão apoiados por inteligência artificial para promover experiências pessoais.

  1. As casas tornar-se-ão mais tecnológicas, adaptadas ao trabalho diário, com empresas dedicadas a resolver este tipo de necessidades.

Também mudarão de local, já que não será necessário viver na cidade para trabalhar e gerar o mesmo valor, pelo que as pessoas optarão por se mudar para a periferia. A localização física da casa ocupará um lugar secundário para as empresas, mas um lugar primordial para os trabalhadores.

  1. A produtividade já não dependerá de um chefe que te controle, mas serão as plataformas que ajudarão a medir resultados, indicadores de desempenho chave (KPI’s-Key Performance Indicators) e tempos eficientes.

Além disso, a forma de contratar pessoal será repensada, será mais fácil, mais barato e mais eficiente para atrair os que têm as melhores qualidades. Não haverá diferença entre contratar pessoal local e estrangeiro, porque hoje somos todos globais.

  1. Todo o trabalho repetitivo se tornará virtual e será encorajado o esquema de subscrição. Iremos a locais físicos (como ginásios) mas os lucros não nos permitirão manter as infra-estruturas físicas que tínhamos antes. Também vamos aumentar os serviços ao domicílio através da realidade virtual.
  1. As empresas que não investirem pelo menos 10% dos seus lucros em novas tecnologias irão desaparecer: A empresa tradicional chegou ao fim em 2020 e só lhe resta esperar pela sua morte definitiva.

Uma nova e fresca empresa tecnológica pode destronar uma que tem vindo a fazer a mesma coisa nos últimos 50 anos.

  1. O turismo para entretenimento voltará mais forte na segunda metade de 2021, as pessoas apreciarão mais do que nunca visitar o natural mas com soluções altamente tecnológicas apoiadas com assistência digital 24/7.
  1. O tratamento de dados pessoais torna-se mais delicado: as pessoas pagarão pelas coisas por assinatura, devido ao sentido de transparência envolvido (preferem pagar do que dar os seus dados). As grandes marcas valem hoje em dia pela sua credibilidade.
  1. A mão-de-obra reduzir-se-á, optando pela inteligência artificial. Em 2024 estará a lidar com operações complicadas em milhões de locais.
  1. A educação não voltará a ser a mesma: regressar-se-á à sala de aula mas esta será adaptada tecnologicamente tanto nas escolas como nas universidades.
  1. A medicina também se tornou digital com tecnologia remota e as consultas por teleconferência serão normais. Por outro lado, as pessoas continuarão a ter testes Covid em 2021 para se sentirem seguras e a vacinação será acelerada, mas também encontrará desafios ao longo do caminho.
  1. A economia pessoal vai contrair-se, com mais poupanças. Artigos como roupa elegante serão substituídos por roupa casual e a eletrónica continuará a ser o produto mais apreciado e comprado.
  1. O comércio online vai aumentar com operadores como o Facebook, Tik-Tok e YouTube para competirem contra a Amazon. Quase 50% das lojas físicas globais fecharão e as que sobreviverem serão graças a experiências e salas de exposição. Os grandes centros comerciais ficarão encurralados e poucos sobreviverão.
  1. As alterações climáticas tornar-se-ão o tema principal depois da Covid, com grandes indústrias que continuarão na transformação e no uso da inteligência artificial para melhor a compreender e operar. Além disso, as bicicletas tornar-se-ão o principal sistema de transporte graças à transformação das cidades.
  1. Novos modelos de notícias e informações por subscrição entrarão em cena, o que será mais transparente e ajudará a reduzir as “notícias falsas”. Credibilidade e transparência serão a pedra angular de todas as empresas, pois as pessoas estão cansadas de tanta informação e preferem sistemas elaborados por peritos. A imediatismo continuará também a ser valorizado.
  1. A saúde mental torna-se um tema recorrente e grandes plataformas ajudam as pessoas a lidar com situações de agressão, solidão e angústia que viveram por estarem isoladas.
  1. As grandes questões como a educação, saúde, energia, segurança, política, a destruição da classe média, serão o centro das atenções e as soluções são desenvolvidas por empresas tecnológicas. Grandes quantidades de capital serão investidas nestas áreas para a sua resolução e o empreendedorismo social será impulsionado.
  1. Tudo se vira para o natural e o saudável: alimentação, experiências e forma de interagir. Produzir a própria comida, meditar e fazer exercício fazem parte da vida quotidiana. Consumir local mas real, ser mais saudável, será o “novo luxo”. Além disso, a reciclagem está a voltar com mais força após um ano de resíduos incontroláveis.
  1. Este ano será um novo começo: as pessoas irão repensar os seus objetivos pessoais, de trabalho, de saúde, de dinheiro e espirituais. Um novo começo com valores mais reais e comportamentos que se transformam. Acumular, consumir e viver para as coisas materiais irá passar para o lado negativo da conversa.

 

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Sobre a nova normalidade 2021 do The Economist – Algumas interrrogações ao correr da pena

 Por Francisco Tavares

em 4 de Abril de 2020

 

Ponto 1: fica por saber quais serão os lugares divertidos e diferentes cada mês para realizar reuniões…… bares? Cafés? Restaurantes? Os hotéis, segundo o ponto 3 estão descartados. Ou os escritórios das empresas, ainda que redimensionados? Ou a socialização será puramente digital???

Ponto 2: a experiência parece estar a mostrar, já hoje, que o teletrabalho frequentemente acaba sendo mais cansativo e ainda mais stressante que o trabalho presencial, e de forte isolamento social. É o aprofundamento do que já era anterior ao Covid-19: trabalho precário e controlo algorítmico.

Ponto 4: casas mais tecnológicas. Sim, mas as casas de que pessoas? E quais são as tecnologias?

Ponto 5: o controlo da produtividade por plataformas (plataformas que são controladas por PESSOAS) é um fenómeno já bem conhecido anterior ao Covid (Uber, Amazon, Walmart….).

Ponto 6: falta saber o que é aqui o trabalho repetitivo. Mudar as fraldas a idosos? Dar-lhes os medicamentos? Acompanhá-los? Fazer atividades ao ar livre?

Ponto 7: falta saber o que é a empresa tradicional.

Ponto 8: o que será visitar o natural com soluções altamente tecnológicas? Sentado no sofá em casa?

Ponto 9: os dados pessoais. Nunca tantos dados pessoais circularam por esse mundo fora…..

Ponto 10: Redução da força de trabalho: sociedades (avançadas) casa vez mais envelhecidas: quem cuidará dos idosos? A inteligência artificial? E quem cuida das crianças enquanto os pais (tele)trabalham?

Ponto 11: “A educação não voltará a ser a mesma… “. Mas não era assim já? Vêm-me à memória declarações (por volta de Abril de 2020) do governante português (secretário de Estado) João Sobrinho Teixeira, algo como que Portugal tem uma das maiores cargas horárias de aulas por semana e que a pandemia e a obrigatoriedade de isolamento social veio abanar as aulas presenciais. E que, por isso, deve haver menos carga letiva, recurso a outras ferramentas, “ensinar de uma forma mais eficaz”, uma nova noção de aprendizagem (!). E assim, os professores do ensino superior ficam com mais tempo para a investigação (!). A ideia parece ser de que se ensina demais. Mas isto não é novo! A reforma de Bolonha já trouxe este novo paradigma: ensine mais e melhor, em menos tempo e com menos aulas. As aulas à distância, o tele-trabalho vem mesmo a calhar, sopa no mel como ainda sói dizer-se, ajuda ainda mais à redução dos custos com os docentes… e serve as necessidades dos sagrados mercados. O ensino, nomeadamente o ensino universitário, torna-se um território definido pelos computadores e pelas plataformas em que tudo está interligado, recebendo ordens e determinando ordens, a modos que um mercado de negociação de alta frequência, com potentes computadores e algoritmos neles embebidos.

Ensino à distância, mais redução do número de aulas, mais redução do número de horas de aula, dá mais tempo para investigar…. Resta saber, investigar o quê, se não se houve tempo para aprender.

Como estarão a aprender as crianças que não têm internet em casa? Ou que vivem em casas sobrelotadas? Ou que não têm uma mamã ou um papá que as possa ajudar devido à distância a que está o/a professor/a? Ao passarem para a 2ª classe/2º ano, ou para a 3ª classe/3º ano que terão aprendido?

Adaptação tecnológica: o que será isso? A ausência presencial do professor?

Ponto 12: para quando as análises de sangue ao domicílio? E o electrocardiograma? E a ressonância magnética? E a ecografia? E o tratamento dos dentes? E como vai fazer o dermatologista?

Ponto 13: roupa elegante: quem são os seus clientes?

Ponto 15: isso das bicicletas, em sociedades envelhecidas, está para se ver como poderá vir a ser, em dias de chuva por exemplo. Já dizem que vêm aí os drone-táxis: como será regulado esse trânsito? Como será o céu, o ambiente cheiinho destes objetos voadores? E a poluição sonora?

Ponto 16: “… redução das chamadas “fake news””, o que se tem visto é a tendência para o contrário. E quanto ao imediatismo, infelizmente continuará como antes.

Ponto 17: plataformas para a saúde mental? Se sofre de visões, tecla 1, se sofre de depressão, tecla 2, se sofre de depressão aguda, tecla 2.1, se quer falar com um operador, tecla 9………. Piiiiiiiiiiiiii, regresso ao início, se sofre de visões………em empresas privadas, é claro!

Ponto 18: “As grandes questões como a educação, saúde, energia, segurança, política, a destruição da classe média…”: mas as soluções para esses problemas são (apenas ou essencialmente) tecnológicas?????

Ponto 19: essa de produzir os próprios alimentos…. A tendência tem sido aumento dos serviços ao domicílio (vide ponto 6), mais pizzas, hambúrgueres, fried chicken e etc.

Ponto 20: este ano de 2021, será o seguimento de 2020, as pessoas preocupadas com a sua saúde, os que passam fome preocupados com a sobrevivência, os que não têm casa à procura de um tecto…..Acumular, consumir e viver pelas coisas materiais, certamente estará na conversa das big corporations, dos especuladores, dos top 1%….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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