CARLOS REIS – BOM DIA! – DORI CAYMMI – COISAS DO MUNDO MINHA NEGA, de PAULINHO DA VIOLA

 

Coisas Do Mundo Minha Nega – YouTube

Coisas do mundo, pois claro.

Com aquele início de violão, quase como prefácio. Este samba vem mais uma vez preencher a minha obsessiva necessidade de gostar de saber e de dar a saber dos tais heróis desconhecidos, de escritores desconhecidos, de músicos que ninguém conhece. O seu autor, Paulinho da Viola (quase nunca ouvido falar, aqui em Portugal, país dito irmão) é também o autor daquele tema que o Chico Buarque celebrizou, “Sinal Fechado”, imagine-se. Quem diria.

E esta música, de um CD que comprei há uns bons anos, quase sem o ouvir (mentira, assim que ouvi este tema, comprei-o logo antes que esgotasse…) é feita daquelas histórias simples e o mais populares possíveis, mas tem uma poesia (“guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço”) tem uma ternura, tem mentira e tem graça, tem malandrice.

E claro, tem o balanço que só eles inventaram e conseguem explicar

E tem a voz barítona e quente do Dori Caymmi, um dos musicais filhos do Dorival Caymmi.

Tem o samba lento, discreto mas insinuante. A pequena pausa que antecede uma batida subitamente mais sentida – ainda assim sabiamente contida – a partir da belíssima frase  “Venho do samba tempo, nega” diz tudo ou quase tudo sobre toda esta filosofia musical que nos envolve e “puxa” para um balanço mental e corporal, para mexer com os dedos na mesa, seja onde for. Ou no violão, se acaso o conseguisse.

No final (“As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”) tudo fica em suspenso, há umas reticências musicais, um glissando do baixo e ele acaba, como um posfácio, com suaves acordes de violão que se vão desvanecendo.

Em suma, é muito bonito, tudo isto. Bolas prá conversa, vamos ouvir.

Carlos

Obrigado a Dori Caymmi – Tópico e ao youtube

 

 

Coisas Do Mundo Minha Nega

Paulinho da Viola

 

Hoje eu vim minha nega
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola onde gravei o teu nome

Nas mãos a mesma viola onde gravei o teu nome
Venho do samba tempo, nega
Fui parando por ai
Primeiro achei zé fuleiro que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Que está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se não dispunha de algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou de seu azar

 

Hoje eu vim, minha nega
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra pra não perder o valor

Depois encontrei seu bento, nega
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele que sorriu e adormeceu

 

Hoje eu vim, minha nega
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro a causa da discussão
Foi apenas um pandeiro
Que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim-me embora
Ninguém compreenderia um samba naquela hora

 

Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender…

 

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