Um amigo nosso, Shem Guibbory, que é violinista da Orquestra MET em Nova Iorque, veio na semana passada jantar a nossa casa.
Ele concordou em tocar a Chaconne de Bach para uma pequena audiência que eramos nós e alguns outros amigos.
Não tenho ouvido musical, mas continuei a pensar que era assim que Deus se exprimia aquando da criação do mundo.
A música tinha uma ordem perfeita que só podia ser vista olhando profundamente para o que parecia ser no início uma desordem.
Pareceu-me extraordinário que um ser humano fosse capaz de capturar o espírito de Deus sobre um pedaço de madeira.
A minha atividade é a relação da ordem com a desordem.
As nações parecem ser coisas desordenadas, mas para mim há uma ordem profunda que a estas é inerente.
Quando uma nação se encontra com outra, o som que faz é a cacofonia do conflito.
No entanto, neste encontro há uma ordem de necessidade, que é a verdade subjacente ao barulho.
A necessidade, as restrições que obrigam uma nação a avançar, tudo pode parecer caótico, mas no caos podemos compreender e até prever a direção das nações.
Que eu reclame um qualquer direito a uma peça de música transcendente de Bach ou à soberba entrega do meu amigo é, claro, a arrogância que todos vocês suportariam.
Mas o meu objetivo aqui não é discutir o tédio divino de ser humano, mas sim em considerar como é que esse tédio e o brilhantismo de Bach nos devem dar um sentido de Deus.
Deus não é um assunto que se aborde de ânimo leve, especialmente no nosso tempo, onde a suspeita de falar de Deus é omnipresente.
O Iluminismo foi uma celebração da natureza, do homem e da ciência.
Havia lugar para Deus como cortesia.
À medida que o Iluminismo se transformava em ciência moderna, a ideia de um Deus infinito, a causa de todas as coisas, deixou de ser a crença cultural comum, subjugada pela ideia de que todas as coisas humanas e universais eram o produto da matéria.
A ciência nunca negou a ordem da natureza, mas não podia admitir que aquilo a que uns chamam criação inteligente e outros pensam como obra de Deus pudesse ser a origem da ordem do universo, do mundo político ou da vida humana.
A ciência baseada na causalidade e na mera existência da ordem não justifica a existência de uma força responsável por essa ordem.
Para a ciência, mas não necessariamente para o cientista, a origem da ordem não pode ser conhecida.
Mas quando escutei Bach, encontrei uma ordem surreal na sua complexidade, sedutora se eu deixasse de tentar dissecá-la e simplesmente a ela me rendesse.
Nessa altura, encontrei beleza.
A beleza é um conceito que é difícil de se compreender.
Diz-se que é uma questão de gosto e, portanto, um produto do gosto e nada mais.
Mas quando ouvi Bach e vi o violinista desenhar os sons através do seu arco, apercebi-me que isto é beleza, e que se o observador não reconhece isto, então ele está de certa forma amputado de alguma coisa.
A beleza não está nos olhos de quem vê, mas nos olhos do universo.
E quando se fala de beleza, é necessário discutir um assunto que não é apropriado para se falar em companhia de gente polida: a morte.
Há quem acredite que a morte física não põe fim à vida.
Há aqueles que argumentam que a morte aniquila a vida e a consciência.
Os primeiros acreditam que esta é uma questão de fé, os segundos uma questão de ciência.
Para mim, a fé é algo que qualquer pessoa pode reivindicar e construir sobre ela o edifício mental que deseje.
Quem sabe o que é verdade?
Mas é a definição materialista do mundo, e da morte, que eu acho mais preocupante, e o problema está embutido em Bach.
Como poderia um ser humano conceber tais sons e criar a música?
Como é que posso fingir compreender o funcionamento das nações?
Como é que a mente de qualquer ser humano pode ser preenchida com as coisas extraordinárias de que é preenchida?
Cada um de nós, numa hora, encontra na sua mente coisas que viu, que irá ver ou que não pode ver porque nada existe nada assim.
Cada um de nós, nessa hora, sente amor, raiva, luxúria e depressão.
As nossas mentes estão cheias do prosaico e do assombroso, e vivemos dentro desse espaço esperando que assim seja.
Diz-se que o cérebro é a origem do pensamento, e todo o pensamento tem, portanto, origem no nosso corpo.
Mas eu sei que eu, George Friedman, posso escolher pensar nas coisas que eu quiser.
Alguns poderiam dizer que o cérebro gerou o pensamento.
Pode conter esse pensamento nas suas pregas e nos seus recantos, mas o cérebro não pode gerar a complexidade dos pensamentos que eu penso, porque me sinto a escolher pensar neles, e porque os experimento.
O cérebro pode ser o guardião do pensamento, mas existe aqui um “eu”, e sei que escolhi esta palavra para escrever e que essa palavra teve origem em mim.
Posso estar a delirar, mas penso que não.
Posso ser um autómato, mas Bach não poderia ter sido simplesmente um canal para o tecido cerebral expressar os químicos que gera.
Se existe um “eu” independente do cérebro, então posso compreender como Bach poderia ter querido que a sua música existisse.
Ele escolheu fazê-lo por amor ao belo.
Se assim for, então Bach era maior que o seu corpo, e quando o recipiente do génio de Bach partiu Bach é destruído ou será que fica livre?
Obviamente, estou a brincar com a ideia de que há mais coisas no céu e na terra do que as sonhadas nas vossas filosofias.
Não pretendo compreender o universo, e encontro-me mesmo intrigado.
Mas a ideia de que a rica complexidade do pensamento e da emoção é um produto do cérebro parece-me simplista.
Uma explicação mais elegante é que existe uma alma, boa ou má à nossa escolha, que não pode ser contida no Iluminismo.
Este estranho vaguear pela metafísica não se afasta da política.
A alma de uma pessoa pode ser caótica.
As almas de muitas pessoas vêm nelas uma certa lógica, não porque sejam a produção mecanicista de apetites e pensamentos fabricados, mas porque, tal como o universo, há uma ordem por baixo do caos, e na procura de constrangimentos, é o que precisamos de analisar mais profundamente.
Sim, existem constrangimentos, mas estes constrangem mais do que o corpo.
Limitam a selvageria das nossas mentes, uma selvageria que partilhamos uns com os outros.
A liberdade da alma luta contra os limites do corpo em todos, de forma ordenada.
Há ordem para uma nação, e parece ser que as correntes selvagens estão apenas à superfície.
Posso estar completamente errado sobre o mundo, e talvez não haja nada mais do que o meu apetite a impulsionar-me.
Mas tal como os cientistas insistem na causalidade, devo explicar Bach.
Como poderia ele compor uma canção que nos eleva a lugares que eu pensava não existirem.
Como pode isto existir no mundo – e existe – como uma questão de causalidade material e não como um homem que opta por ver o que é espantoso?
Não consigo lá chegar a partir do Iluminismo, e receio afirmar que sei mais do que sei.
Já estou muito longe do meu terreno.
Mas ouvir Bach obriga-me a repensar o que faço, e o próprio universo.