A Guerra na Ucrânia e os seus impactos — 2. A Economia terá de operar à sombra dos políticos e militares (versão de 22 de Março de 2022) .  Por Jean Claude Werrebrouck

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

15 m de leitura

2. A Economia terá de operar à sombra dos políticos e militares (versão de 22 de Março de 2022) 

 Por Jean Claude Werrebrouck

Publicado por em 22 de Março de 2022 (original aqui)

 

A crise sanitária atirou as primeiras pedras contra uma ordem mundial constituída por um tecido económico que se pensava ser eficiente. Teme-se que a crise ucraniana ponha um fim definitivo a esta ordem.

 

O fim da caminhada global para uma ordem de mercado espontânea.

Construído a partir de uma série de ingredientes – doutrina da livre-troca, livre circulação de capitais, infraestruturas logísticas, segurança financeira das trocas, etc. – enormes e extremamente complexas cadeias de valor foram tecidas em todo o planeta e operadas com a precisão de um just-in-time garantido. Todos os bens e serviços, desde os mais simples aos mais complexos, chegavam aos armazéns, fábricas, escritórios ou às mesas dos consumidores com precisão de relógio e sem a segurança de stocks que costumavam ser acumulados outrora. Nessa altura, a lógica do “mandar fazer” prevaleceu sobre a do “fazer” e todas as instituições foram “horizontalizadas”: as fábricas tradicionais podiam ser largamente substituídas por trocas e até os Estados foram convidados a reduzir drasticamente o âmbito das suas atividades. Alguns deles, verdadeiros fósseis, eram agora meros reguladores da grande teia de trocas (União Europeia). Esta horizontalização sem limite do mundo também resultou numa nova antropologia: a relação entre o indivíduo e os outros já não se baseava na autoridade, mas no simples mercado. A perspetiva final de um tal mundo tornou-se assim encantadora: o fim das guerras entre Estados que estavam agora amordaçados ou desdentados, a melhoria económica contínua, a emancipação generalizada e o fim de todas as formas de submissão. Mas, evidentemente, com uma contrapartida: quaisquer dificuldades na vida tornam-se questões estritamente pessoais e raramente sociais. Em suma, o colapso institucional foi acompanhado por um individualismo crescente.

Contudo, este auge do mercado e da teia económica global que assim se gerou puderam, mesmo antes da crise sanitária, ser amplamente questionados.

 

Duas interrogações.

A primeira questão surgiu da tomada de consciência da fragilidade da rede global. Já se sabia que a prosperidade dava origem a produtos ou serviços cada vez mais complexos, cujos elementos eram produzidos em vários pontos da rede mundial e depois reunidos ou montados no quadro do modelo just-in-time. Se faltasse um elemento, a produção entraria em colapso, com reações em cadeia em toda a rede. Esta reflexão já sugeria que a crescente complexidade das cadeias deveria conduzir a um limite que todos os especialistas em qualidade da indústria conhecem: a qualidade global depende da qualidade do elemento menos fiável.

A rede financeira, que deveria articular-se com a rede da economia real, estava sem dúvida mais consciente da questão da fragilidade, daí o seu gigantesco espessamento com produtos de cobertura financeira para os riscos, ditos CDS e outros derivados, tudo isto por montantes que representam mais de 50 vezes o PIB mundial. Deste ponto de vista, à frágil rede da economia real devia corresponder uma rede muito maior da economia financeira. Não foi, portanto, surpreendente que a financeirização tenha gerado fluxos financeiros muito superiores aos fluxos reais. No entanto, esta espessura da rede financeira não a tornou menos frágil, e todos sabem que os produtos financeiros que supostamente cobrem os riscos apenas os adiam sem nunca os fazer desaparecer.

Uma segunda questão dizia respeito à presença de estados antigos ou emergentes na rede. Todos eles deixaram pelo menos um vestígio na rede, o das suas moedas, que circularam mais ou menos bem devido às suas qualidades intrínsecas. Entre estas, uma impôs-se fortemente e tornou-se a chamada moeda de reserva: o dólar dos Estados-Unidos. Isto significa que a imensa rede financeira que cobria a economia real favorecia muito este Estado antigo, que podia mais do que outros permitir o jogo da troca generalizada sem se preocupar com o equilíbrio das contas: os seus agentes podiam jogar sem limites na rede, enquanto todos os outros tinham de ser capazes de encontrar os recursos necessários para o jogo. Grandes Estados em construção, como o Estado chinês, tinham a ambição de utilizar a rede para conquistar um poder que muitos outros (União Europeia) tinham abandonado. Isso passava por um aparente respeito pelas regras do jogo e por tentativas reais de o conquistar. Na rede da economia real, isto foi feito através da autonomia tecnológica e da tentativa de impor novos padrões globais para substituir os antigos. Pense, por exemplo, nas tecnologias digitais ou no colapso mortífero das barreiras à entrada em muitos processos industriais. Na rede da economia financeira, isto foi feito desafiando o dólar nas trocas comerciais e tentando substituí-lo primeiro pelas moedas nacionais e eventualmente pela moeda chinesa.

No final, a rede, que se tinha tornado intrinsecamente cada vez mais frágil, foi desafiada pelo jogo dos Estados, não aqueles que aceitavam o seu próprio desaparecimento programado (União Europeia) mas aqueles que pretendiam obter mais especificamente lucros económicos (EUA) ou lucros em termos de poder (China). Esta heterogeneidade dos atores estatais na rede era também uma heterogeneidade antropológica: individualismo ilimitado nos espaços desertos pelos antigos Estados, manutenção da submissão naqueles movidos pela busca do poder.

 

A primeira ruptura na ordem mundial: a crise sanitária.

A crise da saúde irá destruir seriamente as duas redes – a dos produtos e serviços e a das finanças – da globalização do comércio. Recordemos brevemente os factos: rápido deslocamento da procura global com forte crescimento da procura de produtos digitais e colapso da procura de certos serviços, encerramento completo de unidades de produção na web, forte crescimento da dívida, etc. A rede mais apertada de produtos e serviços será rasgada e muitos produtos tornar-se-ão escassos devido à ausência de uma ou outra peça ou componente (entradas para a indústria farmacêutica, semicondutores, etc.). A rede financeira será em certa medida mais elástica devido às intervenções massivas dos bancos centrais: é mais fácil criar dinheiro do que encontrar um substituto para esta ou aquela peça industrial. Deste ponto de vista, a crise sanitária era mais um risco económico do que um colapso financeiro global.

O fim, pelo menos provisoriamente, da crise sanitária está a ter consequências lógicas: forte crescimento resultante dos défices públicos e o fim da poupança forçada, pressão sobre as matérias-primas, incluindo a energia que, na sua forma de combustível fóssil, já estava constrangida pela luta contra o aquecimento global, e pressão sobre a produção em áreas que permaneceram sob restrições do COVID. Tudo isto levou aos efeitos estagflacionistas que estamos a começar a viver.

 

A segunda rutura na ordem mundial: a crise ucraniana.

A crise ucraniana está a desenvolver consequências que de outra forma seriam temíveis, uma vez que serão agora os próprios políticos que vão decidir o rompimento das redes da globalização.

É aqui o rasgar da rede financeira que levará ao rasgar da rede da economia real. É muito difícil distinguir entre sanções financeiras e sanções em termos de economia real. A proibição dos bancos russos de poderem utilizar o sistema Swift é obviamente um encerramento das autoestradas para a circulação de valor: como financiar as importações russas do resto do mundo e as exportações russas para o resto do mundo? A rede rompe-se aqui no meio da fronteira entre o Ocidente e o que resta do império russo. Não se rompe completamente com os outros continentes e com a Rússia, mas as empresas arriscam-se a sanções dos EUA ao abrigo da extraterritorialidade da lei americana. As empresas ocidentais podem permanecer na Rússia, mas deixam de estar ligadas à vasta rede do passado. Este rompimento causa efeitos de contágio através de inputs que deixam de estar disponíveis de ambos os lados da rede rasgada. Pense, por exemplo, na indústria aeronáutica, que por um lado deixa de poder obter titânio e por outro não pode obter peças sobressalentes. Como é que a Decathlon Russia vai fornecer às suas lojas 80% de produtos importados se for afetada pelo desaparecimento da Swift? Os exemplos podem ser multiplicados infinitamente. Obviamente com efeitos de segunda ordem: aviões que já não podem ser fabricados e peças que já não podem ser entregues, ou – outro caso entre 1000 – os bens russos da família Mulliez que já não podem ser facilmente valorizados. As sanções no sistema Swift podem, no entanto, ser permanentemente reavaliadas ou mesmo evitadas, o que é evidentemente o caso da energia (embargo ou não sobre o gás, possibilidade de contas caucionadas, embargo sobre o petróleo, etc.).

Outra sanção financeira é evidentemente o congelamento das reservas do banco central russo, que impede qualquer acesso ao mercado de divisas e apoia a primeira sanção. Esta proibição acaba de causar o colapso do rublo e o encerramento da Bolsa de Valores de Moscovo.

 

O que vai acontecer ao dinheiro?

Mais genericamente, o dinheiro está de novo a tornar-se uma arma, enquanto era um instrumento muito seguro para a circulação do valor devido à sua convertibilidade generalizada, um instrumento cujo centro de gravidade se baseava essencialmente no dólar, que se tinha tornado a moeda central do sistema. A sanção relativa ao congelamento das reservas é, além disso, apenas o agravamento do que já vinha sendo praticado pelos EUA há muitos anos com multas em detrimento dos agentes que negociam em dólares e que não respeitam os embargos americanos em certos países (Irão, Sudão, etc.). E o dólar, mesmo que alterado pela extraterritorialidade da lei americana, provavelmente, não é substituível porque todas as moedas se tornarão armas potenciais mais formidáveis do que o dólar. A razão é que os Estados ou impérios em construção (Rússia, China, Turquia, etc.), que são menos democráticos na essência do que os EUA, não podem oferecer limites institucionais credíveis à ação arbitrária dos executivos correspondentes. Isto significa que o dólar pode ser cada vez menos a principal moeda, mas que não haverá nenhum candidato credível para o substituir. Significa também que as grandes empresas globais terão de se reconfigurar de acordo com estas ruturas, com, por exemplo, estruturas legais que permitam a especialização e a contenção de riscos (como no caso da Daimler, que está a dividir-se de acordo com os mercados chinês e americano).

Isto significa que as reservas dos bancos centrais do mundo perderão a sua utilidade e credibilidade: Como estas reservas são também potenciais armas nacionais, a sua capacidade de serem emprestadores de último recurso será diminuída. Daí os potenciais incumprimentos, ativação de cobertura dos Direitos de Saque Especiais, com os seus efeitos de contágio. Daí uma desconfiança na qualidade da rede financeira global, que se vai gradualmente desmoronando e sendo reconfigurada em torno de áreas monetárias. E uma desconfiança que também se manifestará em flutuações muito maiores nas taxas de câmbio e, portanto, em dificuldades em assegurar a rede de trocas dentro da economia do mundo real. A especulação sobre todos os inputs (bolsas de Chicago, London Metal Exchange, etc.) criará cada vez mais dificuldades para os atores da economia real, os quais procurarão reduzir ao máximo o seu envolvimento na rede global.

É provável que estes novos blocos monetários sejam acompanhados por zonas de normalização técnica e blocos tecnológicos que irão acelerar o deslocamento do lego industrial global. Conscientes desta realidade, os Estados que se tornaram fossilizados parecem estar a iniciar um processo de reconstituição. Assim, fala-se de “soberania europeia” com o nascimento do “Chips Act” europeu inteiramente orientado para a construção de um gigantesco pólo tecnológico envolvido na indústria de semicondutores. Construído em estreita parceria com a indústria a montante nos EUA (desenho de chips em torno de INTEL, Micron, Nvidia, AMD, etc.), é suposto tornar-se uma proteção contra o império chinês em formação.

Ao mesmo tempo, podem ser criadas zonas de circulação de energia, nomeadamente com a separação da Europa Ocidental do resto do continente eurasiático e a consolidação das trocas comerciais em yuans entre a Rússia e a China.

Voltando a ser uma arma em mãos políticas, a moeda está obviamente em risco de se tornar objeto de um dirigismo inflacionário conveniente: já não há limite para os défices orçamentais, uma realidade também exigida pela necessária construção ou reconstituição de um grande instrumento militar.

 

O euro num contexto de guerra

O futuro do euro parece depender de dois limites: o limite ideológico, correspondente ao desejo de permanecer unido em torno do objeto tabu em que a moeda única se tornou, e o comportamento tecnicamente possível de um banco central que não pode aumentar as suas taxas e deve abandonar as regras de proporcionalidade nas suas compras de dívidas públicas nacionais. Já sabemos que a guerra ucraniana não está a conseguir abrandar a especulação sobre as diferenças de taxas de juro entre os países do norte e do sul da zona. Será o banco central capaz de remediar esta situação sem abandonar os seus princípios orientadores? O grande retorno dos militares arrisca-se a lançar dúvidas sobre o triplo ajustamento liberal (par preços/salários ajustado à produtividade, equilíbrio orçamental, defesa da taxa de câmbio ao conter a inflação importada) que deu vida à moeda única.

A lógica da guerra conduz à primazia dos militares sobre o economista, o que ameaça o euro. Em troca, estas mesmas lógicas, porque geram grandes medos, cerram as fileiras em torno do que se tornou um tabu. Qual será a força que irá prevalecer?

_____________

O autor: Jean Claude Werrebrouck é economista, antigo professor na Universidade de Lille 2. Inicialmente especializado em questões de desenvolvimento e economia do petróleo, ele destacou-se no problema da natureza da renda petrolífera. Como Diretor do IUT foi integrado na equipa fundadora dos Institutos Universitários Profissionalizados (IUP).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leave a Reply