Carlos Loures – meu amigo e meu irmão por António Gomes Marques

Carlos Loures – meu amigo e meu irmão

por António Gomes Marques

 

   

Era chegado o fim do almoço do que eu apelido de «núcleo duro familiar», para comemoração dos anos do António Pedro, meu filho, que havia completado 44 anos no dia anterior e que só naquele dia foi possível realizar, quando o meu telemóvel toca e verifico que era o Renato, o filho do Carlos e da Helena, que estava a ligar. Achei estranho que naquele momento do dia ele quisesse falar comigo e temi, de imediato, o pior.

A confirmação do que eu temia chegou logo de seguida: «O meu pai faleceu esta manhã».

É verdade que esperava este telefonema, mas desejava que o tempo decorresse por muitos e bons anos antes de ouvir aquela comunicação. Não é menos verdade que, aquando das visitas ao Carlos e à Helena, no momento da despedida, o Carlos, invariavelmente, me (nos) dizia: «Só espero não acordar amanhã».

De facto, o estado de saúde do Carlos vinha a agravar-se de dia para dia há já vários anos, ao ponto de já não ser capaz de se levantar sem ajuda e incapaz de se manter de pé, mesmo que amparado por alguém. A agravar a situação —será cruel dizer isto?— a lucidez, assim como a sua infalível memória, de que muitas vezes me socorria, se mantinham, o que muito contribuía para ele desejar o fim. «Viver assim, não vale a pena», dizia-me, quer quando estávamos juntos, quer pelo telefone. Posso dizer que, com a morte, o Carlos está onde há já tempo queria estar.

Contudo, os projectos, sobretudo de escrita, vinham à conversa com frequência.

De entre os escritores preferidos pelo Carlos estava Max Aub e, um dia, final de 2017 ou início de 2018 —não tenho a memória infalível do Carlos—, disse-me que estava na forja um novo projecto de escrita, a partir de um livro, recheado de um humor negro que o encantava, de Max Aub: «Crímenes ejemplares», e que para a publicação desse seu novo escrito contava com um prefácio escrito por mim. Ao adivinhar que se seguiria a minha objecção, logo acrescentou: «O teu prefácio é parte integrante do meu projecto, não aceito qualquer nega!».

Não fui capaz de objectar fosse o que fosse, mas não deixava de pensar que não me sentia capaz de concretizar a parte que me cabia no novo projecto do Carlos. Fui a correr encomendar o livro, ficando a saber, pelo epílogo de Fernando Valls, que há uma tradução portuguesa de 2001, que não consegui encontrar.

O tempo foi passando, com o Carlos a lembrar-me de vez em quando o compromisso que eu havia assumido, o que me levava logo a pensar que o compromisso foi assumido por ele em meu nome, mas eu respondia-lhe que aguardava o texto dele para dar início ao meu.

O estado de saúde do meu amigo ia-se degradando, do que os seus familiares e amigos mais próximos, como eu, a Célia, a minha mulher, e o Manuel Simões, se iam apercebendo, até que chegou o momento em que o Carlos deixou de abrir o computador por não ser já capaz de escrever nele fosse o que fosse. Os nossos escritos a partir de Max Aub ficaram condenados a não ver a luz do dia. Ah, como eu gostaria de ter levado a cabo tal incumbência, mesmo que, da minha parte,  muito mau pudesse ser o resultado!

Disse-me o Renato que o pai, no dia anterior ao da sua morte, se sentiu muito melhor e voltou a pensar em acabar alguns projectos. Será que este projecto que ele imaginou com a minha participação estava entre os que ele queria concretizar?

Tínhamos outros projectos em comum, que foram sendo adiados e, depois, esquecidos: a adaptação ao teatro de «A Catedral», de Vicente Blasco Ibáñez, e de «Alcateia», de Carlos de Oliveira. A responsabilidade pelo adiamento foi minha, primeiro com a desculpa da minha vida profissional e, depois, pela necessidade de irmos construindo consistentemente o blogue, que foi proposto e desenvolvido pelo Carlos, o seu verdadeiro fundador. Os outros, como a Clara Castilho, o João Machado, o Manuel Simões e eu, fomos seus auxiliares. Mesmo a chamada da maioria dos colaboradores do nosso blogue foi feita pelo Carlos; eu, para além de ir solicitando um texto de vez em quando a um ou outro amigo, apenas convidei o Júlio Marques Mota, hoje um dos mais produtivos de toda a equipa.

Mas não era disto ou da sua obra literária que eu pretendia falar, mas sim do companheiro de luta em prol de um Portugal, no mínimo, mais igual, do abrir de caminhos para possibilitar a «formação cívica de cada indivíduo», como lembra o Manuel Simões, outro companheiro da mesma luta, no seu «adeus comovido» ao Carlos, em texto publicado no blogue no dia 4 de Janeiro. Foi este interesse comum que nos juntou e que nos levou a conviver, praticamente, no dia-a-dia, durante quase 47 anos.

Foi outro companheiro/irmão, o Arsénio Mota, que falou de mim ao Carlos e que me incentivou a ir ao seu encontro. A nossa amizade ganhou consistência, a qual nunca se quebraria durante todos estes anos, na primeira campanha presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho. Durante todos estes anos não me lembro de termos tido alguma divergência de fundo, a não ser haver, às vezes, um pouco mais de radicalismo nas posições do Carlos em relação a uma ou outra questão em que nos empenhámos, o que não significa que não houvesse razão para esse maior radicalismo, senão sempre, pelo menos muitas vezes, o que, com o evoluir da situação política claramente para a direita desde o 25 de Abril, dará mais razão ao Carlos do que a mim.

Para a nossa própria formação, sempre pensámos ser fundamental conhecer outros países e verificar como viviam os seus povos, quais as histórias políticas e culturais desses países, o que nos levou a percorrer meio mundo.

Deste deambular pelo Mundo, muitas histórias há para contar, as quais poderiam encher centenas de páginas, o que não cabe aqui agora; no entanto, não resisto a contar ao leitor um ou outro episódio.

Em Cuba, percorremos de carro, que alugámos, mais de 3.000 quilómetros, viajando por estradas que exigiam de mim, o condutor, uma atenção redobrada, pois a maioria dessas estradas parecia ter sido bombardeada, tais eram as «crateras» com que, quase quilómetro a quilómetro, nos íamos confrontando, ao ponto de, após uma chuvada tropical, cairmos numa delas com um estrondo tal que pensei que o carro já não sairia dali a não ser rebocado por um veículo próprio para o efeito, o que felizmente não aconteceu, graças à qualidade da marca sul coreana e, provavelmente, por ser um carro novo (tinha 30 km quando o levantei no aeroporto de Havana).

Em Santa Clara, o túmulo de Che Guevara tem gravada na parede exterior da entrada, a letras de ferro, a carta de despedida que o Che enviou a Fidel de Castro. Lendo a carta, que eu já conhecia, as lágrimas brotaram dos meus olhos de forma quase incontrolada, o que levou o Carlos, logo que se apercebeu, a aproximar-se de mim, colocando-me uma mão num dos meus ombros, sem proferir qualquer palavra, gesto bastante para que as lágrimas parassem. Mais tarde falámos do episódio, o que me deu a oportunidade de dizer ao Carlos que as lágrimas não eram pelo Che ou pelo seu bárbaro assassinato a mando da CIA, pois ele tinha escolhido voluntariamente o caminho que pretendia seguir, consciente dos perigos de vida que iria correr; as minhas lágrimas eram pelo sonho que a Revolução Cubana tinha ajudado a criar em nós e que nós, perante toda a realidade que víamos no país que visitávamos, tomávamos consciência de que não seria realizado durante toda a nossa vida. Mais uma vez o nosso acordo foi total, pois o Carlos pensava exactamente como eu, não cabendo agora aqui comparar a vida dos cubanos com a deplorável vida dos povos de outros países, a começar pela América Central ou América do Sul.

Em Istambul, 28 de Março de 1989
(Da esquerda para a direita, 1.º plano: Célia, eu, Carlos e Helena. Quando a bailarina poisou a mão no Carlos, a Helena logo colocou a sua mão no ombro do seu Carlitos, como que a avisar a possível concorrência de que o Carlos era dela)

No Egipto, em Luxor, antes do embarque para o cruzeiro no Nilo, havia que almoçar; à mão estava o Sheraton e para lá nos dirigimos. Eu e o Arsénio Mota queríamos almoçar no interior, o Carlos e as nossas companheiras queriam ficar na esplanada, ao ar livre. Democraticamente, tive que respeitar a maioria. (As minhas divergências com o Carlos eram deste tipo).

Eu lembro-me de ter pedido um bife e, pelo que aconteceu, sei que a Helena e o Carlos pediram hamburgueres. Estava eu deliciado com o bife e reparei que a Helena e o Carlos esbracejavam. O que tinha acontecido? As moscas —aos milhões em qualquer sítio em que estivéssemos— tinham optado por disputar os hamburgueres com a Helena e o Carlos, no início a conseguirem dar uma ou duas dentadas no suculento hambúrguer até que tiveram de desistir, não sabendo eu se chegaram a engolir alguma mosca, tal era a quantidade de moscas a assenhorearem-se do «acepipe», deixando-os sem almoço por terem perdido o apetite. Muito nos divertimos à custa da «infelicidade» dos nossos amigos!

A Helena e o Carlos, nas várias viagens, não perdiam a oportunidade de pedir um hambúrguer e eu não poderia deixar de me recordar do que havia acontecido em Luxor e, sempre que o pediam, o que para mim era um horroroso «acepipe», eu logo dizia: «Vejam primeiro se aqui há moscas», o que gerava uma forte gargalhada em todos nós.

Em Abu Simbel, Egipto, há cerca de 30 anos
(Primeiro plano: eu e o António Pedro, meu filho; segundo plano, da esquerda para a direita: Carlos, Helena, Arsénio Mota, Ester Vaz e Célia)

As histórias poderiam continuar, muitas delas relembradas nos nossos encontros em que falávamos das muitas viagens que efectuámos, a maioria por toda a Europa, em algumas delas acompanhados também pela Ester e pelo Arsénio.

Como não poderia deixar de ser, a União Soviética tinha de ser um dos nossos destinos, o que aconteceu com Mikhail Sergeevitch Gorbachev ainda no poder. O ano da visita terá sido no período da Páscoa de 1990 ou 1991, se a memória não me falha (falta-me o Carlos para precisar o dia, o mês e o ano), avançando eu com tal data por me lembrar que Gorbatchev estava a viver os últimos tempos como Secretário-Geral do Partido Comunista da URSS.

Em nós, havia já a consciência de que o chamado socialismo real tinha falhado, mas não queríamos deixar de visitar o império soviético antes da queda que se adivinhava.

A nossa desolação foi total. Visitámos Moscovo, Leninegrado (hoje São Petersburgo) e dois dos países bálticos, Estónia e Letónia, sentindo claramente que estes dois países se preparavam para a separação, como veio a acontecer pouco tempo depois.

Não me vou alongar sobre esta viagem, direi apenas que, há pouco mais de seis anos (Julho e Agosto de 2015), voltámos à Rússia, já não na companhia da Helena e do Carlos por os seus estados de saúde o não permitirem, e a diferença para melhor é avassaladora, sobretudo Moscovo, que da primeira vez que a visitámos encontrámos uma cidade triste, moribunda, e agora a resplandecer de beleza.

Essa viagem pesou muito no Carlos e, talvez por isso, um dos seus últimos projectos consistia em escrever uma carta aos amigos sobre a falência do socialismo.

No regresso de cada viagem sem a companhia destes queridos amigos, havia lugar à descrição do que eu e a Célia havíamos visto e sentido.

Na primeira ida à Turquia, na companhia da Helena e do Carlos, visitámos Istambul e navegámos no Mar de Mármora (ou Mármara), pondo um pé na Anatólia, o que nos levou a programar voltar à Turquia para visitar durante alguns dias a parte asiática da Turquia e que constitui a larga maioria do seu território, 97%. Eu e a Célia voltámos, mas sem a companhia dos nossos amigos.

No regresso desta segunda visita, fiz o relato do que havia visto e das impressões com que fiquei, e logo o Carlos acrescentou que eu teria de descrever a viagem para o blogue, o que fiz. Foram 26 crónicas semanais e ganhei o gosto, empreitada que assumi por influência do meu amigo, como foi com a sua insistência que passei a escrever uns textos para o blogue, do que ainda não desisti, apesar da minha preguiça.

Em Roma, junto ao Arco de Constantino (eu, Célia, Helena e Carlos)

Agora já não tenho o incentivo do Carlos, mas a sua memória obriga-me a continuar.

Com profunda comoção digo: Adeus, meu querido amigo!

Portela (de Sacavém), 2022-01-07

1 Comment

  1. Caro António, aqui vai meu enternecido agradecimento por tão lindas lembranças de seu grande amigo Carlos, que agora nos deixa. Desejo apenas juntar-me aos que o estão homenageando e lembrando com carinho e o profundo respeito pelo intelectual talentoso e corajoso que ele foi. Abraço a você e Célia, e peço que leve aos familiares do nosso amigo os meus sinceros sentimentos.

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