PRESENTE DE REIS, um conto de Rachel Gutiérrez

 

 

PRESENTE DE REIS

Rachel Gutiérrez                                                                                   

 

 

Dans l’autrefois sans fin de la lumière                                                                       

Yves Bonnefoy                                                                     

 

      Dezembro. Calor e preguiça. Depois da terceira ducha do dia, passou creme nas mãos ainda jovens apesar de seus mais de sessenta anos, talvez porque tivesse tocado piano a vida toda, pensava. Ligou a televisão no canal francês para ver o anunciado documentário sobre a Índia. Já apareciam as primeiras imagens com os contrastes de sempre: monumentos grandiosos, belíssimos, e as vacas pelo meio das ruas, as cores exuberantes dos saris das mulheres e a miséria dos mendigos e párias. E aquela sujeira quase palpável, cujo mau cheiro imaginava com horror. O Ganges e as dezenas de pessoas que se banhavam nas mesmas águas descuidadamente… Jamais pudera acreditar que o rio, por ser sagrado, não transmitia doenças. Mas a aura de mistério daquele mundo distante continuava a fasciná-la. E de repente, em preto e branco, flashes da história do país mostraram a figura venerada de Gandhi, o belo Vice-Rei inglês e Lady Mountbatten, esta não muito distante de Nehru, que discursava para a multidão.

       Enquanto o programa avançava, porém, outros flashes de sua recôndita memória a transportaram para um parque com uma orquestra, para salas de concerto, aulas, ensaios, restaurantes festivos… E a explosão da primavera num jardim sujo de neve.

        Fechou os olhos. Como num quadro de Klimt, viu emergir, de um fundo de cerejeiras e macieiras em flor, o rosto luminoso de um jovem pianista hindu: seu amor em Viena no esplendor dos vinte anos!

        Caminhavam pela rua principal de Hietzing, o bairro que abriga o palácio Schönbrun onde, em casas afastadas, tinham seus quartos de estudantes. O frio intenso da manhã tornava o ar elétrico. Era fim de março e as calçadas que a neve derretida enlameara estavam escorregadias. Ele a segurava fraternalmente pela mão. Numa esquina, o alto portão de ferro de um jardim particular que já lhes chamara muitas vezes a atenção estava entreaberto. Não resistiram. E… Oh! da noite para o dia e sem uma folha sequer, como se a Afrodite dos pomares, cobrindo-as de flores as tivesse transformado em enormes buquês, as árvores que na véspera pareciam estranhos esqueletos com seus galhos secos e contorcidos haviam florescido em rosa e branco.

         “debaixo da macieira te desperto”, diz Salomão no Cântico dos Cânticos.

        O tempo ficou mais lento. Um vento perfumado sacudiu as macieiras próximas. E foi então que ele disse bem alto: Eu amo você! A voz que antes lhe parecia aguda demais, quase esganiçada, estava diferente, tão firme e viril que ela sentiu um estranho medo agradável. Um medo que dava prazer. Sorriu assustada. E após um longo silêncio, medindo as palavras, respondeu:

        – Também quero bem a você.

        – Você sabe que não foi isso que eu falei.

        Ela estendeu-lhe a mão direita, em cujo anular brilhava uma aliança de noivado e murmurou:

        – Eu vou embora.

        – E o almoço? Tínhamos combinado!

        – Outro dia, talvez.

       – Está bem, mas por favor, fique mais um pouco, só mais um pouco, nunca estivemos num jardim como este. Tudo é tão bonito aqui! Caminharam em silêncio. Assim humilde, respeitoso, ele a comovia ainda mais. Pois acabaram por ir almoçar, afinal. E dias se passaram.

        Quantas vezes ela sentira que havia algo mais do que amizade naquela convivência quase diária, naquela dependência mútua e crescente desde que, tendo-se conhecido numa Master Class de verão, e após a descoberta de que eram vizinhos, haviam tomado alegremente o mesmo metrô para Hietzing. Naquela tarde, uma aluna/pianista apresentava as difíceis Davids Bündler Tänze, de Schumann e o professor caminhava de um lado para o outro na grande sala ensolarada. Os alunos estavam sentados em semicírculo. Ela escolhera um lugar junto à janela. E viu quando uma joaninha vermelha com pintas pretas pulou do parapeito para o chão postando-se arrojadamente no caminho do professor. Um comprido jovem sueco, com cabelos quase brancos que lhe caíam nos olhos, seguindo seu olhar assustado, também percebeu o perigo a que se expusera a joaninha e , aproveitando-se de uma vez que o professor dando as costas se dirigia à outra extremidade do salão, num gesto elétrico apanhou com delicadeza a joaninha do chão, colocou-a de volta no parapeito da janela e retornou ao seu lugar sem que o professor visse coisa alguma. Mas toda a cena e os largos sorrisos de alívio dela e do jovem sueco estavam sendo observados com simpatia pelo pianista hindu que deu um jeito de se aproximar no fim da aula para comentar o acontecido. Yoran, o salvador da joaninha, sagrado companheiro por algumas semanas, logo precisara voltar para Estocolmo, o que permitiu que o amável vizinho se transformasse em seu par constante, tanto nos concertos quanto nos jantares que se seguiam, nas visitas aos museus, nas reuniões de jovens artistas, e até nas igrejas onde , sem ser católico, sugeria que fossem assistir as missas de Haydn e de Mozart ou as peças para órgão de Bruckner, aos domingos. Sim, ela havia sentido desde o início que o que estavam vivendo era uma perigosa amitié amoureuse.

         Poucos dias depois da efusão no jardim, ele começou a anunciar um evento especial, especialíssimo: a despedida do bonde que servira o bairro por mais de trinta anos e agora precisava ser substituído por um moderno trolley-bus! Pois o coro da Igreja ia descer a colina para cantar, abençoando assim o tão querido bondinho em sua última viagem à meia-noite. Ele insistia: era um acontecimento “histórico”, único, e tão vienense, não podiam faltar! À meia-noite, pensava com uma pontinha de frio no estômago, depois ele vai teimar em me trazer de volta até a minha porta. Hesitou. Relutou. Mas acabou concordando.

        O povo já se aglomerava diante do bonde todo decorado com folhas e flores, tudo verde e vermelho, as cores da Áustria. E a lua ia alta no céu. Às onze e meia em ponto o coro começou a cantar madrigais da mais pura leveza. E à meia-noite, quando o motorneiro deu início à última partida, não só o coro mas todos os presentes entoaram “Wien, du Stadt meiner Träume!” – Viena, Cidade dos meus Sonhos!

        … ”brotam

        as flores da primavera, e sopra o vento

        com a doçura do mel”, desde Sappho, há tantos séculos!

        Eles já estavam de mãos dadas. E chorando, beijaram-se pela primeira vez. Bem mais tarde, diante da porta dela, tudo foi promessa naquele amoroso “Até amanhã!”

Tocou os lábios e acariciou-os suavemente. Ah! os primeiros beijos de um amor em seu começo: o prazer de descobrir a textura dos lábios do outro, o calor de sua pele, o gosto, o cheiro…. Tudo aquilo que havia acontecido há mais de quarenta anos retornava com a nitidez de um filme. Chegou a lembrar que eles haviam apelidado de Knoten, – nó, em alemão -, aquela sensação no meio do peito provocada pela surpresa de um olhar, por um beijo ou por um simples toque dos dedos sem querer. Era uma vertigem no plexo , susto e gozo, – croce e delizia! – aperto e expansão ao mesmo tempo. Então, quem a sentisse tocava o próprio coração e isso queria dizer “der Knoten passou por aqui”. Deus, há quanto tempo! Sentiu saudade de si mesma naquele estado. Saudade de uma si mesma assim, no auge da vida. Aquela si mesma há tantos anos perdida. Nunca mais o privilégio de ter estado tão apaixonada. Nunca mais aquela dádiva dos deuses! Em que momento da existência perde-se o dom de sentir o Knoten no plexo solar? Vertiginoso como o Knoten, o tempo deles se esgotou. Por uma fatal coincidência, ele se apresentava em Genebra, num Concurso Internacional, na mesma semana em que ela partia para Gênova de onde um navio a levaria de volta para casa.

        Quanto tempo durara aquele amor? Pouco mais de quatro meses. Imensuráveis quatro meses. O primeiro trem foi o dele. Na gare de Viena! Choraram muito. Como é que não se morre de uma emoção assim tão forte? E houve juramentos e promessas. E beijos intermináveis até o último minuto:

        – Vou escrever já da Suíça. Minhas cartas hão de chegar antes do seu navio!

Mas ela fora invadida por um misterioso silêncio que só os soluços interrompiam…

        Nunca pôde se perdoar por não ter respondido as longas cartas que durante tantos meses ele escreveu. O reencontro com a família, com sua língua-mãe, com o seu país havia transformado Viena num lugar irreal e tudo o que ela vivera até então numa evanescente fantasia, um simples sonho.

        O rio do tempo continuou correndo….

        e se encarregou de tornar intransponível a distância que a separava do jovem pianista hindu e daquele outro mundo. Jamais soube se foi por imaturidade ou covardia que deixou morrer dentro de si a primavera, o amor, e a cidade dos sonhos.

        E o rio do tempo continuou correndo…

        Não se casou com o noivo que a esperava no cais, mas com outro, muito mais tarde, um homem mais velho que não a compreendia. Um dia descasou. Teve vários amores. E um dia ficou só, rodeada de livros, quadros, um piano de cauda e uma gata siamesa chamada Sissi. Finalmente era feliz, passara a pensar nos últimos anos. Mas depois daquele programa sobre a Índia, as imagens do jardim e de Viena voltaram a invadir a sua memória com inquietante insistência. Porque o amor é forte como a morte, diz o Cântico:

        “Põe-me como um selo sobre teu coração,

        como um selo (…)

        porque o amor é forte como a morte.”

        Na véspera do Natal, resolveu procurar alguma notícia do hindu na internet. E o desejado milagre da técnica aconteceu: achou seu nome, seu e-mail e uma pequena biografia: além de pianista, ele se tornara regente e era agora o maestro da orquestra de câmara de uma cidade alemã. Teve uma sensação antiga de medo e prazer. Mas em que termos mandaria uma mensagem? Pensou muito. Depois, cuidadosa, lentamente, escreveu uma longa carta onde soube incluir como que um pedido de perdão pelos “mais de quarenta anos de tão longo silêncio”.

        No dia de Reis chegou uma resposta que começava assim:

        “Que deliciosa surpresa!…

Leave a Reply