Quantas, quantos vivemos no sistema de Poder, mas não somos dele, somos olhados e tratados como marginais e loucos pelas maiorias vítimas dele e pelas elites privilegiadas que o servem. Dizem-nos e tratam-nos assim, porque sabem que, embora poucos em número, somos os únicos seres humanos verdadeiramente fecundos, ao modo do fermento na massa, do sal na comida e na sociedade, da luz na treva, da sentinela na cidade. Por isso, mulheres e homens que, mesmo calados e não participativos nas iniciativas do sistema de Poder, incomodamos e de que maneira! Muito pior ainda, se intervimos-escrevemos-falamos. Somos vivos sinais de contradição que, com Jesus terceiro milénio, pomos a nu as ambições e os perversos projectos que andam escondidos no coração de muitas, muitos.
Vem isto a propósito das próximas eleições autárquicas, marcadas para o último domingo deste mês de setembro. Como é público e notório, são muitos milhares os candidatos, elas e eles, que sonham vir a ser caciques das populações das freguesias e dos concelhos. Cabe-nos, como seres humanos e povos que vivemos no sistema de Poder mas não somos dele, fazer orelhas moucas a toda essa sua asquerosa propaganda e jamais delegarmos nas mãos deles os nossos destinos, antes assumirmo-los nas nossas próprias mãos, custe o que custar. É de resto o que significa etimologicamente ‘autarquia’. Uma palavra resultante de duas palavras gregas, ‘autós’ e ‘arkô’ e que, juntas, significam gerir por nós mesmos os nossos destinos, em vez de os delegarmos-confiarmos a estranhos.
O sistema de Poder em que somos forçados a viver tem, porém, o perverso condão de nos encandear e cegar. É intrinsecamente mau; mascara-se de bom. É ‘lobo’; mascara-se de ‘cordeiro’. É ‘mercenário’; mascara-se de ‘pastor’. É ‘cizânia’; mascara-se de ‘trigo’. E quem vive nele e aceita ser dele sempre toma por realidade a máscara com que sempre se apresenta. O desastre é então completo e total. Porque só chegamos a ser plena e integralmente humanos, quando nos assumimos e aos nossos destinos na História, como se Deus que nunca ninguém viu, não existisse.
Não entende assim a esmagadora maioria dos seres humanos e dos povos, ofuscados que vivem pelo holofote do sistema de Poder e suas elites privilegiadas, e é levado por elas a delegar os seus destinos na mão de estranhos. Em vez de os assumir nas próprias mãos. As urnas de voto tornam-se então urnas funerárias. E só não cheiram mal os locais onde elas se encontram no dia de votar, porque o suicídio de quem lá se apresenta a votar é incruento. Não mata o corpo de quem vota. Matasse, e as populações abriam os olhos. Mata-lhes a alma que se não vê. Precisamente a morte que mais havemos de temer, no sábio alertar de Jesus histórico. ‘Não temais os que matam o corpo – adverte – e não podem matar a alma. Temei, sim, Aquilo que, depois de matar o corpo, ainda pode matar a alma’.
Para nosso mal e mal do planeta Terra, dois mil anos depois da sua morte crucificada, ainda não vamos por Jesus histórico, o grande desconhecido dos seres humanos e dos povos. Em vez de praticarmos o Vento e a Liberdade – a via ‘porta estreita’ que é Assumirmos os nossos destinos – cedemos à Preguiça ou lei do menor esforço e escolhemos a via ‘porta larga’ que é Delegarmos a estranhos os nossos destinos. Esquecemos que somos nascidos de mulher, por isso, fragilidade; não somos nascidos do sistema de Poder, ainda que vivamos nele. E, como nascidos de mulher, cabe-nos, a partir do momento em que se dá o corte do cordão umbilical e passamos a respirar e a alimentar-nos por nós, crescer progressivamente de dentro para fora em liberdade-responsabilidade e vivermos religados uns aos outros ao modo dos vasos comunicantes.
É por isso uma tontice política de todo o tamanho chegamos à maioridade legal e corrermos a delegar em estranhos, com tudo de caciques mascarados de bons, os nossos destinos, quando nos cumpre assumi-los com inteligência cordial e sabedoria. Quando, pois, fazemos orelhas moucas aos discursos das elites privilegiadas do Poder e deixamos sem um único voto as urnas delas e dele?!
TÍTULOS DOS TEMAS DAS OUTRAS PASTAS:
1 Poema de cada vez
O MEU OLHAR
Alberto Caeiro
Destaque
Lorenzo Prezzi
POLÓNIA: PADRES, ABUSOS E BEATIFICAÇÕES
Documentos + extensos
Ivone Gebara /IHU
AS BRAVAS MULHERES AFEGÃS CONTRA O OBSCURANTISMO DO MUNDO
Entrevistas
Com Branko Milanović
‘HOJE, ESTAMOS NA PRESENÇA DE UMA ELITE QUE SE AUTOPERPETUA NO TEMPO’
Outros TEXTOS de interesse
Alicia Bárcena
SIM, A ECONOMIA CRESCERÁ NA AMÉRICA LATINA
TEXTOS de A. Pedro Ribeiro
O MAIS LOUCO DOS POETAS
TEXTOS Frei Betto, Teólogo
HOMENAGEM A PAULO FREIRE EM SEU CENTENÁRIO DE NASCIMENTO
TEXTOS de L. Boff, Teólogo
O PADRE JÚLIO LANCELLOTTI: O GANDHI DO BRASIL


