TOMGRAM – RAJAN MENON. GUERRAS DE CONSEQUÊNCIAS IMPREVISTAS – TENHA CUIDADO COM O QUE DESEJA. AS VERDADEIRAS LIÇÕES DA GUERRA

 

 

Rajan Menon, Wars of Unintended Consequences

Tomgram, 14 de Setembro de 2021

Tenha Cuidado com o que Deseja. As verdadeiras lições da guerra do Afeganistão, por Rajan Menon

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

TomDispatch começou com a Guerra do Afeganistão – com a sensação que tive desde os seus primeiros momentos de que era um empreendimento da primeira ordem muito mal iniciado. Aqui está, por exemplo, um comentário que escrevi sobre essa catástrofe em Dezembro de 2002, pouco mais de um ano após os EUA terem começado a bombardear e depois invadir aquele país:

“Esta semana, dois soldados americanos feridos e um morto chamaram à atenção, embora não muita, para a  situação americana no Afeganistão. Eric Margolis do Sun de Toronto lembra-nos que os soviéticos também triunfaram inicialmente no Afeganistão, instalaram um governo fantoche, declararam a libertação das mulheres afegãs, e fizeram propaganda semelhante sobre as suas boas ações. Onde a analogia se quebra, é claro, é que já não há outra superpotência para financiar e armar um movimento de resistência contra um Afeganistão americano. Mesmo assim, declarámos a vitória muito cedo e não regressámos a casa. É provável que venha a revelar-se uma combinação perigosa. (A palavra a ter em conta na imprensa americana é “atoleiro”. Quando vir isso e o Afeganistão aparecer nos mesmos artigos, saberá que sabemos que estamos em apuros)”.

Infelizmente, no que diz respeito aos meios de comunicação americanos, a palavra atoleiro que vem do tempo da guerra do Vietname nunca apareceu nesta guerra com tanta gravidade, mesmo quando a Guerra do Afeganistão se prolongava, ano após ano, de uma forma cada vez mais atribulada. De certa forma, num planeta sem outra superpotência, a América foi deixada a desempenhar dois  papéis tanto o papel da União Soviética durante a sua desastrosa guerra dos anos 80 no Afeganistão, como o papel dos Estados Unidos nesses mesmos anos, quando se empenhou tanto em criar uma equipa  de combatentes islamitas extremistas para derrubar os russos. Por outras palavras, num mundo de uma só  grande potência, todos os papéis imperiais eram nossos e isso não podia ser, de facto,  mais claro agora em que   fomos batidos de uma forma que, nos seus momentos finais no aeroporto de Cabul, se revelou demasiado dramática.

Hoje, Rajan Menon, que escreve regularmente em TomDispatch,  analisa as lições que Washington pode agora tirar (mas sem dúvida que não o fará) dessas intermináveis décadas de envolvimento no Afeganistão. Tom

 

Careful What You Wish For. The True Lessons of the Afghan War (Tenha Cuidado com o que Deseja. As verdadeiras lições da guerra do Afeganistão

por RAJAN MENON

 

Os desacordos sobre como conduzir o êxodo americano do Afeganistão mantiveram os especialistas ocupados nas últimas semanas, embora não houvesse muito a dizer que já  não tivesse sido dito antes. Para alguns deles, porém, isso era irrelevante. Tendo supervisionado ou promovido a fracassada Guerra do Afeganistão, ao mesmo tempo que brandiam “métricas” de sucesso variadas, estavam empenhados claramente num salva-vidas de reputação.

Não surpreendentemente, todo o espetáculo tem sido cansativo e improdutivo. É melhor dedicar tempo e energia a extrair da guerra do Afeganistão as maiores lições que possível.

Aqui estão quatro lições que vale a pena considerar.

Lição Um: Quando fazes política, pensa seriamente em possíveis consequências imprevistas

Os arquitetos da política americana em relação ao Afeganistão desde o final dos anos 70 são responsáveis pelas catástrofes que aí ocorreram porque não podiam, ou não queriam, olhar para além dos seus próprios  narizes. Como resultado, as suas políticas viraram-se contra eles com consequências drásticas. É necessário algum enquadramento histórico para compreender porquê e como.

Vamos começar por um outro país e numa outra altura. Consideremos a decisão da liderança da União Soviética de Dezembro de 1979 de enviar o Exército Vermelho para salvar o Partido Democrático Popular Marxista e pró-soviético do Afeganistão (PDPA) no poder. Tendo tomado o controlo desse país no ano anterior, o PDPA rapidamente pediu  ajuda. Ao centralizar o seu poder na capital afegã, Cabul (nunca uma boa forma de governar aquela terra), e procurando modernizar a sociedade a uma velocidade vertiginosa – através, entre outras coisas, da promoção da educação e do papel da mulher na sociedade  – tinha provocado uma insurreição islâmica que se espalhou rapidamente. Uma vez que as tropas soviéticas se juntaram à luta, os Estados Unidos, acompanhados pela Arábia Saudita, Egipto, Paquistão e mesmo pela China, começariam a financiar, armar e treinar os mujahidin, uma coleção de grupos islâmicos empenhados em fazer a guerra santa, a jihad.

A decisão de os armar preparou o palco para muito do que aconteceu no Afeganistão desde então, especialmente porque Washington deu carta branca ao Paquistão para decidir quais dos grupos jihadistas seriam armados, deixando à poderosa Inter-Services Intelligence Agency daquele país  o poder de assumir  as rédeas do processo. A ISI favoreceu os grupos de mujahidines mais radicais, calculando que um Afeganistão governado pelo Islamismo forneceria ao Paquistão “profundidade estratégica”, pondo fim à influência da Índia naquele país.

A Índia tinha de facto laços estreitos com o PDPA, bem como com o anterior governo de Mohammed Daoud, que tinha derrubado o rei Zahir Shah, seu primo, em 1973. Os partidos islamitas paquistaneses, especialmente os Jama’at-i-Islami, que tinham estado a fazer proselitismo entre os milhões de refugiados afegãos então no Paquistão, juntamente com os mais fundamentalistas dos grupos islamitas afegãos exilados, também ajudaram a recrutar combatentes para a guerra contra as tropas soviéticas.

De 1980 até 1989, quando o derrotado Exército Vermelho finalmente partiu do Afeganistão, a equipa de política externa de Washington concentrou-se, de uma maneira unilateral, na sua expulsão, armando esses combatentes  anti-soviéticos. Uma das razões para tal era uma teoria absurda de que a entrada soviética no Afeganistão era um passo inicial para o objetivo final de Moscovo: a conquista do Golfo Pérsico, rico em petróleo.  Os criadores  desta fantasia apocalíptica, nomeadamente o falcão conselheiro de segurança nacional do Presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, pareciam nem sequer se ter dado ao trabalho de ler um mapa do terreno entre o Afeganistão e o Golfo. Teriam mostrado que entre os obstáculos que aguardavam as forças russas que se dirigiam para o Afeganistão lá se encontrava a cordilheira de Zagros, com 1 500 kms  de comprimento e 4 mil metros de  altura.

Envolvidos num frenesim movido pela Guerra Fria e ansiosos por atingir os soviéticos, Brzezinski e outros de mente semelhante não pensaram numa questão crítica: O que aconteceria se os soviéticos fossem finalmente expulsos e os mujahidins ganhassem o controlo do Afeganistão? Esse lapso de julgamento e falta de previsão foi apenas o início do que provou ser uma cadeia de erros.

Apesar de o governo do PDPA ter sobrevivido à retirada  do Exército Vermelho, o colapso da União Soviética em finais de 1991 provou ser uma sentença de morte para os seus aliados afegãos. Em vez de formar um governo de unidade, porém, os mujahedines voltaram-se prontamente uns contra os outros. Seguiu-se uma cruel guerra civil, colocando grupos mujahedines  Pashtun contra os seus homólogos tajiques e usbeques, tendo Cabul como prémio a alcançar. Os combates destruíram grande parte dos bairros ocidentais e meridionais daquela cidade, matando cerca de  25.000 civis, e forçando 500.000 deles, quase um terço da população, a fugir. Assim,  os afegãos ficaram de tal modo cansados pelo caos e pela sangria que muitos ficaram aliviados quando os Talibãs, eles próprios antigos participantes na jihad anti-soviética, surgiram em 1994, estabeleceram-se em Cabul em 1996, e comprometeram-se a restabelecer a ordem.

Alguns dos líderes talibãs e dos seus aliados, que mais tarde fariam parte da lista dos mais procurados pelos Estados Unidos,  tinham, de facto, sido financiados pela CIA para combater o Exército Vermelho, incluindo Jalaluddin Haqqani, fundador da agora infame Rede Haqqani, e o notoriamente cruel Gulbuddin Hekmatyar, líder do Hezb-e-Islami, sem dúvida o mais extremista dos grupos mujahedines  que está agora a negociar com os Talibãs, talvez a procurar um lugar no seu novo governo.

As ligações de Osama Bin Laden com o Afeganistão também podem ser rastreadas até à guerra antissoviética. Ele alcançou a fama que tinha graças ao seu papel naquela jihad apoiada pelos americanos e, juntamente com outros árabes envolvidos, fundou a Al-Qaeda em 1988. Mais tarde, fugiu para o Sudão, mas depois de funcionários americanos terem exigido a sua expulsão, mudou-se, em 1996, regressando ao Afeganistão, um refúgio natural, dada a fama que lá tinha.

Embora os Talibãs, ao contrário da al-Qaeda, nunca tenham tido  uma agenda islamita transnacional, não puderam negar-lhe ajuda  – e não apenas por causa do seu cachet. Um dos princípios principais do Pashtunwali, o código social Pashtun sob o  qual viviam, era e é o dever de proporcionar refúgio (nanawati) a quem o solicite. Mullah Mohammad Omar, o líder supremo dos Talibãs, ficou cada vez mais perturbado com as mensagens incendiárias de Bin Laden, proclamando “um dever individual para cada muçulmano” de matar americanos, incluindo civis, e implora-lhe pessoalmente que parasse de difundir essas mensagens, mas em vão. Os talibãs vergaram-se perante ele.

Agora, avancemos rapidamente umas duas décadas. Os líderes americanos certamente não criaram a província islâmica do Estado do Khorasan – (Islamic State Khorasan (IS-K)), uma filial do principal Estado islâmico – cujos bombistas suicidas mataram 170 pessoas no aeroporto de Cabul no dia 26 de Agosto, 13 das quais  eram tropas americanas. No entanto, o IS-K e as suas filiais formaram-se em parte da evolução ideológica de vários extremistas, incluindo muitos comandantes talibãs, que tinham combatido os soviéticos. Mais tarde, inspirados, especialmente após a invasão do Iraque pelos EUA em 2003, para continuar a jihad, ansiaram por algo mais arrojado e ambicioso do que a versão dos Talibãs, que estava confinada ao Afeganistão.

Não deveria ter sido necessária muita clarividência nos anos 80 para compreender que o financiamento de uma insurreição islamita anti-soviética poderia ter consequências perigosas a longo prazo. Afinal de contas, os mujahedines não eram muito reservados sobre o tipo de sistema político e de sociedade que pretendiam para o seu país.

Lição Dois: Cuidado com o Orgulho Esmagador Produzido pela Posse de UM Poder Global Inigualável

A ideia de que os EUA poderiam derrubar os Talibãs e criar um Estado e uma sociedade novos no Afeganistão era muito desfasada, considerando a história do país. Mas depois de a União Soviética ter começado a vacilar e eventualmente ter entrado em colapso e de a Guerra Fria ter sido ganha, Washington estava tonta de otimismo. Relembrem-se  os peões daqueles anos para “o momento unipolar” e “o fim da história“. Éramos o Número Um, o que significava que as possibilidades, incluindo a de refazer países inteiros, eram ilimitadas.

A resposta aos ataques do 11 de Setembro não foi então simplesmente uma questão de choque e medo. Apenas uma pessoa em Washington insistiu na reflexão e na humildade naquele momento. A 14 de Setembro de 2001, enquanto o Congresso se preparava para autorizar uma guerra contra a Al-Qaeda e seus aliados (os Talibãs), a Representante Barbara Lee (D-CA) proferiu um discurso presciente. “Eu sei”, disse ela, “que esta resolução vai passar, embora todos saibamos que o presidente pode travar uma guerra mesmo sem ela”. Contudo… vamos recuar por um momento… e refletir sobre as implicações das nossas ações de hoje, para que isto não fique fora de controlo”.

No calor desse momento, num país que se tinha tornado uma potência militar incomparável, ninguém se preocupou em considerar respostas alternativas aos ataques da Al-Qaeda.  Lee  seria a única  a votar contra essa Autorização de Utilização da Força Militar. Posteriormente, ela receberia emails odiosos e até mesmo ameaças de morte.

Washington estava tão confiante que rejeitou a oferta dos Talibãs de discutir a rendição de Bin Laden a um terceiro país se os EUA parassem com os bombardeamentos e fornecessem provas da sua responsabilidade pelo 11 de Setembro. O Secretário de Estado Donald Rumsfeld também se recusou a considerar as tentativas de liderança dos Talibãs para negociar uma rendição e amnistia. A administração Bush tratou os Taliban e a al-Qaeda como idênticos e excluiu os primeiros das conversações de Bona de Dezembro de 2001 que tinha convocado para formar um novo governo afegão. À medida que isso acontecia, os Talibãs, nunca tendo recebido o memorando de várias eminências que o pronunciaram como morto, rapidamente se reagruparam e reacenderam a sua insurreição.

Os Estados Unidos enfrentaram então duas escolhas, nenhuma das quais era boa. Os seus altos funcionários poderiam ter decidido que o governo que tinham criado em Cabul não sobreviveria e simplesmente retirariam as suas forças. Ou poderiam ter ficado presos à construção da nação e periodicamente “surgiriam” tropas no país na esperança de que um governo e um exército viáveis viessem a emergir. Eles escolheram esta última via.  Nenhum presidente ou comandante militar superior queria ser acusado de “perder” o Afeganistão ou a “guerra  contra o terrorismo”, pelo que o bastão foi passado de um comandante para o outro e de uma administração para outra, cada uma afirmando ter feito progressos significativos. O resultado: um fiasco de 20 anos, de 2,3 milhões de milhões de dólares, que terminou num caos no aeroporto de Cabul.

Terceira lição: Não se convençam de que os opositores  cujos valores não se ajustam aos vossos não serão apoiados localmente.

Os relatórios sobre as crenças retrógradas e práticas impiedosas dos Talibãs ajudaram a fomentar a crença de que  um tal grupo, em si mesmo supostamente uma criação paquistanesa, poderia ser derrotado porque os afegãos falavam dele com desprezo. Além disso, a maior parte das negociações que os oficiais americanos e os altos funcionários militares superiores tinham feito foi  com homens e mulheres afegãos educados e urbanos, e isso reforçou a   sua opinião de que os Taliban não tinham legitimidade enquanto o governo apoiado pelos EUA gozava de  uma confiança pública crescente.

Se os Talibãs  tivessem sido verdadeiramente um transplante estrangeiro, contudo, nunca poderiam ter continuado a lutar, a morrer e a recrutar novos membros durante quase duas décadas em oposição a um governo e um exército apoiados pela única superpotência mundial. Os Talibãs certamente inspiraram medo e cometeram numerosos atos de brutalidade e horror, mas os pobres Pashtuns rurais, a sua base social, não os viam como estranhos com crenças e costumes estranhos, mas como parte do tecido social local.

Mullah Omar, o primeiro líder supremo dos Talibãs, nasceu na província de Kandahar e foi criado na província de Uruzgun. O seu pai, Moulavi Ghulam Nabi, tinha sido respeitado localmente pelo seu saber. Omar tornou-se o líder da tribo Hotaki, parte de uma das duas principais confederações tribais dos Pashtun, os Ghilzai, que era um pilar dos Talibãs.  Juntou-se à guerra contra a ocupação soviética em 1979, regressando a Kandahar quando esta terminou, onde dirigia uma madrassa, ou escola religiosa. Após a tomada do poder pelos Talibãs em 1996, embora sendo um líder, permaneceu em Kandahar, raramente visitando a capital.

O governo de Cabul e os seus patronos americanos podem ter inadvertidamente ajudado a causa dos Talibãs. Quanto mais os afegãos comuns suportavam uma situação de corrupção desenfreada do sistema criado pelos americanos e a maldade das forças paramilitares, milícias e senhores da guerra em que os militares americanos confiavam, mais bem sucedidos eram os revoltados  a reafirmarem-se  como os verdadeiros nacionalistas do país, resistindo aos ocupantes estrangeiros e aos seus colaboradores. Não foi por nada que os Talibãs comparavam os presidentes do Afeganistão apoiados pelos EUA a Shah Shuja, um monarca afegão exilado que os britânicos invasores colocaram no trono, desencadeando uma revolta armada que durou de 1839 a 1842 e terminou com as tropas britânicas a sofrer uma derrota catastrófica.

Mas quem precisava de história? Certamente que não a maior potência de sempre.

Lição Quatro: Cuidado com os Generais, com os Empresários ligados à produção e venda de armas, Consultores, e Conselheiros que Emitem Constantemente Relatórios Entusiásticos Sobre as Zonas de Guerra

Os gestores de guerras e de projetos económicos adquirem um interesse particular em anunciar os seus “sucessos” (mesmo quando sabem muito bem que na realidade são fracassos). Os generais preocupam-se com a sua reputação profissional, os construtores de nações com a perda de contratos governamentais lucrativos.

Altos comandantes americanos garantiram repetidamente ao presidente e ao Congresso que o exército afegão estava a tornar-se uma força de combate completamente profissional, mesmo quando sabiam bem mais que isso. (Se duvidar disto, basta ler a análise mordaz do tenente-coronel aposentado Daniel Davis, que fez duas viagens de serviço ao Afeganistão).

Os Documentos do Repórter Craig Whitlock sobre o Afeganistão – baseados num conjunto de documentos outrora privados, bem como em entrevistas extensivas com numerosos oficiais americanos – contêm exemplos intermináveis de uma conversa tão feliz. Após 19 meses de serviço à frente das forças norte-americanas e aliadas no Afeganistão, o General John Allen declarou que o exército afegão poderia aguentar-se por si, acrescentando que “isto é o que parece vencer “. O General John Campbell, que ocupou a mesma posição durante o último trimestre de 2015, elogiou essas tropas como uma força “capaz” e “moderna, profissional”. Os generais americanos falavam constantemente sobre as  dificuldades a serem vencidas.

Enormes volumes  de dados foram citados para referir o progresso social e económico produzido pela ajuda americana. Não importava nada que os relatórios do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução Afegã questionassem a prontidão e as capacidades do exército afegão, enquanto descobriam informações sobre escolas e hospitais financiados mas nunca construídos, ou construídos mas nunca utilizados, ou “inseguros“, “literalmente desmoronados”, ou sobrecarregados com custos operacionais insustentáveis. Somas assombrosas de ajuda americana também foram perdidas devido à corrupção sistémica. Os abastecimentos de combustível financiados pelos EUA foram tipicamente roubados em “grande escala ” e vendidos no mercado negro.

Os comandantes afegãos enchiam as folhas de salários com milhares de “soldados fantasmas“, embolsando o dinheiro, como o faziam  muitas vezes com  os salários dos soldados reais a quem não pagavam.  A ajuda económica que o comandante-general americano David Petraeus desejaria ver aumentada,  porque considerava que esta era essencial para a vitória, alimentava a aceitação de subornos por parte dos oficiais que gerem os serviços básicos. Isso, por sua vez, só contribuiu para aumentar a desconfiança dos cidadãos comuns em relação ao governo apoiado pelos EUA.

Os responsáveis políticos aprenderam algumas lições  com a Guerra do Afeganistão? O Presidente Biden declarou o fim das “guerras infinitas” deste país e da sua ideia de construção de uma  nação (embora não da sua estratégia anti-terrorismo impulsionada por ataques com drones e ataques de comandos). A verdadeira mudança, porém, não acontecerá até que o vasto establishment da segurança nacional e o complexo militar-industrial alimentado pelo compromisso pós 11 de Setembro com a guerra contra o terrorismo, a mudança de regime, e a ideia de construção de  nações  cheguem a uma conclusão semelhante. E só um otimista selvagem poderia acreditar que isso seja possível. .

Aqui está, então, a lição mais simples de todas: por mais poderoso que seja o seu país, os seus desejos não são necessariamente os desejos do mundo e provavelmente compreende  muito menos sobre isso do que pensa.

Copyright 2021 Rajan Menon

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