DEMOROU MEIO SÉCULO PARA OS DEMOCRATAS REDESCOBRIREM A ECONOMIA DE TRICKLE-UP, por BRUCE BARTLETT

 

Será que as lições dos anos 30 são finalmente retomadas- a esperança na equipa de economistas  escolhidos por Biden. E será que Biden mudou para que essa esperança não  se desvaneça ? 

It Took the Democrats Half a Century to Rediscover Trickle-Up Economics, por Bruce Bartlett

The New Republic, 7 de Maio de 2021

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

Enquanto os republicanos se agarram às ilusões do trickle-down, Biden está a reavivar uma filosofia de crescimento que o partido não abraçou desde LBJ.

 

Quando os republicanos começaram a reformular a sua filosofia fiscal nos finais dos anos 70, procuraram inspiração nas políticas do seu partido dos anos 20. Lembro-me de Jude Wanniski, o falecido jornalista conservador, me dizer que nada sabia sobre os cortes fiscais  republicanos nos anos 20 até ler sobre eles no livro de Herb Stein de 1969, The Fiscal Revolution in America. Hoje, também os Democratas podem  encontrar inspiração nos debates económicos da década de 1920 – no debate  sobre se o subconsumo fez abrandar ou não a taxa de crescimento económico.

A sobreprodução  tem sido vista há muito tempo como a causa principal das crises económicas. A isto chamava-se o problema da “sobreabundância geral“, e economistas clássicos como Thomas Malthus, David Ricardo, e Jean-Baptiste Say discutiram sobre se este problema era inerente à natureza do capitalismo. Eventualmente, os economistas neoclássicos concluíram que Say estava certo em que o processo de produção criava rendimentos suficientes para comprar toda a produção. Quaisquer excedentes que houvesse  eram temporários e eram o resultado de erros, não eram inerentes ao próprio sistema.

A Grande Depressão reavivou o debate sobre se era possível ter excesso de  produção de forma persistente; sendo o lado negativo poder haver subconsumo constante. Um economista britânico chamado J.A. Hobson pensava que o subconsumo era um problema. Embora o processo de produção consiga criar rendimentos suficientes para absorver o seu produto, ele pensava que o consumo não aumentava concomitantemente com os rendimentos, porque alguns rendimentos são poupados, o que vai no sentido de expandir ainda mais a produção. Assim, existe um contínuo défice de consumo, causando uma sobreprodução.

Dois economistas americanos, William Foster e Waddill Catchings, desenvolveram uma teoria muito semelhante à de Hobson. Como eles explicaram no seu livro de 1928, The Road to Plenty, “[as empresas e os indivíduos] devem poupar; no entanto, se pouparem, provocam uma escassez de compras por parte dos consumidores, que tem de ser compensada de alguma outra forma, ou então teremos como resultado uma  depressão ao nivel empresarial.“ Concluíram que o aumento da despesa pública  e  o défice governamentais (poupança negativa) eram necessários para preencher a lacuna entre o rendimento agregado e o consumo.

Franklin D. Roosevelt estava familiarizado com o trabalho de Foster e Catchings, embora a sua impressão inicial fosse negativa. Há alguns anos, Mike Konczal conseguiu que a Biblioteca Presidencial de Roosevelt lhe fornecesse a cópia pessoal de Roosevelt de  The Road to Plenty. Nesse exemplar, Roosevelt anotou pelo seu próprio punho: “Demasiado bom para ser verdade – não se consegue obter seja o que for a troco de nada “.

Franklin Roosevelt não simpatizava com os défices orçamentais. De facto, ele era bastante ortodoxo nas suas convicções sobre o orçamento federal, já com a  campanha presidencial de 1932 a avançar.

Naturalmente, isto foi em 1928, no meio dos “loucos anos vinte”. A Grande Depressão não estava à vista de lado nenhum. E como governador de Nova Iorque, que tinha de equilibrar o seu orçamento anualmente, FDR não era favorável aos défices orçamentais. De facto, ele era bastante ortodoxo nas suas convicções sobre o orçamento federal, já com a campanha presidencial de 1932 a avançar. Num discurso de 19 de Outubro de 1932, criticou  o Presidente Herbert Hoover pelos seus défices e prometeu economia no governo. “Considero a redução das despesas federais como uma das questões mais importantes desta campanha”, disse Roosevelt. “Na minha opinião, é a contribuição mais directa e eficaz que o governo pode dar às empresas”. (Já discuti anteriormente o abuso quanto à “confiança empresarial” como uma desculpa para cortar as despesas governamentais).

Mas ao mesmo tempo, Roosevelt expressou uma crescente simpatia pela opinião de Hobson-Foster-Catchings de que o subconsumo estava na origem do mal-estar económico. Num discurso de 22 de Maio, ele tinha isto a dizer:

[O] nosso problema básico não era uma insuficiência de capital. Era uma distribuição insuficiente do poder de compra aliada a uma especulação excessiva na produção. Enquanto os salários subiam em muitas das nossas indústrias, no global não aumentavam proporcionalmente aos ganhos do capital  e ao mesmo tempo o poder de compra de outros grandes grupos da nossa população era levado a reduzir-se. Acumulámos uma tal superabundância de capital que os nossos grandes banqueiros estavam a competir uns com os outros, alguns deles empregando métodos questionáveis nos seus esforços para emprestar este capital no país e no estrangeiro.

Creio que estamos no limiar de uma mudança fundamental no nosso pensamento económico popular, que no futuro vamos pensar menos no produtor e mais no consumidor. Fazendo o que temos de fazer para injectar vida na nossa ordem económica em dificuldades, não poderemos fazê-la perdurar por muito tempo, a menos que consigamos uma distribuição mais sábia e mais equitativa do rendimento nacional.

Roosevelt continuou a identificar o fracasso das empresas em baixar os preços para aumentar as vendas como um factor chave que levou ao subconsumo, o que ele via como uma das principais causas da Grande Depressão. Como disse no seu discurso de 2 de Julho de 1932, ao aceitar a nomeação presidencial democrata:

Nos anos anteriores a 1929 sabemos que este país tinha completado um vasto ciclo de construção e inflação; durante dez anos expandimos a teoria da reparação dos resíduos da Guerra, mas na realidade expandimos muito para além disso, e também para além do nosso crescimento natural e normal. Agora vale a pena recordar, e os números frios das finanças provam-no, que durante esse período houve pouca ou nenhuma queda nos preços que o consumidor teve de pagar, embora esses mesmos números provassem que o custo de produção caiu muito; o lucro empresarial resultante desse período foi enorme; ao mesmo tempo, pouco desse lucro foi dedicado à redução dos preços. O consumidor foi esquecido. Muito pouco foi investido no aumento dos salários; o trabalhador foi esquecido, e de forma alguma uma proporção adequada foi sequer paga em dividendos – o accionista foi taambém esquecido.

Num discurso de 23 de Setembro, Roosevelt também identificou a concentração industrial e a má distribuição dos rendimentos como causas subjacentes do subconsumo. “Se o processo de concentração continuar ao mesmo ritmo”, advertiu, “ao fim de mais um século teremos toda a indústria americana controlada por uma dúzia de empresas, e gerida por talvez uma centena de homens. Dito claramente, estamos a seguir um rumo firme em direcção à oligarquia económica, ou até se calhar já lá estamos”.

A concentração industrial, prosseguiu, exacerbou o problema do subconsumo, permitindo às empresas manter os preços elevados e resistir às forças do mercado. Era necessário ajustar a produção ao consumo e realizar a tarefa “de distribuir riqueza e produção de forma mais equitativa, de adaptar as organizações económicas existentes ao serviço do povo”, concluiu Roosevelt.

Num discurso de 6 de Outubro,  FDR comprometeu-se a utilizar a política reguladora para conseguir uma distribuição mais equitativa do rendimento, a fim de proporcionar aos cidadãos o poder de compra para absorver o excesso de produção e reequilibrar a economia. “É uma preocupação adequada do governo”, disse ele, “utilizar medidas sensatas de regulação que levem este poder de compra de volta à normalidade”.

Em 1933, Marriner S. Eccles, presidente de um grande banco do Utah, tornou-se porta-voz da visão do subconsumo. Em testemunho perante a Comissão de Finanças do Senado em Fevereiro, ele fez-se eco das preocupações de FDR sobre poupança excessiva, sobreprodução e subconsumo. Como Eccles disse à Comissão:

O problema da produção foi resolvido, e no presente não precisamos de mais acumulação de capital, que só poderia ser utilizado para aumentar ainda mais as nossas instalações produtivas ou alargar mais os créditos estrangeiros. Temos uma estrutura económica completa capaz de fornecer uma superabundância não só de todas as necessidades do nosso povo, mas também do conforto e de produtos e serviços mais diferenciados. O nosso problema, portanto, torna-se meramente um problema de distribuição. Isto só pode ser conseguido através de um poder de compra suficientemente adequado para permitir ao povo obter os bens de consumo que nós, como nação, somos capazes de produzir. O sistema económico não pode estar ao serviço de  nenhum outro propósito e esperar com isso sobreviver.

Em Janeiro de 1934, Eccles foi nomeado secretário adjunto do Tesouro como elo de ligação com a Reserva Federal e agências relacionadas. (Naqueles dias, o secretário do Tesouro era membro do Conselho da Reserva Federal). Mais tarde, nesse ano, Eccles tornou-se presidente do Conselho da Reserva Federal, cargo que ocupou até 1948. Nas suas memórias, ele explicou (a ênfase é nossa):

Como a produção em massa tem de ser acompanhada pelo consumo em massa, o consumo em massa, por sua vez, implica uma distribuição da riqueza – não da riqueza existente, mas da riqueza tal como é actualmente produzida – para proporcionar aos homens um poder de compra igual à quantidade de bens e serviços oferecidos pela maquinaria económica da nação.

Em vez de conseguir esse tipo de distribuição, uma bomba de sucção gigante tinha, por volta de 1929-30, colocado em poucas mãos uma porção crescente da riqueza correntemente  produzida. Isto serviu-lhes  como acumulação  de capital. Mas ao retirar o poder de compra das mãos dos consumidores em massa, os aforradores negaram a si próprios o tipo de procura efectiva dos seus produtos que justificaria um reinvestimento das suas acumulações de capital em novas fábricas…. Isto reduziu naturalmente a procura de bens de todos os tipos e provocou o que parecia ser sobreprodução, mas na realidade era um subconsumo quando avaliado em termos do mundo real e não do mundo do dinheiro.

Roosevelt, contudo, nunca se comprometeu totalmente com a visão subconsumista, e poucos economistas a apoiaram. Hobson, Foster, e Catchings estavam bem fora da corrente económica. Contudo, em 1936, o eminente economista britânico John Maynard Keynes reavivou a visão subconsumista no seu livro The General Theory of Employment Interest and Money. Ele argumentou que o capital não foi criado pela poupança, mas pela percepção dos capitalistas de um aumento da procura dos seus produtos. Como Keynes escreveu, “[C]apital é trazido à existência não pela propensão para poupar, mas em resposta à procura resultante do consumo real e prospectivo”. De facto, argumentou que a poupança  era contraproducente para o crescimento através da diminuição do consumo. Ele chamou a isto o “paradoxo da poupança”.

Subsequentemente, a ideia de Roosevelt-Keynes de que o aumento do consumo era a chave do crescimento económico ficou conhecida como economia “trickle-up”, em contraste com as políticas “trickle-down” dos republicanos, que viam a prosperidade dos ricos como a chave do crescimento que acabaria por beneficiar as massas. Uma das primeiras pessoas a fazer a distinção “trickle-up/trickle-down” foi o humorista democrata Will Rogers. Numa coluna de 26 de Novembro de 1932, escreveu ele:

As expressões tricke-down e tricle-up terão sido conhecidas  durante a  Grande Depressão  a partir de um texto de Will Rogers. Vejamos  a sua explicação na íntegra: “Esta eleição foi perdida há já quatro a seis anos atrás, não neste ano. Eles [os republicanos] não começaram a pensar no velho colega comum senão quando começou a campanha eleitoral. O dinheiro tinha sido todo ele apropriado pelas gentes do topo da escala de rendimentos, na esperança de que este, depois, transbordasse e passasse a escorrer também a favor dos necessitados. O Presidente Herbert Hoover [Republicano] era um engenheiro. Ele sabia que a água escorre de cima para baixo. Coloquem-na numa colina e deixem-na ir e esta chegará até ao local mais seco, por mais pequeno que este seja [a economia trickle-down]. Mas ele não sabia que o dinheiro poderia escorrer de baixo para cima. Dê dinheiro às pessoas da parte mais baixa da escala de rendimentos e as pessoas no topo dessa mesma escala tê-lo-ão de volta antes de chegar a noite, de toda a maneira. Mas, pelo menos, passará pelas mãos das pessoas pobres.[ a economia trickle-up].  Eles salvaram os grandes bancos, mas os pequeninos foram mandados para a chaminé.” Em: Will Rogers in the St. Petersburg Times – Nov 26, 1932.

Este foi, de facto, o ponto de vista democrático histórico. William Jennings Bryan, três vezes nomeado para presidente pelos democrata, tinha-o articulado no seu famoso discurso “Cruz de Ouro” em 1896. “Há duas ideias de governo”, disse Bryan. “Há aqueles que acreditam que se apenas se legislar para fazer prosperar os ricos, que a sua prosperidade se fará sentir nos que se encontram abaixo. A ideia Democrática tem sido a que se legislarmos para fazer prosperar as massas, a sua prosperidade encontrará o seu caminho para cima e através de todas as classes que dela beneficiarão”.

Biden é o primeiro democrata, desde Lyndon Johnson, a declarar abertamente que a ideia do trickle-up  é a filosofia de crescimento do partido.

Levanto toda esta história porque o Presidente Joe Biden fez um comentário revelador no seu discurso de 29 de Abril numa sessão conjunta do Congresso: “Meus compatriotas americanos, a economia trickle-down-trickle-down-economics nunca funcionou, e é tempo de fazer crescer a economia a partir da base e do meio”. Biden é o primeiro democrata, desde Lyndon Johnson, a declarar abertamente que o trickle-up é a filosofia de crescimento do partido. De facto, o programa de Biden faz lembrar a declaração de Johnson a 15 de Janeiro de 1964, lançando a Grande Sociedade: “Vamos tentar pegar em todo o dinheiro que pensamos estar a ser gasto desnecessariamente e tirá-lo dos que ‘têm’ e dá-lo aos ‘não têm’ que tanto precisam dele”.

A tragédia do Vietname e a estagflação da década de 1970 mataram a visão do trickle-up. No final da década de 1970, os republicanos contra-atacaram com uma versão actualizada e mais sofisticada de trickle-down chamada a economia pelo lado da oferta  “supply-side economics”. Desde então, todos os republicanos têm vivido de acordo com a visão trickle-down.  Os presidentes democratas subsequentes seguiram essencialmente os seus princípios fundamentais – um governo pequeno, uma tributação leve sobre o capital e a riqueza,  os programas sociais postos em prática foram-no  exclusivamente através de créditos fiscais – e pareceram ter medo de formular  uma visão verdadeiramente progressista. Quem pode esquecer a capitulação do Presidente Bill Clinton aos republicanos no seu discurso sobre o Estado da União de 1996: “A era do grande governo chegou ao fim”?

Mas a longa estagnação dos salários reais e o fortíssimo crescimento da desigualdade de rendimentos estão finalmente a levar os economistas a retomarem o ponto de vista subconsumista.

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Fonte: Bruce Bartlett, jornal The New Republic, It Took the Democrats Half a Century to Rediscover Trickle-Up Economics. Publicado a 7 de maio e disponível em:

https://newrepublic.com/article/162334/trickle-up-economics-biden-lbj-democrats?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=tnr_daily

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