
Carlos de Oliveira tem dois anos de idade quando a família regressa do Brasil, onde estava emigrada. Fixam-se no concelho de Cantanhede, primeiro na Camarneira, na casa do avô, depois em Febres. Aqui o seu pai exerce medicina, chegando a ser nomeado médico municipal. Carlos de Oliveira frequenta a escola em Febres e depois vai para o liceu, primeiro em Cantanhede, e depois em Coimbra. Já formado, muda-se para Lisboa. Contudo permanece para sempre ligado à Gândara, que aparece e reaparece em toda a sua obra. E a partir dela observa o resto do mundo.
Joaquim Seabra-Dinis, em notas enviadas à revista Vértice, destinadas ao volume de homenagem a Carlos de Oliveira publicado em Dezembro de 1982, com o número 450/1, refere uma entrevista que o escritor deu a O Diário, em que diz: “Tinha dois ideais: um era escrever e outro era próprio dessas idades – juntar-me a eles (os colegas amigos) e combater por uma causa justa. Foi assim que me integrei no grupo, li os mesmos livros que eles (éramos uma só voz) …”
É que os amigos são outra grande influência na vida e na obra de Carlos de Oliveira. Entre os seus amigos dos tempos de liceu, assinalam-se Fernando Namora, Egídio Namorado (irmão do poeta Joaquim Namorado) e Joaquim Barradas de Carvalho. Com Fernando Namora, dois anos mais velho, e com Artur Varela, publica o livro Cabeças de Barro, aos dezasseis anos, em que inclui três contos e um poema. Em Coimbra conhece Afonso Duarte (1884 – 1958), poeta e professor, sem dúvida uma influência marcante, na sua pessoa e na sua obra. Carlos de Oliveira recorda-o em A Dádiva Suprema e O Iceberg, dois textos incluídos no Aprendiz de Feiticeiro. No primeiro descreve alguns episódios da vida do amigo, e o dia do seu funeral. No segundo texto, volta a abordar a vida de Afonso Duarte, a sua obra e transmite-nos um conselho do mestre:
A palavra que digas,
A carta que escrevas,
Que sejam obra de arte.
Em 1956, na editora Iniciativas Editoriais, em conjunto com João José Cochofel, na editora Iniciativas Editoriais, organiza o apêndice biobliográfico à 1ª edição da Obra Completa de Afonso Duarte. Em 1960, também nas Iniciativas Editoriais, é publicado o volume póstumo Lápides e outros poemas, também organizado por Carlos de Oliveira e João José Cochofel.
Mas o melhor testemunho da maneira de ser de Carlos de Oliveira para com os amigos é dado por Manuel da Fonseca, no prefácio à 9ª edição de O Fogo e as Cinzas, depois reproduzido nas edições seguintes:
“Breves meses vividos em Santiago, ao voltar a Lisboa, estávamos nos primeiros dias do já distante Outono de 53, aguardava-me esta surpresa: um livro de contos acabado e pronto a entrar no prelo.
O livro é este, este O Fogo e as Cinzas. Devo-o a Carlos de Oliveira.
No seu modo peculiar de fugir a agradecimentos, ao pôr-me diante do facto, Carlos de Oliveira logo o minimizou, descrevendo-o, seco e breve, como originado por um ocasional acontecimento. Limitara-se a deixar correr.”
…
“Aí estavam, pois, os contos – eis o seu gesto, delicado, sóbrio. E, com o leve, vago sorriso de quem compreende e desculpa desvios de entendimento, insistia: editor não faltava, o José Cardoso Pires abriria um espaço na colecção das “3 Abelhas”, que mais era preciso? Lesse-os, ordenasse-os, arranjasse-lhes um título.”
