Sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia – “Putin inaugura o novo tabuleiro de jogo geopolítico”.  Por Tom Luongo

Seleção e tradução de Francisco Tavares

15 m de leitura

Putin inaugura o novo tabuleiro de jogo geopolítico

 Por Tom Luongo

Publicado por  em 25 de Fevereiro de 2022 (original aqui)

 

Até 23 de Fevereiro de 2022, os países poderosos do mundo jogavam um jogo muito rarefeito.

Demasiadas pessoas tentam analisar a geopolítica como se se tratasse de um jogo de xadrez. Movimento, contra-movimento. Empurrar um peão? Ameaçar um cavalo, esse tipo de coisa. É fácil de compreender e vende.

No passado, tentei compará-lo a uma versão multi-jogador de Go, com algo desde quatro a seis pedras de cores diferentes no tabuleiro, tentando tomar território. Era uma metáfora melhor, mas quase impossível de descrever adequadamente. De facto, por vezes, era cansativo.

A realidade é que nenhuma destas metáforas é explicativa.

Porque o único modelo preciso para a geopolítica é na realidade Calvinball.

Você conhece esse jogo. O do Calvin & Hobbes.

Contrariamente à quilo que você se lembra da lendária banda desenhada, havia regras para o Calvinball que eram algo como isto: Calvin tinha de inventar as regras à medida que ia avançando.

Em geopolítica, basicamente tudo se reduz a que seja o jogador mais forte que tem esse poder.

A questão é a seguinte. Até à invasão da Ucrânia pela Rússia (e sim, é uma invasão, justificável ou não) havia algo chamado “a ordem baseada em regras” promovida principalmente pelos EUA mas também apoiada directamente pela União Europeia e pela Commonwealth.

As regras da “ordem baseada em regras” eram simples. Nós fazemos as regras, vocês seguem-nas. Reservamo-nos o direito de alterar as regras sempre que quisermos corresponder ao nosso propósito.

Era o equivalente geopolítico da ideia de “anarco-tirania” de Sam Francis, que se resume a “regras para ti, mas não para mim”.

Ouvimos os diplomatas russos queixarem-se disto durante anos. Porquê ter estas regras se elas nunca se cumprem?

Como sempre assinalo quando se fala de ideólogos de esquerda em espiral de pureza rumo à autodestruição, temos estas regras porque só a hipocrisia dos outros conta. Os sub-humanos não estão autorizados a falar ou mesmo a fazer parte da conversa.

E no mundo da diplomacia como praticada pelo coletivo do Ocidente, os russos são definitivamente sub-humanos, tal como os não vacinados, qualquer pessoa à direita imediata de Karl Marx e que não seja um quatro patas.

Tudo isso mudou quando os tanques russos atravessaram a fronteira, os mísseis de defesa atingiram as baterias antiaéreas e de artilharia, e os fuzileiros navais chegaram a terra na Ucrânia.

Durante meses fomos tratados com o fac-símile mais idiota e mais enfurecedor da diplomacia que alguma vez testemunhei. Resultava incrível ouvir a nauseabunda virtude sinalizadora dos “diplomatas” norte-americanos que se recusaram a abordar as preocupações da Rússia, mesmo de forma meio séria, enquanto os culpavam por todos os problemas do planeta.

Foi tão desajeitado como estúpido, para citar Darth Vader.

Era evidente que a Putin e ao seu pessoal lhes seria dada esta derradeira opção, invadir a Ucrânia e enfrentar o opprobrium global ou ajoelhar-se perante Zod [1].

O seu erro de cálculo foi pensar que a Rússia se preocupa minimamente com esse opprobrium global neste momento. Pelas suas acções na Ucrânia esta semana, é evidente que não se preocupa.

Não tinham medo da postura da NATO, das ameaças de sanções de Biden ou das dificuldades de Liz Truss [2] com a geografia básica. Quanto mais tempo durou este impasse sobre a Ucrânia, mais claro ficou que a maioria das pessoas em posições de poder e o seu pessoal de apoio têm menos de zero de compreensão dos parâmetros das suas funções.

Por isso, a sua invocação constante da “ordem baseada em regras” soava cada vez mais oca, uma vez que estavam simplesmente a agir como um rapaz precoce de seis anos de idade brincando com o seu tigre de peluche.

Pronunciamentos de consequências e “sanções do inferno” e ameaças de suster a nossa respiração até desmaiarmos foram justamente ignorados por Putin e pelo seu pessoal.

Durante décadas, a NATO gozou do luxo, graças à primazia militar dos EUA, de inventar as regras e forçar todos os outros a reagir às mesmas.

Isso leva-nos de volta à declaração, muito provavelmente feita pelo então Vice-Presidente Dick Cheney, sobre a “comunidade baseada na realidade”,

“Já não é assim que o mundo funciona realmente… Somos um império agora, e quando agimos, criamos a nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade – criteriosamente como vocês farão – vamos agir novamente, criando outras novas realidades, que também vocês poderão estudar, e é assim que as coisas vão resolver-se. Somos actores da história… e vocês, todos vocês, ficarão apenas a estudar o que nós fazemos””.

 

O que ficou claro para mim é que aqueles que foram colocados em posições de poder por Klaus Schwab [fundador do World Economic Forum] e o resto da Multidão de Davos ainda pensam que vivemos neste tipo de mundo. Que não importa o que as pessoas queiram ou outros países precisem, eles ditarão o tempo, o lugar e os parâmetros para todo e qualquer confronto.

No entanto, quanto mais tempo isto se prolongava, mais claro se tornava que Putin e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, estavam a aproximar-se daquele momento em que iriam alterar as regras. Escrevi em Março de 2018 que o discurso de Putin sobre o Estado da União, onde revelou novos sistemas de armas, foi um importante ponto de viragem.

Nos quatro anos seguintes, assistimos a uma escalada constante da insanidade neoconservadora numa tentativa de empurrar os sistemas de mísseis dos EUA para mais perto de Moscovo, contra todos os acordos internacionais assinados, resoluções da ONU sobre a resolução do problemas das repúblicas separatistas da Ucrânia e, francamente, contra a decência comum.

Depois de um 2021 em que as coisas na Ucrânia foram ficando cada vez mais quentes, Putin e Lavrov, tendo apoiado Biden durante o Verão com a cimeira de 16 de Junho, sabiam que tinha chegado o momento de mudar as regras do jogo.

Se não o fizessem, a Rússia deixaria de o ser.

O velho jogo entrou na sua espiral rumo à conclusão quando a Rússia enviou e divulgou publicamente o seu projecto de propostas para uma nova arquitectura de segurança relativa à Rússia e à relação da NATO na Europa de Leste.

A Rússia agiu, estabelecendo o ritmo operacional a partir desse momento. Forçou os EUA e a Europa a reagir a eles ao criarem uma nova realidade, ao estabelecerem novas regras.

Os Estados Unidos eram agora o que recebia as regras, e não o que as criava. Sabiam-no porque isso provocou várias rondas de deslocação a Moscovo por responsáveis de todo o Ocidente que tentavam dissuadir os russos do seu novo jogo.

Com ganhos zero.

Como The Saker assinalou nos seus pensamentos iniciais sobre o reconhecimento pela Rússia das repúblicas separatistas do Donbass, esta operação na Ucrânia esteve muito tempo no planeamento. Esta não foi uma acção que foi tomada de ânimo leve.

Mais uma vez, vou repetir aqui o que escrevi acima: este reconhecimento NÃO deve, repito, NÃO deve, ser visto isoladamente. É apenas UMA FASE de um PROCESSO que começou há pelo menos um ano, ou mais, e há muito mais por vir.

 

Palavras mais verdadeiras e tudo isso.

Há meses que vos tenho vindo a dizer que a Nordstream 2 acabaria por ser ligada e que a Rússia não seria expulsa da rede de telecomunicações SWIFT, independentemente do que acontecesse.

A primeira continua em cima da mesa, uma vez que a Alemanha foi o país que mais falou em não fazer a segunda.

Até eu a mim me escapou que a Rússia planeava mudar o jogo tão radicalmente, pensando que havia sempre uma solução aprovada por Davos que não envolvia o uso extensivo dos militares russos, mas que mesmo assim terminava com os EUA a fazerem figura de tolos.

Em retrospectiva, era óbvio que estávamos sempre a dirigirmo-nos para este jogo final porque a Rússia viu a oportunidade de mudar as regras.

Menos de um dia depois de a Rússia ter exterminado tanto o poder militar da Ucrânia como a sua arquitectura política, o Presidente Sundowner [presidente do entardecer – referência a Joe Biden] confirmou que todas as ameaças do Ocidente estavam tão vazias como os chefes dos Millennials [3] que dirigem a gabinete de propaganda no Departamento de Estado.

Após meses de ameaças à Rússia com a expulsão do sistema de mensagens financeiras SWIFT, a Europa queixou-se e alguém finalmente mostrou algum bom senso.

Tirar a Rússia da SWIFT significaria o fim da UE como qualquer pessoa a conheceu ou deseja que ela possa vir a ser no futuro. Significaria o fim do sistema petrodólar.

A Rússia é demasiado importante do ponto de vista sistémico para o comércio global de mercadorias que vai muito além da energia. Fornece não só o barril marginal de petróleo e BTU de gás natural, mas também toneladas de níquel, paládio, titânio, urânio enriquecido e tungsténio. É um importante fornecedor de fertilizante de nitrato de amónio, potassa e ureia.

Façam isto e a Europa não só congela até à morte com os seus três dias de reservas de gás como passa fome assim que o fornecimento global de alimentos é interrompido. Façam isto e Biden entra nas eleições intercalares com $8/gallon de gás, e 20% de inflação real.

O aumento das taxas federais será a menor das preocupações de todos.

A Rússia manteve todas as cartas nas negociações sobre a Ucrânia e nós seguimos imprudentemente uma política de insultos e propaganda amadora, recusando acreditar que a Rússia não chegaria à sua posição final.

Ao colocar botas no terreno, aviões no ar e mísseis até ao pescoço de cada instalação militar ucraniana em todo o país, a Rússia virou de cabeça para baixo o argumento “a força resolve” dos EUA e da Europa.

O jogo mudou porque as regras mudaram. Já não é um jogo de retórica de galinha e de sinalização de virtude.

A Realpolitik não quer saber de quando os mísseis estão no ar. Este é o ponto que se perdeu em tantos comentários profissionais durante os últimos meses. Eles nunca contemplaram a ideia de que alguém poderia fazer isto, e menos ainda ser feito.

Agora estão confusos e zangados, trabalhando sobre os seus “problemas” em público. Se não fosse tão patético, seria quase hilariante.

Durante quase uma década, o Ocidente investiu milhares de milhões na Ucrânia para a armar e prepará-la para esta semana. Esses milhares de milhões foram essencialmente dizimados numa questão de horas. Levou um dia para expor todas as posturas da NATO como nada mais que isso, posturas.

Temos agora de nos conformar com este novo jogo. É um jogo onde as regras serão muito mais equitativas, porque as alternativas impensáveis já não são teóricas, são reais.

É real porque as ameaças à Rússia colocadas pelos desígnios da NATO sobre a Ucrânia foram sempre reais, independentemente do que foi dito.

Assim, Biden e Davos conseguiram a guerra na Ucrânia, pela qual tinham vindo a implorar à Rússia. O problema para eles agora é que a Rússia já não está a jogar o seu jogo e estão totalmente despreparados para o próximo.

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Notas

[1] N.T. Referência General Zod (o seu nome completo é Dru-Zod Corkript) é um supervilão fictício que aparece nos livros de banda desenhada publicados pela DC Comics, mais comummente em associação com o Super-Homem (vd. aqui).

[2] N.T. Ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido. O jornal russo Kommersant citou duas fontes diplomáticas como tendo dito que durante a sua reunião à porta fechada na quinta-feira [10 de Fevereiro] Lavrov tinha perguntado a Truss se ela reconhecia a soberania russa sobre Rostov e Voronezh – duas regiões no sul do país onde a Rússia tem vindo a acumular as suas forças. Truss terá respondido que a Grã-Bretanha nunca os reconheceria como russos, e que teve de ser corrigida pelo seu embaixador. A Grã-Bretanha não contesta a soberania das regiões em questão. (ver aqui)

[3] N.T. Millennials ou geração Y é geralmente considerado o grupo dos que nasceram entre 1982 e 2004 (vd. aqui)

 


O autor: Tom Luongo é antigo investigador químico, criador amador de cabras leiteiras, Anarco-Libertário e obstinado economista austríaco, cujo trabalho pode ser encontrado em sites como Zerohedge, Lewrockwell.com, Bitcoin Magazine e Newsmax Media. Profissionalmente, passou muitas das suas horas de vigília dentro de vários laboratórios analíticos a testar a sua água e solo à procura de contaminantes, ou na Investigação Universitária a avaliar como se processa o arsénico, onde é encontrado e como se livrar dele. Assisti a uma indústria ser criada por um decreto governamental e destruída da mesma forma. Passou 5 anos a resolver o puzzle de um revestimento de Níquel-Boro sem eléctrodos que tem propriedades intrigantes de resistência ao desgaste. É pena que o revestimento fosse melhor do que o modelo de negócio da empresa. Depois disso implodir, passou alguns anos como outra pessoa fantasma a escrever mais opiniões sobre acções e mercados do que qualquer outra pessoa deveria ter num punhado de vidas. O salário era uma porcaria, por isso a quantidade, pessoal, era a chave.

É dono e editor do boletim informativo Gold Goats ‘n Guns, no qual tenta ligar as falsas narrativas da geopolítica a teses viáveis de investimento a longo prazo. Não acredita que a história do aquecimento global provocado pelo homem valha os electrões sobre os quais a literatura revista pelos pares é divulgada. Estes são conjuntos de dados tão sujos que não os daria de comer aos seus cães. Quanto à política, a sua posição é bem conhecida através dos seus escritos passados em Lewrockwell.com, Seeking Alpha e os já mencionados blogues de outrora. Para resumir: Os indivíduos são as únicas pessoas com conhecimento suficiente sobre as suas próprias vidas para terem esperança de tomar as decisões certas por si próprios e nenhuma quantidade de orientação ou planeamento central pode ajudar esse processo. Todas as interacções entre as pessoas devem ser pacíficas e voluntárias, livres do poder coercivo do Estado em todas as suas roupagens. Em resumo, como diz  o próprio Luong “sou um libertário que desconfia de todas as organizações humanas maiores do que um jogo de póquer de duas mãos”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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