A guerra à porta, os combustíveis e a abordagem financeira consequente!
por Carlos Pereira Martins
Continuando a breve análise que anteontem fiz e dei a conhecer, em resultado das muitas conversas que tive a oportunidade de manter durante a Conferência da minha Ordem, a Ordem dos Economistas, na Fundação Calouste Gulbenkian, procurando dar resposta a questões que entretanto fizeram o favor de me ir enviando, vou tentar responder não mencionando os interlocutores. Abordo-as globalmente.
É claro que em termos estritamente financeiros, há muito que não vivíamos uma situação de taxas de juro tão baixas ou mesmo negativas.
E é claríssimo, para mim, que a acção de Mário Dragui na Presidência do BCE no tempo da crise de 2008/13, Banco Central Europeu, salvou os sistemas bancários, as economias e os particulares e empresas de terem sufocado ou passado males e tempos muito mais gravosos.
A propósito, dizia o Presidente do maior Banco português de Capitais Públicos, a CGD, na sua intervenção na Gulbenkian, que nunca as empresas portuguesas tiveram acesso ao crédito pagando tão pouco, tão barato. E também nos revelou a sua constatação e experiência que as PMEs se podem financiar, em geral, em oito Bancos à sua disposição enquanto que as grandes empresas apenas se podem financiar em três Bancos.
Concluo eu que são muito sortudas as PMEs, são sortudas as Grandes Empresas pois acedem ao crédito mais barato de que há memória e são muito sortudos os Bancos, pois, embora concedam crédito com margens muito menores, cobram fora do produto bancário, em complemento, as maiores comissões de sempre, o mesmo de que se acusam os governos, as autarquias e afins de cobrarem taxas e taxinhas por tudo e por nada!
Restam os particulares que as pagam e nem recusar podem! Bom, mas isso são coisas que nem se comentam e, em boa verdade, os serviços bancários, tudo o que vem fora do produto, a venda de serviços e mesmo de produtos que outrora nunca se vendiam num Banco mas antes nas ourivesarias e nos grandes armazéns, passou a ser uma fonte de “outras receitas” a que houve que deitar mão. Um bom vinho, por exemplo, parcelas, relógios e porcelanas.
Mas, sim, há outro mas. Como a economia não é uma ciência exacta, como a matemática ou a física, a economia é uma ciência social, o que implica que uma alteração numa ou mais variáveis tem implicações em múltiplas outras, os preços, o emprego, a produção, etc, também no mercado os construtores e donos de prédios, andares e propriedades fazem reflectir o menor custo dos financiamentos, sobretudo os do crédito à habitação, nos preços de venda dos andares. Só que para mais, em vez de acompanhar um mercado racional em que custos de produção inferiores dariam razão a preços de venda também inferiores. Não. Actuam de forma inversa. Se pagas menos pelo empréstimo bancário poderás pagar mais pelo preço de aquisição! Ciências Sociais, quem o explicaria muito bem seria o saudoso Professor Adérito Sedas Nunes !
Agora mais a sério, concentrando-me na Euribor de 3 meses, que serve de referência e indexação a muitos créditos com vencimentos e amortizações trimestrais e outros produtos financeiros, desde o final de 2015, com o vislumbre do fim da crise de 2008, a tal do subprime, importada para a Europa do outro lado do Atlântico, – e nós portugueses nem somos responsáveis pois não consta que tenha sido descarregada no porto de Sines, a melhor entrada de produtos americanos para a Europa – Euribor que se situou em valores negativos, de -0,5% a quase -1%.
Com os recentes acontecimentos, que já vinham agravados com a situação de um longo período de Covid, tudo me faz crer que, a partir de agora, melhor, já desde o início deste ano, volte a aproximar-se de terrenos positivos mas nada alarmantes, provavelmente de valores próximos ou até 1% em 2025.
Como se dizia nas aulas do meu ISCEF, Económicas, ceteris paribus, ou seja, se tudo o resto se mantiver constante!
Este é o cenário técnico do BCE. Tanto o de Dezembro de 2021 como o de Março de 2022, muito recente.
Mas este novo cenário de guerra que se vive na vizinhança dos Estados Membros da UE, faz pensar e colocar hipóteses várias.
Por agora, as maiores sanções impostas à Federação Russa são de natureza financeira e fala-se já no boicote à importação de outros produtos, embora tenha que haver muita prudência e avaliação no caso dos cereais e do gás natural, mais do que do petróleo.
Mesmo no caso em que não haja uma descontinuidade significativa no fornecimento de gás e combustíveis, é de crer que a actividade económica na Europa abrandará significativamente mas não de modo dramático. Os combustíveis continuarão a chegar, da Rússia passados os primeiros tempos ou de países alternativos, mas os preços deverão continuar elevados fundamentados nos receios que venha a acontecer uma quebra ou constrangimentos no seu fornecimento. E, nesse caso, teremos o tal decréscimo de que ontem falei no crescimento das economias do Euro, da previsão inicial de 4% para os 2,5 a 3%. Ainda assim, muito positivos os tempos que possam vir e tudo muito suportado no “Recovery and Resilience Facility” criada para a Covid já anteriormente.
O BCE prosseguirá uma política monetária focada na normalização e o cenário continuará a ser positivo.
Foi muito importante a criação do PEPP, o Pandemic and Emergency Purchase Programme, que começou já em Março de 2020 e se aplica temporariamente aos sectores público e privado. Tem sido fundamental para aguentar os custos da pandemia. Iniciou-se com 750 M de Euros, foi aumentado em 4 de Março de 2020 em mais 600 M de Euros, mais 500 M em 10 de Dezembro, o que perfaz um total de 1850 M de Euros. O PEPP termina em Março de 2022 mas até 2025 haverá um acompanhamento sistemático, será pilotado de perto, para evitar situações gravosas nas políticas monetárias da União.
Mas, temos que ser realistas e ponderar outras situações. E, a alternativa menos agradável e talvez mais próxima, poderá ser a de abastecimentos ou importações de energia e gás de forma menos regular por parte da Europa, ou mesmo o corte completo de proveniência russa.
Nesse caso, estou convencido que, de imediato, o óbvio acontecerá. Ou seja, uma subida com muito significado do preço dos combustíveis. E com significado quererá dizer muito mais que o já visto como muito que vem acontecendo nas duas últimas semanas. Para não levar à falência ou, pelo menos, à paralisação de muitas empresas de transportes e quebrar a cadeia de abastecimento de bens básicos, os governos dos vários Estados e a UE teriam que subsidiar, imediatamente, essas empresas distribuidoras, transportadoras.
Teria um forte impacto na subida muito visível do aumento da generalidade dos preços e, logicamente, da inflação. O BCE veria comprometidos os esforços e os objectivos de normalização da política monetária e teria que actuar de forma mais drástica, subindo as taxas de juro.
Claro que assistiríamos igualmente a uma depreciação muito significativa quer do dólar americano quer do euro, em favor de outras moedas, por exemplo, o iene. Assim como uma crescente aversão ao risco, o que levaria a uma reestruturação da maioria das carteiras de investimento de instituições financeiras, fundos de pensões, fundos de investimentos e mesmo de particulares, é óbvio.
Uma grande oscilação negativa se verificaria nos Bunds a 10 anos, estes, considerados faróis em termos de definição de estratégias para as carteiras acima referidas.
Uma inflação elevada comprometeria o papel actual da política monetária definida pelo BCE. Traria, fatalmente, constrangimentos ao papel da política monetária como suporte da procura de bens essenciais.
E, nesse caso, nessa situação, o apelo a gerir de forma mais efectiva as políticas fiscais, seria urgente. Maiores gastos públicos, por exemplo para financiar transportes essenciais e outros investimentos, teriam que ser suportados por políticas fiscais mais solidárias, ou seja, que promovessem uma efectiva redistribuição muito mais equitativa dos rendimentos e do Rendimento Nacional.
Trocando por miúdos, como é uso dizer-se, promover o corte através da penalização fiscal dos rendimentos mais elevados em favor da generalidade da população menos afortunada e das necessidades do país. A tal solidariedade muito falada mas de difícil execução quando surgem as situações concretas. E, claro, esquecer por uns tempos bem largos os objectivos da UE traduzidos nos Pactos de Convergência, de Estabilidade e de Crescimento. É óbvio.
Igualmente teríamos que fazer por esquecer por uns tempos os 6,4 mil milhões de euros para a “Transição Climática”, habitação sustentável, etc. Assim como os 2,5 mil milhões para a “Transição digital” e ver com muito critério como aplicar os 11,1 mil milhões que estão reservados para a chamada e tão propalada “Resiliência”.
Por hoje, devo ter já feito desligar muitos computadores com este “post” demasiado técnico. Mas, com os diabos, sou economista e sinto que tenho o dever de o fazer. Respeito análises e visões diferentes, como é meu bom hábito!