Dedico esta peça a dois amigos meus: ao meu vendedor de jornais e a uma amiga minha com quem tomo regularmente café.
Ao primeiro porque considera a NATO uma instituição de defesa da paz, à segunda porque considera que é Putin que representa o Inferno, o Império do Mal.
Quanto à NATO a história é clara e utilizando a metodologia de Obama, o prémio Nobel da Paz por nada fazer por ela e que arranjava guerras em coligação com países empenhados, a NATO é exatamente isso, uma coligação de países interessados em servir o Senhor que está sempre em Guerra, em servir os Estados Unidos. Quanto ao Diabo e ao Eixo do MAL estes são conceitos que só são válidos face aos seus antónimos, o Paraíso e o Império do Bem. E, neste caso, são os Estados Unidos que necessariamente representam o Paraíso, um paraíso ocupado pelos seus arcanjos, os restantes países da NATO e/ou outros aliados empenhados, e que assim pode ser visto como o Império do Bem, como o promotor da paz . E aqui os dois argumentos fundem-se.
Face às ideias destes meus dois amigos ligadas à crise da Ucrânia, aqui vos deixo alguns textos de reflexão, textos de Thomas Palley, de William Ashore, de Joaquim Ventura Leite e de António Gomes Marques.
PS: Um detalhe: só hoje consegui ver e ouvir um comentário minimamente de jeito sobre o perigo de guerra na Europa e no mundo, no canal de notícias da SIC, onde se dizia que o Ocidente assume também ele uma linguagem igualmente belicista.
Boa leitura
Júlio Mota
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American Exceptionalism and the Liberal Menace: the US and Ukraine, por Thomas Palley
thomaspalley.com, 13 de Fevereiro de 2022
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O excecionalismo americano é a doutrina mais perigosa do mundo, e tem estado em plena exposição na atual crise da Ucrânia. Pior ainda, os defensores mais ruidosos têm sido a classe liberal de elite da América.
A doutrina do excecionalismo sustenta que os EUA são inerentemente diferentes e superiores a outras nações. Essa superioridade significa que os EUA estão sujeitos a um padrão diferente. As suas ações são alegadamente benevolentes e acima do direito internacional, e os EUA têm o direito de intervir à vontade em todo o mundo, incluindo a construção de uma rede global de bases e guarnições militares que nunca permitiriam que outro poder tivesse.
A Ameaça Liberal
Nos Estados Unidos de hoje, os liberais são os defensores mais extremistas do excecionalismo americano. Em contraste, republicanos e conservadores estão inclinados a justificar a política externa apelando ao poder bruto, com os EUA a fazerem o que querem porque podem.
Para mim próprio, há muito que desconfio dos liberais americanos. Chamo-lhes a “ameaça liberal”. Isto porque têm sido um grande obstáculo ao progresso para uma sociedade social-democrata nos últimos quarenta anos.
Na política económica, a ameaça liberal funciona colocando a sociedade na posição permanente de ter de escolher entre o “mau” e o “pior”. ”. Na política externa, opera apelando ao julgamento moral que ignora as falhas morais dos EUA, viola o princípio da não intervenção nos assuntos internos, e ignora a inviabilidade das políticas que recomenda aos outros no mundo real.
A Ameaça Liberal e a Ucrânia
A ameaça tem estado a ser agitada sobre a Ucrânia. A elite dos meios de comunicação social liberais tem estado na vanguarda da luta pela confrontação militar com a Rússia, pela contínua expansão da NATO para Leste, e pela rejeição de qualquer legitimidade para a posição da Rússia.
A ameaça tem sido alheia à assimetria relativamente ao comportamento dos EUA, a começar pela questão óbvia do que é que os EUA estão a fazer nas fronteiras da Rússia?
Tem-se apresentado uma caracterização substancialmente falsa da sociedade ucraniana e da política ucraniana.
E tem-se falhado em abordar a história insegura da região e as preocupações de segurança nacional totalmente justificadas da Rússia.
A hipocrisia e a Ameaça Liberal
Muitos notaram a inconsistência entre a autoproclamada doutrina Monroe dos EUA e a rejeição por parte dos EUA da oposição da Rússia à expansão da NATO para Leste. A doutrina Monroe afirma que os EUA têm o direito de impedir qualquer presença militar estrangeira em todo o hemisfério ocidental – e não apenas nas fronteiras dos EUA.
No entanto, a hipocrisia é muito mais profunda. Salta-nos à vista a invasão ilegal do Iraque pelos EUA em 2003, só para começar.
Em 1998, os EUA bombardearam Belgrado na Sérvia, atingindo a embaixada chinesa. Posteriormente, os EUA patrocinaram a secessão do Kosovo da Sérvia. Equivalente a isto seria o bombardeamento de Kiev pela Rússia, atingindo a embaixada britânica, e ao desmantelamento da região de Donbass como uma república independente.
Um terceiro exemplo de hipocrisia diz respeito à nossa parceira da NATO, a Turquia, que ocupa ilegalmente um terço da ilha de Chipre. O governo dos EUA e as elites liberais dos Estados Unidos estão em silêncio a esse respeito, e não se fala de uma economia que infrinja sanções contra a Turquia. A Europa é a campeã da perversa falta de princípios. Por um lado, os países europeus da NATO querem sancionar a Rússia se este país agir conforme os seus receios justificáveis sobre a Ucrânia, mas não fazem nada equivalente no que diz respeito à apreensão pela Turquia do território de um Estado membro da União Europeia.
Um quarto exemplo diz respeito à anexação ilegal de terras palestinianas por parte de Israel. Mais uma vez, tanto o governo dos EUA como as elites liberais dos EUA são silenciosos quanto a isso.
A Ameaça Liberal e o problema dos EUA com a verdade
Os EUA têm um problema em termos de verdade. Donald Trump é a criança vedeta para esse problema. No entanto, a Ameaça Liberal também faz parte dele. Se alguém só é verdadeiro quando lhe convém, não é verdadeiro e suja o estatuto da verdade.
As mentiras, a agressão e o militarismo da ameaça liberal da política externa voltam a entrar na sociedade. Se os liberais dos EUA estão seriamente empenhados em resolver o nosso problema da verdade e em travar a ascensão do protofascismo, deveriam começar com as suas próprias opiniões sobre política externa. A Ucrânia é um bom lugar para começar.
Este texto foi publicada no domingo, 13 de Fevereiro de 2022, às 17:07 horas e arquivada sob a rubrica Europa, U.S. Policy, Uncategorized. Pode seguir quaisquer respostas a esta publicação através do feed RSS 2.0.
Leia este texto de Thomas Palley no original clicando em:
American Exceptionalism and the Liberal Menace: the US and Ukraine « Thomas Palley





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