Ainda sobre o derrube de estátuas… – “Derrubar não significa construir”. Por Kamel Daoud

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

Derrubar não significa construir

Racismo, antiracismo, auto-de-fé e revisionismo cultural: atenção ao perigo. Superar isso apenas é possível graças a uma pedagogia da memória.

 Por Kamel Daoud

Publicado por , em 21/06/2020 (ver aqui)

 

É necessário ter presente as raízes do auto-de-fé: julgamento, inquisição, acto de fé, penitência pública, execução de heréticos. É preciso lembrá-lo, mais uma vez, para alertar os espíritos: não se queimam livros, não se censuram obras, não se derrubam estátuas unicamente porque se tem razão, mas porque se acredita nisso absolutamente. O que é suficiente para nos enganarmos com entusiasmo e inaugurar de novo tribunais de opinião. Porque, com o grande impulso de antirracismo, o auto-de-fé está de volta. Conhecemo-lo, há algumas décadas, primeiro sob a forma de um fascismo (ou totalitarismo) que queima livros, depois meio século mais tarde sob a forma de um livro (sagrado) que queima o mundo, e hoje faz-se em nome duma causa justa com efeitos nada bons: a da luta contra o racismo que alguns aproveitam para revisitar a literatura e as representações, mas com archotes incendiários e não com a consciência tranquila.

O cronista está entre aqueles que pensam que o racismo é um crime e que um crime necessita ser reparado e ter justiça. Mas ele pensa também, por o ter vivido em casa e por o sofrer ainda sob forma de matilhas ideológicas adversas, que se engana quem pense que construir o futuro é derrubar estátuas do passado e substituí-las pelas suas. Um revisionismo « cultural » em nome da luta antiracista é perigoso. Abre o caminho a radicalismo e empurra a que se julgue os vivos pelo crime dos mortos, alimenta uma radicalidade adversa, muda de medo. O derrube de estátuas, sob os vivas das multidões, não é nunca um momento de serenidade mas sim de perigo: sabemos muitas vezes onde nos leva. E sendo um homem do « sul », nascido entre os entusiasmos sequestrados pelas independências e o espírito « descolonizador, sei de que se podem fabricar confortos e instalações e depois feudalidades.

Ilusões. Tantas razões que fazem hoje que o revisionismo cultural, o auto-de-fé das heranças por vezes ambíguas dos séculos passados, o efeito da multidão e as contra-inquisições pela epiderme provocam um mal-estar. Trata-se, porém, de ilusões que devem ser combatidas. As que fazem pensar que pelo facto de se ter uma determinada cor de pele se está de posse de uma superioridade ou porque se tem uma outra, a da vítima, se está desculpado por qualquer erro e investido de uma grande missão revolucionária. O derrube de estátuas é um momento de ilusão. Leva a pensar que derrubando pedras se fica dispensado de um trabalho comum sobre a memória, de um regresso apaziguado aos erros monstruosos do passado. Leva a pensar que se trata de um acto melhor do que o de queimar um automóvel embora proceda da mesma da mesma miopia juvenil. O derrube de estátuas e o auto-de-fé são sempre um caminho de engano: perpetuam a ideia de que a leitura do passado tem que ser feita pela força. Dessa forma fica-se num círculo fechado. E a única forma de ser bem sucedido é por uma pedagogia da memória.

O debate sobre o racismo é vital. Mas será rapidamente recuperado pelas castas e pelos ódios seletivos se for limitado ao processo do Ocidente. Porque, denunciar também o racismo no « sul » e querer um debate sobre as histórias locais de escravatura, rapidamente se é acusado de querer diluir o crime do Ocidente e de desculpá-lo. E encontramo-nos com palavras de ordem que apelam ao fim do Ocidente onde vivemos e onde, pelo menos, se sonha viver.

Resumindo: derrubar estátuas não significa construir, censurar não significa reler, lutar contra o racismo não significa lutar contra o Ocidente. Porque este lugar, se é culpado de crimes, é também o espaço onde se pode gritar a nossa cólera ou transformar as nossas visões de futuro. É o espaço de uma democracia a aperfeiçoar e não a destruir. Porque noutros lugares, ousemos dizê-lo, o racismo « não existe », mas é preciso viver em democracia para se poder denunciá-lo. Não o esqueçamos. Trata-se de construir um mundo (melhor), não um fim do mundo.

 


O autor: Kamel Daoud [1970-] é um escritor e jornalista argelino. Colaborador habitual do Le Point, New York Times e Le Quotidien d’Oran. Comentando a polémica sobre as agressões sexuais de 2016 na Alemanha (Daoud foi acusado de reciclar «os antigos tópicos orientalistas» e de «alimentar a islamofobia de uma parte cada vez mais importante da população europeia»), Laurent Bouvet considera que «uma certa esquerda, política e intelectual, também na Universidade, se comporta de forma muito complacente com o islamismo e emprega métodos de intimidação e desqualificação contra os que não estão de acordo, utilizando e abusando da palavra “islamofobia”».

 

 

 

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