Seleção e tradução de Francisco Tavares
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5. O Império Americano Autodestrói-se
Publicado por
em 6 de Março de 2022 (original aqui)

Mas ninguém pensou que isso acontecesse tão depressa.
Os impérios seguem frequentemente o curso de uma tragédia grega, provocando precisamente o destino que pretendiam evitar. Este é certamente o caso do Império Americano, que se está a desmantelar a si mesmo a um ritmo não muito lento.
O pressuposto básico da previsão económica e diplomática é que cada país actuará no seu próprio interesse. Tal raciocínio não ajuda nada no mundo de hoje. Observadores de todo o espectro político estão a usar frases como “disparar sobre o próprio pé” para descrever o confronto diplomático dos EUA com a Rússia e os seus aliados.
Durante mais de uma geração, os diplomatas americanos mais proeminentes alertaram para o que pensavam representar a derradeira ameaça externa: uma aliança da Rússia e da China dominando a Eurásia. As sanções económicas e o confronto militar da América uniram esses dois países, e estão a levar outros países para a sua emergente órbita eurasiática.
Esperava-se que o poder económico e financeiro americano evitasse este destino. Durante o meio século decorrido desde que os Estados Unidos deixaram o ouro em 1971, os bancos centrais mundiais operaram segundo o Padrão do Dólar, mantendo as suas reservas monetárias internacionais sob a forma de títulos do Tesouro dos EUA, depósitos bancários dos EUA e acções e obrigações americanas. O padrão de títulos do Tesouro resultante permitiu à América financiar as suas despesas militares estrangeiras e a aquisição de investimentos de outros países simplesmente através da criação de IOUs (reconhecimento de dívida) em dólares. Os défices da balança de pagamentos dos EUA acabam como reservas nos bancos centrais dos países com excedentes de pagamentos, enquanto os devedores do Sul Global precisam de dólares para pagar aos seus obrigacionistas e conduzir o seu comércio externo.
Este privilégio monetário – o senhoriagem do dólar – permitiu à diplomacia dos EUA impor políticas neoliberais ao resto do mundo, sem ter de usar muita força militar própria, excepto para agarrar o petróleo do Próximo Oriente.
A recente escalada de sanções dos EUA que bloqueia a Europa, a Ásia e outros países do comércio e investimento com a Rússia, Irão e China impôs enormes custos de oportunidade – o custo das oportunidades perdidas – aos aliados dos EUA. E a recente confiscação do ouro e das reservas estrangeiras da Venezuela, Afeganistão e agora da Rússia, juntamente com o sequestro selectivo de contas bancárias de estrangeiros ricos (na esperança de conquistar os seus corações e mentes, juntamente com a recuperação das suas contas sequestradas), pôs fim à ideia de que as detenções de dólares ou as dos seus satélites da NATO em libras esterlinas e em euros são um porto de investimento seguro quando as condições económicas mundiais se tornam instáveis.
Por isso, sinto-me um pouco decepcionado ao observar a velocidade a que este sistema financeiramente centrado nos EUA se desdolarizou ao longo de apenas um ano ou dois. O tema básico do meu [livro] Super Imperialismo foi como, nos últimos cinquenta anos, o padrão títulos do Tesouro dos Estados Unidos canalizou poupanças estrangeiras para os mercados financeiros e bancos americanos, dando rédea solta à Diplomacia do Dólar. Pensei que a desdolarização seria liderada pela China e pela Rússia que se moveriam para assumir o controlo das suas economias para evitar o tipo de polarização financeira que está a impor austeridade aos Estados Unidos. Mas os responsáveis estado-unidenses estão a forçá-los a ultrapassar qualquer hesitação que tivessem para desdolarizar.
Eu esperava que o fim da economia imperial dolarizada viesse a acontecer por outros países que se separassem. Mas não foi isso que aconteceu. Os diplomatas americanos escolheram acabar eles próprios com a dolarização internacional, enquanto ajudam a Rússia a construir os seus próprios meios de produção agrícola e industrial autosuficientes. Este processo de fractura global já se arrasta há alguns anos, começando com as sanções que bloqueiam os aliados americanos da NATO e outros satélites económicos de fazerem trocas comerciais com a Rússia. Para a Rússia, estas sanções tiveram o mesmo efeito que as tarifas de protecção teriam tido.
A Rússia tinha permanecido demasiado encantada pela ideologia do mercado livre levando-a a não tomar medidas para proteger a sua própria agricultura ou indústria. Os Estados Unidos forneceram a ajuda que era necessária através da imposição de auto-suficiência interna à Rússia (através de sanções). Quando os Estados Bálticos largaram o mercado russo de queijo e outros produtos agrícolas, a Rússia rapidamente criou o seu próprio sector de queijo e lacticínios – ao mesmo tempo que se tornou o principal exportador mundial de cereais.
A Rússia está a descobrir (ou está à beira de descobrir) que não precisa de dólares americanos como suporte para a taxa de câmbio do rublo. O seu banco central pode criar os rublos necessários para pagar os salários internos e financiar a formação de capital. As confiscações americanas podem assim levar finalmente a Rússia a acabar com a filosofia monetária neoliberal, como Sergei Glaziev tem vindo a defender há muito tempo a favor da MMT [Modern Monetary Theory].
A mesma dinâmica de redução dos objectivos ostensivos dos EUA tem ocorrido com as sanções dos EUA contra os principais bilionários russos. A terapia de choque neoliberal e as privatizações dos anos 90 deixaram os cleptocratas russos com apenas uma forma de tirar proveito dos bens que tinham arrebatado do domínio público. Que foi incorporar as suas aquisições e vender as suas acções em Londres e Nova Iorque. As poupanças domésticas tinham sido dizimadas, e os conselheiros americanos persuadiram o banco central russo a não criar o seu próprio dinheiro em rublos.
O resultado foi que o património nacional russo de petróleo, gás e minerais não foi utilizado para financiar uma racionalização da indústria e habitação russas. Em vez de as receitas da privatização serem investidas para criar novos meios de protecção russos, foram queimadas em novas aquisições de bens imobiliários britânicos de luxo, iates e outros activos de capital de fuga mundial. Mas o efeito de tornar as participações russas em dólares, libras esterlinas e euros reféns foi fazer da cidade de Londres um local demasiado arriscado para manter os seus activos. Ao impor sanções aos russos mais ricos mais próximos de Putin, os responsáveis estado-unidenses esperavam induzi-los a opor-se à sua separação do Ocidente, e assim servir eficazmente como agentes de influência da NATO. Mas para os bilionários russos, o seu próprio país está a começar a parecer mais seguro.
Há muitas décadas que a Reserva Federal e o Tesouro lutam contra o ouro poder recuperar o seu papel nas reservas internacionais. Mas como irão a Índia e a Arábia Saudita ver as suas reservas em dólares quando Biden e Blinken tentam forçá-los a seguir a “ordem baseada em regras” dos EUA, em vez do seu próprio interesse nacional? Os recentes ditames dos Estados-Unidos deixaram poucas alternativas a não ser começar a proteger a sua própria autonomia política através da conversão das suas participações em dólares e euros em ouro como um activo livre de responsabilidade política de ser mantido refém das exigências cada vez mais dispendiosas e perturbadoras dos EUA.
A diplomacia americana tem esfregado o nariz da Europa na sua abjecta subserviência, dizendo aos seus governos para que as suas empresas se desfaçam dos activos russos por troca dos cêntimos no dólar, depois de as reservas estrangeiras da Rússia terem sido bloqueadas e de a taxa de câmbio do rublo ter baixado. Blackstone, Goldman Sachs e outros investidores estado-unidenses moveram-se rapidamente para comprar o que a Shell Oil e outras empresas estrangeiras estavam a descarregar.
Ninguém pensou que a ordem mundial do pós-guerra 1945-2020 cedesse tão depressa. Está a surgir uma ordem económica internacional verdadeiramente nova, embora ainda não esteja claro qual será a sua forma. Mas “picar o Urso” com o confronto EUA/NATO com a Rússia passou o nível de massa crítica. Já não se trata apenas da Ucrânia. Isso é apenas o gatilho, um catalisador para afastar grande parte do mundo da órbita dos EUA/NATO.
O próximo confronto pode vir dentro da própria Europa. Os políticos nacionalistas poderiam procurar liderar uma ruptura com o poder excessivo dos EUA sobre os seus aliados europeus e outros aliados, tentando em vão mantê-los dependentes do comércio e investimento com base nos EUA. O preço da sua obediência contínua é impor a inflação de custos à sua indústria, ao mesmo tempo que renunciam à sua política eleitoral democrática em subordinação aos procônsules Estado-unidenses da NATO.
Estas consequências não podem realmente ser consideradas “não esperadas”. Demasiados observadores assinalaram exactamente o que aconteceria – encabeçados pelo Presidente Putin e pelo Secretário dos Negócios Estrangeiros Lavrov explicando qual seria a sua resposta se a NATO insistisse em encurralá-los enquanto atacava os russófonos ucranianos de Leste e movimentava armamento pesado para a fronteira ocidental da Rússia. As consequências foram antecipadas. Os neoconservadores que controlam a política externa dos EUA simplesmente não se importaram. Consideraram que se reconhecessem essas preocupações seriam vistos como apoiantes de Putin.
Os responsáveis europeus não se sentiram desconfortáveis em contar ao mundo as suas preocupações de que Donald Trump estava louco e a perturbar o sistema da diplomacia internacional. Mas parecem ter ficado cegos ao ressurgimento do ódio visceral à Rússia, por parte do Secretário de Estado Blinken e de Victoria Nuland-Kagan. O modo de expressão e maneirismos do Trump podem ter sido grosseiros, mas o bando neoconservador estado-unidense tem obsessões de confrontação muito mais ameaçadoras a nível global. Para eles, era uma questão de qual a realidade que sairia vitoriosa: a “realidade” que acreditavam poder fazer, ou a realidade económica fora do controlo dos Estados Unidos.
O que os países estrangeiros não fizeram por si próprios – substituindo o FMI, o Banco Mundial e outras armas da diplomacia americana – os políticos americanos estão a forçá-los a fazer. Em vez de os países europeus, do Próximo Oriente e do Sul Global se separarem pelo seu próprio cálculo dos seus interesses económicos a longo prazo, a América está a afastá-los, tal como fez com a Rússia e a China. Mais políticos procuram o apoio dos eleitores perguntando se seriam melhor servidos por novos acordos monetários para substituir o comércio dolarizado, o investimento e mesmo o serviço da dívida externa.
A crise dos preços da energia e dos alimentos está a atingir especialmente os países do Sul Global, coincidindo com os seus próprios problemas de Covid-19 e o iminente serviço da dívida dolarizada a vencer. Alguma coisa deve ceder. Por quanto tempo irão estes países impor austeridade para pagar aos detentores de obrigações estrangeiras?
Como irão as economias americana e europeia enfrentar as suas sanções contra as importações de gás e petróleo russo, cobalto, alumínio, paládio e outros materiais básicos? Os diplomatas americanos elaboraram uma lista de matérias-primas de que a sua economia necessita desesperadamente e que, por conseguinte, estão isentos das sanções comerciais que estão a ser impostas. Isto fornece ao Sr. Putin uma lista útil de pontos de pressão a utilizar na remodelação da diplomacia mundial, e neste processo ajuda os países europeus e outros países a romperem a Cortina de Ferro que a América impôs para encerrar os seus satélites na dependência de fornecimentos norte-americanos a preços elevados.
Mas a ruptura final com o aventureirismo da NATO deve vir do interior dos próprios Estados Unidos. Com a aproximação das eleições intercalares deste ano, os políticos encontrarão um terreno fértil para mostrar aos eleitores americanos que a inflação de preços liderada pela gasolina e energia é um subproduto político da administração Biden que bloqueia as exportações russas de petróleo e gás. O gás é necessário não só para aquecimento e produção de energia, mas também para fazer fertilizantes, dos quais já existe uma escassez mundial. Isto é exacerbado pelo bloqueio das exportações de cereais russos e ucranianos, o que faz disparar os preços dos alimentos nos EUA e na Europa.
Tentar forçar a Rússia a responder militarmente e, assim, parecer mal ao resto do mundo está a revelar-se uma proeza destinada simplesmente a demonstrar a necessidade da Europa de contribuir mais para a NATO, comprar mais equipamento militar dos EUA e encerrar-se mais na dependência comercial e monetária dos Estados Unidos. A instabilidade que isto tem causado está a revelar-se ter o efeito de fazer os Estados Unidos parecerem tão ameaçadores como a Rússia.
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O autor: Michael Hudson é Presidente do The Institute for the Study of Long-Term Economic Trends (ISLET), Analista Financeiro de Wall Street, Distinto Professor de Investigação de Economia na Universidade do Missouri, Kansas City. É o autor de Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (Editions 1968, 2003, 2021), “and forgve them their debts” (2018), J is for Junk Economics (2017), Killing the Host (2015), The Bubble and Beyond (2012), Trade, Development and Foreign Debt (1992 & 2009) e de The Myth of Aid (1971), entre muitos outros.
A ISLET dedica-se à investigação sobre finanças nacionais e internacionais, rendimentos nacionais e contabilidade de balanço no que diz respeito a bens imóveis, e envolve-se também na história económica do antigo Próximo Oriente.
Michael actua como consultor económico de governos de todo o mundo, incluindo a China, Islândia e Letónia sobre finanças e direito fiscal.


