CARTA DE BRAGA – “das aves e dos passaritos” por António Oliveira

Tenho a sensação de ser necessário afastar do pensamento, um pouco só que seja, o drama da Ucrânia mas, por outro lado e ao mesmo tempo, também tenho notado e muito, como os passaritos, especialmente os pardais, estão a desaparecer dos espaços ajardinados, das nossas ruas e das árvores que as enfeitam; mas não são apenas os pardais, também os pintassilgos já quase não se vêm, como já não se ouvem os cantos das cotovias pelo amanhecer, nem dos rouxinóis ao cair da noite. Parece-me que só se aguentam os melros –e que bem eles cantam!– 

Vivo numa zona onde as árvores abundam, e sinto a falta dos chilreios e das revoadas que encontrei, quando para aqui vim. Muitos falam das alterações do clima, mas são muitos mais os que apontam o glifosato como um dos responsáveis por este desaparecimento, como das abelhas mais dos outros insectos que eles também usam para se alimentar. Até no café que frequento, com uma esplanada ao lado a dar para uma zona relvada e com uma oliveira no meio das mesas, já são raros os que aparecem e nem se viram os tordos, como antigamente, a bicar as azeitonas então maduras. Outros males haverá! 

Sou dos pensam que não deverá ser só do glifosato, mas reparo muito bem como agora só se olha para o céu quando passa ume ave grande, daquelas que transportam gente –isto por cá, que noutros lados transportam mísseis!– já ouvi comentar, e também não se dizem aves, mas sim aviões e, se calhar até por isso, também ajudaram mesmo a acabar com os pássaros, talvez fugidos para outros ares e outras árvores, de certeza mais acolhedores. 

Também sempre me lembro do Ruy Belo, e do seu livro ‘Todos os poemas’, por os ter cantado de uma maneira extraordinariamente simples, ‘Os pássaros nascem na ponta das árvores/ As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros/ Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores/ Os pássaros começam onde as árvores acabam/ Os pássaros fazem cantar as árvores’.

Nem sequer transcrevo agora o resto do poema, porque estes cinco versos iniciais são bem a imagem de tudo aquilo que sinto, quando saio de casa e já nem os consigo ouvir, quanto mais arranjar maneira de os ver. 

Mas hoje deu-me para isto, uma Carta para gente que não pense apenas em ecrãs, grandes ou pequenos, para ver guerras e dramas sociais, artistas e futeboleiros, mas aquela outra que se preocupa com o ambiente onde passa os dias, onde trabalha ou descansa, onde passeia ou até tecla no telemóvel ou no portátil.

E fui arrastado para tal, pela crónica de um jornal a contar uma lenda singela a envolver um monge, também abade do mosteiro de Leyre, na Navarra e um dos mosteiros mais antigos da Ibéria, mas lenda vinda já do século IX. Virila, assim se chamava o abade, saiu uma tarde do mosteiro para passear pelos montes, muito embrulhado nos seus pensamentos, até por o tema não ser fácil, por se tratar do inexplicável mistério da eternidade. Acontece que a certa altura do caminho que tomou, lá nos trilhos dos montes, acabou por se sentar, a ouvir encantado, o maravilhoso chilrear de um passarito. 

Quando acordou do encanto e regressou ao mosteiro, o mosteiro tinha mudado na forma e na organização, ele já não era o abade nem nenhum dos monges que ali estava o reconheceu. Virila, apanhado e encantado pela beleza do canto de um rouxinol, concluiu que tinha ficado trezentos anos naquele caminho entre os montes. Os monges, assombrados, reuniram-se depois na igreja do mosteiro. Então e, por uma das janelas entrou um rouxinol, levando no bico o anel de abade; deu-o a Virila e ouviram-no dizer ‘Virila, pensa como trezentos anos passaram num instante, só a escutar o meu cantar; mais ou menos o mesmo, assim será a eternidade!’ 

Na verdade, há alturas em que o tempo até parece não existir, por ele ser só a andada das coisas que passam! Talvez por isso possa desaparecer tão depressa, quando alguém nem dá conta de se passar coisa alguma lá ou em qualquer outro lugar, nem sequer reparar nos simples e inofensivos passaritos que até podem andar ali em volta, a debicar no chão ou, peitito ufano, a pedir e chamar companhia. 

E agora já posso voltar ao poema de Ruy Belo, ‘Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores/ mas deixo essa forma de dizer ao romancista/ é complicada e não se dá bem na poesia/ não foi ainda isolada da filosofia/ Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros/ Quem é que lá os pendura nos ramos?/ De quem é a mão a inúmera mão?/ Eu passo e muda-se-me o coração’.

Espero ainda, num dia qualquer, também conseguir ver os pássaros nascer nas pontas dos ramos das árvores!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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