CARTA DE BRAGA – “as asas que a vida nos dá” por António Oliveira

Sei, como a maioria das pessoas também sabe, ou devia saber, que esta crise sanitária ultrapassa largamente todas as morais individualistas, as que maioritariamente regimentam a vida na sociedade actual, onde quase sempre se funciona ‘à molhada’, para responder sofregamente aos apelos superficiais e consumistas das entidades que podiam, melhor, deviam, olhar para o colectivo de outra maneira, por se ter posto a nu quanto somos frágeis e vulneráveis, agora mais do que nunca, como devemos dar atenção ao termo ‘cuidado’, porque os seus próprios descuidos também são responsáveis por ela.

É dos livros, está nos livros que, em sociedade, todos necessitamos de partilhar, a começar nas comunidades, exactamente aquilo que o individualismo, favorecido sempre pelo liberalismo e pela economia consumista, levou a pôr de lado em toda a parte e, convém lembrá-lo, porque há poucos dias, dia 23, se comemorou a festa do livro, apesar do pouco apelo a essa data e das eventuais e parcas celebrações.

Tudo isto está lá, nos livros, naqueles longe, mas muito longe dos ‘manhas’ de todas as manhãs, daqueles que o ensino também tem vindo a afastar do sistema educativo, a ‘Ilíada’, a ‘Odisseia’ e mais autores como Platão, Aristóteles e muitos outros, mas para serem lidos e interpretados e não para dividir orações ou ‘encornar’ como em Camões, Agostinho ou Ruy Belo, mas também a ‘Génesis’, o ‘Quixote’, as ‘Cartas’ de Paulo ou ainda, Omar Khayyam e outros mais, felizmente muitos mais, pois só lendo-os,  poderemos saber e entender a nossa condição humana, a mesma que nos ‘pede’ para partilhar.

Somos o somatório de todos os que nos antecederam porque, de algum modo, fazemos parte de um de um mundo que também os gerou e nos possibilitou o acesso às suas obras, as que fazem parte do acervo da maioria das bibliotecas, o melhor aproveitamento do livro que, só por si, é a mais fantástica invenção do homem, por diferenciador, mas também a mais perigosa de todas.

Dizia Aristóteles que o ser humano é o animal dotado de linguagem, o que fala, o que precisa da comunicação para viver, conviver e se relacionar com os demais, mas também aprendemos com Gutenberg, a ser o homem que lê, o que criou os livros onde se contaram e contam, as lendas, os mitos e as estórias que fazem a História, a que nos faz os seus intérpretes e interventores.

É por tudo isso, afirma o professor e filósofo Joan-Carles Mélich, em artigo no ‘Publico.es’, que o exercício da leitura ‘É perigoso, pois ler é correr o risco de transformar, de nos destruir o conforto, de fazer explodir as nossas certezas e protecções’, mas Mélich vai ainda mais longe, ‘O poder não está interessado no pensamento. Pensar é problematizar, é questionar o que é dado, o que é herdado, o mundo dado como certo e isso significa atacar os sistemas sociais. Ler é perigoso, pensar é perigoso, ler é um ir para se encontrar, uma forma de vida…

Na verdade, o livro é o meio de transporte mais simples, barato e eficaz, para nos levar a outras paisagens, geográficas, físicas mas também humanas e, uma biblioteca pode ser a melhor maneira de vencer os confinamentos pois, já Cícero o afirmou, algumas dezenas de anos antes de Cristo, ‘Se tiveres uma biblioteca e ao lado um jardim, tens tudo’ e mais próximo de nós, o grande e já abalado Quino, pôs a sua ‘heroína’ Mafalda a perguntar ‘Não seria o mundo maravilhoso, se as bibliotecas fossem mais importantes que os bancos?

Está aí o enorme poder da palavra que, se usada com eficácia, tanto serve para definir como para controlar a acção e, se a ideia se ajustar à palavra em contexto adequado, poderá polarizar emoções, escritas para serem repetidas depois, mesmo oralmente, para se usarem como uma potente força motivadora, razão pela qual o poder não está interessado no pensamento, pelas tensões constantes que origina.

Acontece porém, que o público em geral, até mesmo os estudantes, reagem com aborrecimento, quando confrontados com a necessidade de ler qualquer texto com personagens clássicos ou históricos, porque tudo o que ‘cheire’ a passado remoto, tem logo o estigma de ‘chatice’, por muito que se lhes explique que mantêm toda a sua actualidade e que cada geração pode dali tirar as suas própria conclusões.

São inúmeras as vozes a censurar o abandono das humanidades e da discussão dialéctica baseada no valor da leitura, mais o discurso que ela fundamenta e, espero que juntem a todas as outras, mais este juízo de Nuccio Ordine, professor, filósofo e um dos maiores especialistas na Renascença, ‘Em Kerala, o mais pobre dos estados da Índia, os governos realizaram inversões gigantescas na saúde e na educação. Hoje o rendimento per capita mais alto da Índia está ali, em Kerala. Quando se investe nas coisas que, para mim, constituem a dignidade do homem, o direito à saúde e o direito ao conhecimento, a sociedade pode experimentar um fortíssimo desenvolvimento económico e cultural’.

Talvez venha a propósito avocar o sempiterno Freud, por atribuir as razões do mal-estar que, por vezes, nos ataca, ao nosso próprio corpo, à nossa relação com a natureza ou com o outro. Aliás, é neste último aspecto, que se situa e afirma o pacto de entrada na cultura, pela renúncia ao nosso desejo de anular ou arrasar o outro, um acordo que também nos pode salvar da guerra de todos contra todos.

Também o filósofo George Steiner em ‘O castelo do barba azul’, salienta bem ‘So papel da palavra, como organizadora das articulações do tempo e do sentido, for enfraquecido, se este privilégio for subvertido, teremos começado a demolir os valores de hierarquia e transcendência de uma civilização clássica. Até mesmo a morte se pode tornar muda’. 

Volto ainda a Joan-Carles Mélich e ao seu artigo no ‘Publico.es’, por me parecer o fundamento perfeito para esta Carta, ‘O ser humano é um leitor, o que significa ter necessariamente de sair de si para sobreviver. É um ser relacional e dependente de outros, não só dos humanos, como também de objectos. Somos seres com objectos e um deles é o livro, os textos, as narrativas, as estórias. Às vezes entende-se a leitura como uma viagem interior, mas para mim, tem mais a ver com uma viagem para o desconhecido!

E, parece que a propósito, não há muito tempo, guardei do blog ‘Xilre’ esta constatação, ‘Não é coincidência que um livro aberto tenha a forma de um par de asas’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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