CARLOS DE OLIVEIRA – BIOGRAFIA – III – A PAISAGEM E O ESCRITOR – por João Machado

 

Carlos de Oliveira desenvolve desde cedo sentimentos de solidariedade para com as pessoas oprimidas. Em Micropaisagem, texto escrito em 1969, o ano seguinte ao da publicação do livro de poemas com o mesmo nome, e incluído no Aprendiz de Feiticeiro, diz a dada altura:

“2) Meu pai era médico de aldeia, uma aldeia pobríssima: Nossa Senhora das Febres. Lagoas pantanosas, desolação, calcário, areia. Cresci cercado pela grande pobreza dos camponeses, por uma mortalidade infantil enorme, uma emigração espantosa. Natural portanto que tudo isso me tenha tocado (melhor tatuado). O lado social e o outro, porque há outro também, das minhas narrativas ou poemas publicados (quatro romances juvenis e alguns livros de poesia), nasceu desse ambiente quase lunar habitado por homens e visto, aqui para nós, com pouca distanciação. A matéria de alguns poemas da “Micropaisagem”, talvez mais decantada, mais indirecta, é a mesma. O que não quer dizer evidentemente que tenha desaproveitado experiências diferentes (ou parecidas) que a vida e a cultura me proporcionaram depois.”

A Gândara é a região que vai da Serra da Boa Viagem e dos campos de Coimbra até à Bairrada e à Ria de Aveiro, com as dunas do litoral a oeste. É uma região de transição entre o litoral e o interior, formada sobretudo por terrenos arenosos, como resultado do recuo do oceano Atlântico.

Gândara, segundo José Pedro Machado, é um termo com origem pré-latina, que significa charneca, terra areosa, terreno inculto, e também região, terra chernequenha. É um topónimo que se encontra noutras regiões de Portugal, para além da Beira Litoral, e na Galiza.  Esta, no Centro de Portugal, estende-se pelos concelhos de Cantanhede, Mira, Vagos, Figueira da Foz e Montemor-o-Velho. A região em que Carlos de Oliveira cresceu e que serve de paisagem aos seus romances conserva uma identidade própria, mesmo ao nível da fauna e da flora. São grandes as modificações que nela foram introduzidas pela acção do homem, que, com dificuldade, a transformou de uma zona árida numa zona de economia agro-pecuária, tendo passado de uma densidade populacional muito baixa, ainda no século XVII, para, em cerca de 200 anos, atingir uma densidade que terá chegado a rondar os 100 habitantes/Km2, segundo Fernanda Maria da Silva Delgado Cravidão (ver http://hdl.handle.net/10316/630), o que estará na raiz de grandes desequilíbrios sociais e económicos.

No ano em que aparece a 1ª edição de Casa na Duna (1943), saem também Fanga, quarto romance de Alves Redol, Cerromaior de Manuel da Fonseca e Fogo na Noite Escura, de Fernando Namora. Sai também Volfrâmio, de Aquilino Ribeiro. Era sem dúvida um movimento literário já em pleno, o neo-realismo. Estes escritores não se prendem na descrição das ocupações, usos e costumes de cada uma das regiões, não são escritores regionalistas. Assentam o enredo dos seus romances nos mecanismos sociais e económicos que controlam a vida das pessoas, e as condicionam no seu dia a dia, e ao longo da vida. Utilizam imagens e símbolos com significados e implicações que transcendem as histórias que contam, dando-lhes uma dimensão universal. Carlos de Oliveira, em Casa na Duna, conta a decadência dos Paulos, proprietários agrícolas, que não conseguem acompanhar o processo de crescimento capitalista, que implica uma racionalização da produção agrícola, com investimentos na mecanização do processo produtivo. Descreve as consequências que daí advêm, não só para a família proprietária, mas também para os que dela dependem.

Vital Moreira, em Paisagem Povoada: A Gândara na Obra de Carlos de Oliveira, trabalho inserido no volume da Vértice nº 450/1, de 1982, de homenagem ao escritor, e mais tarde objecto de publicação separada, analisa detalhadamente como o escritor inseriu a Gândara na sua obra. Refere que boa parte dos topónimos que aparecem nos romances são nomes reais, embora na ficção ocupem situações geográficas diferentes das verdadeiras. E menciona o caso do nome literário Corrocovo, que designa a povoação onde decorre a acção de Casa na Duna, e que aparece também em Alcateia, que Carlos de Oliveira terá criado a partir de Corgo Covo, nome de um lugar do concelho de Cantanhede. Corgos, a vila que aparece nos romances, descrita de modo a aparecer como a versão literária de Cantanhede, é na realidade um local perto de Febres, a aldeia onde passou a infância.

Alexandre Pinheiro Torres, em Uma Versão Desconhecida de Turismo, texto também incluído no Volume 450/1, da Vértice, ao analisar as alterações que Carlos de Oliveira faz à versão inicial do livro, a do Novo Cancioneiro, de 1942, para incluir na versão que foi publicada em 1976, em Trabalho Poético, assinala que no poema I da segunda parte, intitulada Gândara, se limitou a retirar um ponto de exclamação e um travessão. Ficou assim:

I

Gândara sem uma ruga de vento

Sol e marasmo.

Silêncio feito de troncos

e de pasmo.

Campos, pinheiros e campos

quietos. Tanto,

o sol parado

encheu-me os olhos de espanto.

 

É significativo que tenha introduzido tão poucas alterações, pois, como diz Rosa Maria Martelo, em A Construção do Mundo na Poesia de Carlos de Oliveira, para ele “… Reeditar significa quase sempre reescrever, e reescrever significa inscrever no texto um outro momento de escrita, outro entendimento do mundo, outras opções estético-literárias que não as iniciais. Por outro lado, reescrever é também apagar, subtrair aos olhos do leitor o que o autor deixou de considerar como seu…”.


Este texto foi publicado anteriormente em Vidas Lusófonas, sítio na internet criado por Fernando Correia da Silva.

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