Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 5ª parte – A batalha nos Estados Unidos: que desenlace da luta entre democratas e republicanos? Prólogo – 5.1. A estranha morte da democracia americana. Por Martin Wolf

Nota de editor:

A batalha em curso nos Estados Unidos mantém em suspense o resultado que sairá da luta entre os apoiam os planos de Biden (a maioria do partido democrata) e aqueles que os querem ver fracassar (os republicanos e alguns democratas). De entre estes últimos, salientam-se Dianne Feinstein, Kyrsten Sinema e Joe Manchin. Tendo em conta a margem estreita de que goza Joe Biden, corre-se o risco do programa de Biden-Sanders ficar prisioneiro destes senadores altamente comprometidos com o capital financeiro, com Wall Street, pelo que iremos assistir em Washington a uma intensa batalha a dois níveis, entre Republicanos e Democratas e entre Democratas Progressistas e Democratas conservadores. A estes senadores e fora do plano da decisão política juntam-se as manobras do establishment político conservador dos democratas, entre os quais estão homens de peso como Larry Summers, Jason Furman, homens que foram pilares das políticas de compromisso desenhadas por Clinton e Obama e que eleitoralmente levaram à vitória de Trump e dificultaram a vitória de Joe Biden.

Iremos pois assistir a uma batalha de grande importância para os Estados Unidos e para o mundo, batalha esta que procuraremos acompanhar de perto.

Dado o clima de incerteza existente neste momento quanto ao desfecho dessa batalha, com esta 5ª parte manteremos esta série em aberto para acolher notícias sobre a evolução que ocorrerá.

Em pano de fundo estão as interrogações que se colocam quanto à manutenção do atual modelo político existente nos Estados Unidos e seu impacto em todo o mundo, de que se faz eco o texto de Martin Wolf “A estranha morte da democracia americana”. De facto, as movimentações dos republicanos para manobrarem os resultados eleitorais a seu favor (desde logo nas eleições intercalares que se aproximam) e a aparente incapacidade de os democratas lhes fazerem frente prenunciam um regresso do trumpismo (com ou sem Trump) ao poder concretizando uma efetiva alteração do modelo político do país com os republicanos a apoderarem-se de todos os níveis do poder (federal, estadual, justiça, segurança, defesa…).

 


 

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

 

5.1. A estranha morte da democracia americana

Aproxima-se uma crise constitucional à medida que Trump aperta o seu controlo sobre os republicanos antes de 2024

 

 Por Martin Wolf

Publicado por  em 28 de Setembro de 2021 (The Stange Death of American Democracy, ver aqui)

Republicado por  em 29 de Setembro de 2021 (ver aqui)

 

James Ferguson

 

“Um ‘Cesarismo’ americano encarnou agora”

Escrevi isto em Março de 2016, ainda antes de Donald Trump ser designado como candidato Republicano à presidência dos EUA.

Hoje, a transformação da república democrática em autocracia avançou.

Em 2024 poderá tornar-se irreversível.

Se isto acontecer realmente, mudará quase tudo em todo o mundo.

Ninguém delineou o perigo de forma mais convincente do que Robert Kagan.

O seu argumento pode ser reduzido a dois elementos principais.

Primeiro, o partido republicano é definido não pela ideologia, mas pela sua lealdade a Trump.

Em segundo lugar, o movimento amador do “parar o roubo” das últimas eleições transformou-se agora num projecto bem avançado.

Uma parte deste projecto consiste em destituir os funcionários que travaram o esforço de Trump para inverter os resultados em 2020.

Mas o seu principal objectivo é transferir a responsabilidade pela decisão dos resultados eleitorais para as legislaturas [estaduais] controladas pelos republicanos.

Assim, se a saúde o permitir, Trump será o próximo candidato republicano.

Ele será apoiado por um partido que é agora a sua ferramenta.

Mais importante ainda, nas palavras de David Frum, antigo escritor de discursos de George W Bush, “o que os Estados Unidos não tinham antes de 2020 era um grande movimento nacional disposto a justificar a violência da multidão para reivindicar poder político. Agora tem”.

Isso porque os seus membros acreditam que os seus opositores não são “verdadeiros” americanos.

Uma democracia liberal não pode durar muito se um grande partido acredita que a derrota é ilegítima e deve ser tornada impossível.

Aqui está um líder político que expulsou toda e qualquer pessoa que se lhe oponha de posições de influência no seu partido.

Ele acredita que ele próprio é injustamente perseguido, define a realidade para os seus seguidores e insiste que uma eleição legítima é uma eleição que ele ganha.

Aproxima-se uma crise constitucional.

As eleições de 2024, adverte Kagan, podem trazer o “caos. Imagine semanas de protestos em massa concorrentes em múltiplos estados, enquanto legisladores de ambas os partidos reclamam a vitória e acusam o outro de esforços inconstitucionais para tomar o poder”.

 

Os americanos tornaram-se profundamente cépticos sobre a sua democracia

% de respostas

Inquérito realizado entre 3 de Agosto e 7 de Setembro de 2021 com uma amostra representativa de 2.119 adultos americanos. Não são mostradas as respostas “Sem opinião”. Fonte: SSRS para a CNN. ©FT

 

Supunhamos que Trump é reeleito, legitimamente ou por manipulação.

É necessário supor que a sua abordagem ingénua e incompetente do exercício do poder no seu primeiro mandato não se repetirá.

Deve agora compreender que precisará de lealistas dedicados, de que não haverá falta, para dirigir os departamentos responsáveis pela justiça, segurança interna, impostos, espionagem e defesa.

Ele colocará certamente oficiais pessoalmente leais a si próprio no comando das forças armadas.

Não menos importante, conseguirá que o seu fiel partido republicano, que o será, confirme as pessoas que ele escolher, se tiver a maioria necessária no Senado, como é altamente provável que venha a acontecer.

De igual modo, ele usará a pressão que depois poderá exercer sobre os ricos e influentes para os ter alinhados com ele.

O capitalismo de compadrio entre as probabilidades.

Perguntem aos húngaros que vivem numa “democracia iliberal” sob um homem que é admirado pelos especialistas de direita dos EUA.

“Os americanos – e todos os políticos, salvo um punhado deles – recusaram-se a levar esta possibilidade suficientemente a sério para tentar impedi-la”, observa Kagan.

“Como tem sido frequentemente o caso noutros países onde surgem líderes fascistas, os seus pretensos opositores estão paralisados na confusão e no espanto perante este carismático autoritário”.

 

Um país dividido e desmoralizado

% de respostas que pensam que o país se dirige

 

Basta considerar o que aconteceu durante o golpe de Estado tentado por Trump contra as eleições de 2020 e como os legisladores e apoiantes republicanos se mobilizaram desde então para evitar que alguém importante, sobretudo o próprio Trump, fosse responsabilizado.

Os únicos intervenientes importantes que foram punidos são aqueles que resistiram ou condenaram o golpe.

Os republicanos já atravessaram o seu Rubicão.

Porque é que isto aconteceu?

A resposta é uma mistura de ganância, ambição e raiva num país cada vez mais diversificado e uma economia que não conseguiu dar prosperidade segura a uma grande proporção da população.

Isto criou uma coligação familiar construída sobre o distanciamento em relação às pessoas de fora, glorificando a nação, protegendo os ricos e adorando um grande líder.

Cinquenta e sete por cento dos republicanos consideram que uma má reacção à vacina é mais arriscada do que o próprio Covid-19.

Esta é uma medida de tribalismo.

 

Os americanos mostram profundas divisões partidárias

Fonte: YouGov (Sep 2021). ©FT

 

Pode ainda ser evitado um colapso da democracia liberal nos EUA?

Possivelmente.

Mas não será tão fácil como muitos supõem depois do fracasso da tentativa de Trump de inverter o resultado das eleições de 2020.

Ele está em pleno controlo do seu partido.

Se o ciclo normal da política der aos republicanos o controlo da Câmara e do Senado, ele estará protegido e servido pelo Congresso a partir de 2022.

Ele detém, em princípio, uma grande maioria no Supremo Tribunal.

Os republicanos também controlam todos os ramos de governo em 23 estados, enquanto os democratas controlam apenas 15.

Kagan deposita as suas esperanças numa decisão de um número suficientemente grande de senadores republicanos para aprovar legislação sobre direitos de voto e na recusa do poder judicial em anular tal legislação.

No entanto, mesmo aqueles que odeiam Trump permanecem leais ao partido.

E, como mostra o debate sobre o limite máximo da dívida, eles estão determinados a fazer Biden falhar.

Suponhamos que Trump volte ao poder em 2024, determinado a vingar-se dos seus inimigos, apoiado pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal.

Sim, mesmo isto pode ser apenas um interlúdio.

Trump é velho: a sua morte pode ser o fim do momento autoritário.

Mas nem o sistema eleitoral nem o partido republicano regressarão ao que eram.

Este último é agora um partido radical com uma agenda reaccionária.

Os EUA são a única superpotência democrática.

A sua transformação política em curso tem profundas implicações para as democracias liberais em todo o lado, bem como para a capacidade do mundo de cooperar em tarefas vitais, tais como a gestão dos riscos climáticos.

Em 2016, poder-se-ia ignorar estes perigos.

Hoje em dia, é preciso ser-se cego para o fazer.

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O autor: Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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