PENSA-SE EM WASHINGTON E ALGURES QUE UMA OUTRA CRISE, AGORA MILITAR, É NECESSÁRIA E CONVENIENTE – V – UMA CRISE FEITA NOS EUA: PORQUE É QUE A RÚSSIA IRÁ PROVAVELMENTE INVADIR A UCRÂNIA – por THOMAS PALLEY

 

 

A crisis made in the USA: why Russia will likely invade Ukraine, por Thomas Palley

Thomas Palley, 16 de Janeiro de 2022

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Preâmbulo. Viver nos EUA e escrever honestamente sobre as relações EUA-Rússia (e a China também) é muito difícil. Isto porque os EUA são o agressor, mas a Rússia é um país autoritário. Essa divisão é utilizada pelo establishment norte-americano para baralhar a discussão e desviar a atenção da agressão dos EUA para a questão do  autoritarismo russo. Lado a lado, qualquer pessoa que chame aos EUA de  agressor  é imediatamente rotulada de pró-russa. Desta forma, o establishment norte-americano inocula-se inteligentemente contra as críticas e denuncia os seus críticos.

O Presidente Vladimir Putin confronta-se com um momento histórico decisivo. As conversações com os EUA e os seus parceiros da OTAN mostraram que os EUA não têm qualquer intenção de inverter a sua longa campanha de desgaste e já de longa duração  contra a Rússia. Os EUA querem uma mudança de regime na Rússia. Isto não quer dizer democracia, pois este discurso não é nada mais do que camuflagem para o verdadeiro objetivo estratégico de uma Rússia permanentemente enfraquecida. O que importa é que a Rússia esteja enfraquecida, e o bem-estar dos russos não tem realmente qualquer importância para Washington.

Esta é o panorama com que Putin se confronta. A implicação é que é pouco provável que a posição da Rússia se venha a fortalecer nos próximos anos. Consequentemente, agora pode ser o momento mais favorável para tomar medidas que reforcem estrategicamente a Rússia e atinjam o seu próprio objetivo político secundário a longo prazo de reunificação parcial da componente histórica europeia da Rússia (ou seja, reabsorção da Bielorrússia e Ucrânia Oriental).

A implacável antipatia dos EUA

A base do argumento é o reconhecimento de que os EUA têm uma antipatia implacável para com a Rússia. Essa antipatia tem uma longa história. Em 1918, os EUA invadiram a Sibéria, intervindo na guerra civil russa entre os brancos czaristas e os vermelhos. A invasão preparou o cenário para o ódio da União Soviética antes da Guerra Fria.

Hoje, a antipatia dos EUA é impulsionada pelo triunfo do pensamento Neoconservador segundo o qual nenhum país deve ser capaz de desafiar os EUA em qualquer parte do mundo. Isto faz da Rússia um inimigo existencial como ainda pode continuar a sê-lo.  Além disso, a antipatia dos EUA é impelida pela necessidade de ter um inimigo externo. Esse inimigo ajuda a canalizar a agressão intrínseca do país e distrai a população americanas das  suas próprias falhas internas. É por isso que cada guerra fria será sempre seguida por uma nova guerra fria.

O resultado claro é que os EUA estão empenhados numa estratégia a longo prazo de destruição do poder russo. Isto tem sido evidente durante vinte anos na expansão da NATO  para leste; no fomento do golpe de Estado de 2014 na Ucrânia; no encorajamento da agressão georgiana na Ossétia do Sul em 2008; e no cerco à  Rússia com uma cortina militar que vai de Stettin, a ocidente, até Seul, a leste.

Os EUA não são  dignos de confiança

É impossível um compromisso com os EUA. Em primeiro lugar, isso é excluído pela doutrina Neoconservadora. Em segundo lugar, é contrário ao carácter político dos EUA. A história diplomática americana é a história de repetidas violações de tratados e acordos, que são descartados no momento em que os EUA estão na mó de cima e têm  alguma vantagem nisso.

Desde o seu início, os EUA violaram repetidamente os seus tratados com as nações índias  soberanas. Após a Segunda Guerra Mundial, rompeu com o Acordo de Ialta negociado entre Roosevelt e Estaline, uma violação que nunca foi reconhecida. Quanto às suas mentiras face às  tribos nativas, os EUA dizem a si próprios que o comportamento é uma  história antiga  irrelevante. A realidade é que ele está vivo e bem, e faz parte do ADN político do país.

O Iraque como uma janela sobre os EUA e a sua estratégia

O Iraque oferece uma janela, ilustrando tanto a má fé dos EUA como a forma como a estratégia de mudança de regime funciona. Durante anos, os EUA coordenaram uma campanha de propaganda destinada a cultivar o apoio à ação militar com o argumento de que Saddam Hussein era uma ameaça regional para todos.

Neste quadro, o Iraque foi sujeito a sanções económicas, e foi também acusado de possuir armas de destruição massiva. Nunca foi encontrada nenhuma dessas armas  mas os EUA foram acusados de mentir sobre elas. O acordo era que as inspeções da ONU seriam determinantes, mas esse acordo foi atirado ao chão quando os  inspetores apareceram  de mãos vazias. Entretanto, durante o período de inspeção, os EUA construíram as suas forças militares do Golfo Pérsico em preparação para a guerra.

E, claro, a invasão americana do Iraque não produziu um Iraque democrático próspero. Em vez disso, o povo do Iraque pagou um tributo hediondo, e o país está permanentemente em risco de guerra civil e de desintegração.

Lições para o Presidente Putin

Os paralelos entre a campanha dos EUA contra o Iraque e a campanha dos EUA contra a Rússia são impressionantes e irrefutáveis. Os EUA estão agora a implementar a mesma estratégia contra a Rússia, utilizando a Ucrânia como um pretexto.

O plano de jogo a longo prazo é claro. Os EUA continuarão a reforçar a sua presença hostil na Ucrânia e nas fronteiras da Rússia; continuarão a fomentar a opinião pública contra a Rússia como parte da defesa de uma ação ainda mais agressiva; e continuarão a tentar minar a economia russa.

Isto significa que a Rússia está encurralada e que a situação provavelmente só irá piorar. Além disso, depois de ter reunido as suas forças, uma posição russa de recuo  corre o risco de ser interpretada como um sinal de fraqueza que encorajaria a intensificação da agressão dos EUA. Isto significa  que a Rússia irá ocupar  a Ucrânia oriental, talvez até às margens  do Dnieper.

Made in  EUA

A crise atual é feita nos EUA, mas os EUA ainda podem desarmar a crise se recuarem e concordarem com uma zona desmilitarizada na Europa de Leste. No entanto, é pouco provável que isso aconteça, uma vez que iria contrariar a doutrina Neoconservadora  e ir contra o carácter e a história do país. O Presidente Biden seria também politicamente mais prejudicado. Com efeito, também ele tem sido encurralado pelos agentes  Neoconservadores  no Departamento de Estado, no Pentágono, e no seu próprio Conselho de Segurança.

A agressão estrangeira é popular entre uma grande parte do eleitorado dos EUA, incluindo os chamados elementos liberais, representados por figuras como The New York Times e oThe Washington Post. Em parte, isto é porque o país é protegido pelos oceanos Atlântico e Pacífico. Consequentemente, o assassinato e a destruição estão além-mar e em grande parte fora de vista dos americanos. Os cidadãos norte-americanos escapam impunes pelo seu incentivo à guerra. Desfrutam da emoção do militarismo e do jingoísmo[1], enquanto evitam pagar o preço da morte e da destruição.

 

Fonte: Thomas Palley, A crisis made in the USA: why Russia will likely invade Ukraine. Texto disponível em: https://thomaspalley.com/?p=2092

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[1] Nota de tradutor. Segundo a Wikipédia: “Jingoísmo é o nacionalismo exacerbado na forma de uma política externa agressiva. O termo surge no Reino Unido, nos anos 1870, para designar a posição política que associava beligerância em relação à Rússia e nacionalismo expansionista. Na época, tal posição foi adotada tanto por políticos (Benjamin Disraeli, Cecil Rhodes) como por imperialistas liberais (Primeiro-Ministro Neville Chamberlain), no âmbito de uma onda ufanista que enaltecia a Grã-Bretanha como “a melhor nação do mundo” — e que, como tal, deveria “civilizar os povos inferiores”.
Jingoísmo também se refere à prática de advocacy por um país, em favor do uso de ameaças ou de força, em detrimento de relações pacíficas, para proteger o que esse país entende como seu interesse nacional. Coloquialmente, o termo também pode referir-se ao viés apresentado quando se julga o próprio país como superior aos demais — um tipo extremo de nacionalismo. Nesse sentido, o nazismo e o excepcionalismo seriam formas de jingoísmo.

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