ROMEU CORREIA (1917-1996) E O REALISMO SOCIAL – POR MANUEL SIMÕES

(1917 – 1996)

 

 

Conforme escreve António Mota Redol na nota de abertura à nova edição do romance Calamento (Ed. Colibri, 2020), Romeu Correia «dedicou a sua escrita a contar-nos a vida do povo em toda a sua riqueza de profissões […], quer seja através de tradição oral ou escrita, quer seja através de música instrumental ou cantada, ou através da dança» (p.5). Com efeito, o Autor legou-nos uma obra de excepcional dimensão, repartida por: a) romances – citem-se Trapo Azul (1948), Calamento (1950), Gandaia (1952), Bonecos de Luz (1961), Os Tanoeiros (nova versão de Gandaia, 1976) ou Cais do Ginjal (1989); b) textos destinados ao teatro, desde Casaco de Fogo (1953), O Vagabundo das Mãos de Oiro (1960), Bocage (1965), até Cravo Espanhol (1970); c) ensaios, virados essencialmente para o desporto (Francisco Stromp, 1973; Jorge Vieira e o futebol do seu tempo, 1981), sem esquecer o seu interesse pelo associativismo demonstrado pelas obras Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada – nas Artes, nas Letras e nas Ciências (1978), O Passado e Presente do Movimento Associativo (1984), e Academia Almadense: Memória de 100 Anos (1995).
A sua obra, como se depreende, está estreitamente ligada à região de Almada, e a este enraizamento apaixonado não escapa a acção do romance Calamento, escrito entre 1947 e 1949, de que saiu agora a que suponho ser a 4.ª edição, romance que narra a evolução sócio-económica e urbanística da Costa da Caparica, na altura ainda com vestígios da contraposição Norte/Sul, isto é, aveirenses/algarvios, que nesta região se fixaram à volta da actividade piscatória. Deixemos falar o Autor no texto “A praia e a memória”, escrito em Dezembro de 1977: «Quando, no Verão de 1949, recolhi material para a redacção de um romance que intitulei de Calamento, ainda a velha praia da Caparica tinha muitos sinais de seus usos e costumes, que lhe davam tanto carácter. A Rua dos Pescadores que hoje trilhamos, essa artéria principal, marcava a fronteira entre o norte e o sul. Esbatia-se já a velha rivalidade, é certo, pois dois séculos de vida em comum, com fomes, ódios e amores, chegam de sobejo para desgastar preconceitos velhos e outras tolices da condição humana» (pp.12-13).
Romance essencialmente etnográfico, Calamento pode ser um veículo de estudo para dicionaristas, de tal modo o Autor introduz na narrativa inúmeros termos ligados à faina dos pescadores do litoral português, quer sejam técnicos, quer da gíria, todos sedimentados por uma prática que atravessou várias gerações. Esta insistência documentarística é porém compensada pela agilidade narrativa do fluir da acção, aqui concentrada à volta da figura de “Ti Palmira”, aparadeira de nascituros e pescadora, paradigmática da oposição aos diferentes hábitos culturais da gente do “Norte”, contra a qual o imobilismo já se estava dissolvendo.
Um agradecimento é devido à Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, a quem se deve não só esta edição mas igualmente o enorme trabalho que vem desenvolvendo no sentido de “recuperar” títulos e autores menos lembrados, restituindo-lhes a devida memória.

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